Capítulo Nove: Desenhando Símbolos
Shen Luo acendeu a lamparina no canto da escrivaninha e, de dentro da manga, retirou os três pequenos frascos de porcelana e as folhas de papel amarelo, dispondo-os diante de si.
Não havia muitas folhas de papel amarelo, apenas algumas dezenas; tratava-se de papel próprio para escrever talismãs, cortado em tamanho adequado, porém de textura áspera, quase rude ao toque.
Em seguida, Shen Luo examinou os três frascos de porcelana e franziu o cenho.
No frasco que continha sangue de galo, o líquido já havia coagulado, tornando impossível derramar. Já o sangue de cão preto, embora ainda não totalmente endurecido, estava bastante viscoso.
“Assim não serve. Se não utilizar logo, temo que amanhã tudo estará perdido”, murmurou Shen Luo, preocupado.
Dito isso, abriu a gaveta sob a escrivaninha e retirou um pequeno pincel de cerdas rígidas e uma pedra de tinta feita de jade branco.
O pincel, de pelos de lobo, e a pedra de tinta, esculpida de um único bloco de jade, não eram artigos especialmente valiosos, mas sim objetos que ele carregava consigo desde que subira a montanha.
Primeiro, verteu o sangue de cão preto na pedra de tinta, e logo um leve odor metálico se espalhou pelo ar.
Shen Luo tomou o pincel e mexeu-o no sangue por alguns instantes; as cerdas logo se embebedaram do líquido, tingindo-se de um tom vermelho-escuro.
Pegou uma folha de papel amarelo, estendeu-a à sua frente e ergueu o pincel, mas, de repente, deteve-se.
“Melhor conferir novamente”, murmurou para si.
Então, abriu dois antigos livros esfolados, “Crônicas de Zhang, Mestre Celestial, Subjugador de Demônios” e “Verdadeiro Compêndio dos Talismãs Secretos”, colocando-os a seu lado.
No início do “Verdadeiro Compêndio dos Talismãs Secretos”, havia uma passagem nos capítulos gerais: “O talismã é união, é fé. Com meu espírito uno-me ao espírito do outro; com minha energia, à energia do outro. O espírito é sem forma, mas se manifesta no talismã.”
O texto explicava o motivo dos talismãs possuírem poderes ocultos: eles servem de ponte entre a essência vital do homem e a do céu, fixando forças invisíveis em suportes visíveis.
Assim, para desenhar talismãs, não basta concentração e mente livre de distrações, mas é necessário que o pincel deslize fluido e ininterrupto, para que a energia vital flua sem cessar, atingindo a perfeita união espiritual.
Porém, saber é fácil, fazer é difícil. Shen Luo, cético quanto à veracidade desses ensinamentos, achava difícil se entregar de corpo e alma, livre de todos os pensamentos dispersos.
Naquele instante, mesmo com o pincel em punho, sua mente era um emaranhado de ideias.
Desenhar talismãs não era novidade; já praticara em papel comum inúmeras vezes. No entanto, desenhá-los no papel amarelo, de modo formal, era a primeira vez.
“Talismã é a fusão do yin e yang, só a sinceridade absoluta permite sua eficácia...”
Shen Luo inspirou profundamente, levantou-se e firmou o corpo numa postura estável, recitando baixinho os versos do livro enquanto começava a desenhar.
Com as palavras “Ordem Divina” no início, os caracteres fluíam pelo papel como água corrente. Logo completou um talismã de proteção, intitulado “Cem Males Recuam”, considerado por ele o mais simples do livro.
Observando os traços ainda úmidos do sangue, comparou o resultado com o diagrama que figurava em “Crônicas de Zhang, Mestre Celestial, Subjugador de Demônios”, e franziu levemente a testa.
Embora parecidos, algo lhe parecia errado à primeira vista.
“O traço até segue o modelo, mas... parece carecer de fôlego, não tem aquele aspecto natural e pleno”, murmurou, semicerrando os olhos.
