Capítulo Trinta: O Caminho dos Talismanes

O Senhor dos Grandes Sonhos Esquecendo Palavras 4413 palavras 2026-01-30 16:18:48

— Comprei, comprei! Ótima cinábrio de ponta de garça, e também estas folhas de papel Azul Gélido.

Yu Meng rapidamente recolheu o sorriso do rosto, apressando-se em retirar de dentro do peito um frasco de jade do tamanho de uma tigela, junto a um maço de folhas azuladas, que ergueu com ambas as mãos, oferecendo-as.

Seu semblante demonstrava certa inquietação, e seus olhos esgueiravam-se por entre os dedos, observando disfarçadamente o ancião, como se quisesse captar sua reação.

Shen Luo lançou um olhar distraído aos objetos nas mãos de Yu Meng, sentindo um leve sobressalto no coração.

Aquelas folhas de papel eram-lhe bastante familiares; tratava-se de papel para talismãs.

Porém, esse papel azul era bem mais espesso que o papel amarelo que costumava usar, demonstrando ser de qualidade muito superior.

O ancião de manto dourado fez um gesto com uma das mãos e, num instante, os objetos que estavam nas mãos de Yu Meng ergueram-se no ar, atravessando três ou quatro metros sob a força de um poder invisível, indo parar diretamente em suas mãos.

— Mover objetos à distância! — Os olhos de Shen Luo se arregalaram, admirado.

Ele já lera sobre esse tipo de arte em um antigo tomo da Observância da Primavera e do Outono, sempre se perguntando se seria real. Agora, presenciando tal habilidade de perto, não pôde deixar de se comover.

O ancião pouco se deteve no papel, mas demonstrou grande interesse pelo frasco de jade. Retirou a rolha, observou o interior, depois, com a unha do dedo mínimo, extraiu uma pitada do pó vermelho contido ali, cheirou-o e, por fim, provou-o com a ponta da língua, apenas então assentindo, satisfeito.

Yu Meng soltou um suspiro aliviado ao ver isso.

— Desta vez, o cinábrio está bom. Mantenha esse padrão daqui em diante e não ouse trazer mercadoria inferior, ou vai ver como eu lido com você... Hum, e quem é você?

O ancião interrompeu as palavras ao notar Shen Luo atrás de Yu Meng.

— Pai, este é o irmão Shen Luo, que hoje me ajudou a resistir à investida dos lobos nos muros da cidade. Ele acaba de chegar e ainda não encontrou abrigo; convidei-o para ficar conosco estes dias. Irmão Shen, este é meu pai, Yu Yan, que você já viu hoje durante o dia — explicou Yu Meng apressadamente.

— Shen Luo saúda o tio Yu — disse Shen Luo, inclinando-se com respeito.

Yu Yan lançou-lhe um olhar de esguelha, assentiu distraidamente e guardou o papel e o frasco no peito.

— Hoje tive a sorte de ver o senhor e demais mestres imortais em ação nos muros, foi realmente impressionante. Em especial, a arte dos talismãs do senhor é de um poder extraordinário, digno de grande admiração — Shen Luo, desejando estreitar laços com o mestre à sua frente, percebeu a frieza no semblante de Yu Yan e conduziu a conversa ao tema dos talismãs.

— Você entende de talismãs? — Como esperado, ao ouvir falar sobre talismãs, Yu Yan ergueu uma sobrancelha e lançou um olhar ao manto puído de Shen Luo, típico da Observância da Primavera e do Outono.

— Apenas conheço o básico. Sou de talento limitado e, apesar de anos de prática, pouco avancei na arte dos talismãs. Não ouso me comparar com as habilidades do senhor — respondeu Shen Luo, humildemente.

— A arte dos talismãs difere de outras práticas: é obscura, árida e exige dedicação e paciência extremas para se alcançar algum êxito. Se realmente perseverou até hoje, essa sua determinação já é digna de nota — Yu Yan assentiu levemente, lançando um olhar reprovador a Yu Meng.

Yu Meng coçou a nuca, desviando o olhar, constrangido.

Diante disso, Yu Yan resmungou pesadamente.

— O senhor é bondoso em suas palavras. Só me aproximei da arte dos talismãs porque, após ser possuído por energia sombria e não encontrar cura na medicina, fui salvo por um talismã de um grande mestre. Desde então, nutro verdadeira admiração pela arte — disse Shen Luo, atento às expressões de ambos.

— O mundo está cheio de medíocres, de visão curta, que consideram os talismãs uma arte menor, trabalhosa e ingrata. Mal sabem eles que, uma vez dominada, a arte dos talismãs pode invocar deuses, subjugar demônios e superar a maioria das demais práticas — Yu Yan pareceu ser tocado pelas palavras de Shen Luo, falando com certo ímpeto.

Shen Luo, ainda pouco versado nos assuntos do cultivo, surpreendeu-se ao saber da importância dos talismãs e demonstrou, no rosto, uma expressão de aprovação na medida certa.

— A arte dos talismãs recompensa o esforço contínuo; persista e seu futuro será promissor — Yu Yan, após desabafar, recuperou rapidamente a compostura e deu um tapinha encorajador no ombro de Shen Luo.

— Sim, agradeço os conselhos do senhor — respondeu Shen Luo, sério.

— O senhor vai passar a noite aqui, não é? Considere esta sua casa, fique à vontade — disse Yu Yan, mudando de atitude e sorrindo.

— Meng'er, tenho assuntos a tratar. Receba bem nosso hóspede em meu nome — instruiu Yu Yan ao filho.

— Fique tranquilo, pai — respondeu Yu Meng prontamente.

Yu Yan retirou-se para o interior da casa. Shen Luo e Yu Meng o acompanharam por alguns passos e então pararam.

— Não é que você levou jeito, amigo? É o primeiro que faz meu pai ficar tão animado! Normalmente, quando trago amigos, ele nem olha para a cara deles! — comentou Yu Meng assim que o pai