Após alguns instantes, ocorreu-lhe que, talvez, o problema estivesse nas pausas feitas durante a escrita, contrariando o que o livro ensinava sobre continuidade.
Com essa ideia, conteve a respiração e, impaciente, tentou novamente.
Contudo, por prender o ar e desconcentrar-se, o resultado foi ainda pior que a primeira tentativa.
Sem se deixar abater, Shen Luo descansou um pouco, regularizou a respiração e voltou a desenhar, folha após folha.
Para ele, a prática leva à perfeição. Já treinara centenas de vezes outros talismãs duvidosos em papel comum; acreditava que agora só precisava de um pouco mais de experiência.
Passou-se mais de uma hora.
Shen Luo parecia exausto, mas seus olhos cintilavam de entusiasmo.
Segurava numa mão um talismã recém-desenhado e, na outra, o livro aberto, alternando o olhar entre ambos.
“Agora sim, este aqui já se aproxima do que deve ser”, murmurou satisfeito.
Ainda que houvesse diferenças em relação ao modelo, a sensação de ruptura desaparecera.
Com esse progresso, sentiu uma onda de energia percorrer-lhe o corpo, dissipando toda a fadiga e dando lugar apenas à excitação.
O sangue de cão preto na pedra de tinta, porém, já era escasso. Shen Luo apanhou o frasco e despejou o restante.
Quando se preparava para continuar, hesitou.
“Será que esse talismã de proteção realmente funciona?”, pensou, incerto.
Apesar de simples e semelhante ao talismã de proteção doméstica ou de paz, sua finalidade era afastar o infortúnio, não possuindo efeito ofensivo. Mesmo que fizesse efeito, seria difícil perceber.
“Já sei! Vou tentar aquele outro!”
De súbito, bateu na testa ao recordar um episódio de “Crônicas de Zhang, Mestre Celestial, Subjugador de Demônios”.
Nele, o Mestre Celestial enfrenta um rato-demoníaco que atormentava uma família; após vários talismãs de proteção falharem, recorre a um talismã de ataque chamado “Pequeno Talismã do Trovão”, que reduziu o monstro a pó.
Shen Luo folheou rapidamente até a página e encontrou o diagrama do Pequeno Talismã do Trovão.
Apesar das muitas histórias contidas no livro, poucos envolviam talismãs; a maioria era de proteção e exorcismo. De ataque, havia apenas aquele.
“É esse mesmo...”, murmurou, sorrindo. Observou o desenho por um tempo e voltou a empunhar o pincel.
Diferente do talismã de proteção, o Pequeno Talismã do Trovão começava não com as palavras “Ordem Divina”, mas com o antigo caractere de “Trovão”, de difícil execução.
Shen Luo nunca o praticara antes, desperdiçando várias folhas na tentativa.
Sentiu pena, mas não desistiu. Só parou após gastar mais de dez folhas, conseguindo enfim um talismã satisfatório.
“Perfeição de energia e espírito é impossível garantir. Se vai funcionar, só o destino dirá...”, murmurou, excitado.
Aproveitando o embalo, continuou a desenhar, mas, entre dez tentativas, apenas uma ou duas eram aceitáveis.
Logo o sangue de cão preto acabou.
Após hesitar, destampou o frasco de cinábrio, despejou um pouco e misturou, fazendo ambos se amalgamarem rapidamente.
A ideia de misturar sangue de cão com cinábrio não era invenção de Shen Luo, mas uma técnica usada por Zhang, o Mestre Celestial, segundo o livro. Do contrário, ele não desperdiçaria os ingredientes.
O papel amarelo também já era escasso. Após desenhar mais dois Pequenos Talismãs do Trovão, consumiu todo o sangue de cão preto.
Shen Luo soltou um longo suspiro, apoiou-se exausto no braço da cadeira e deixou-se cair, completamente esgotado.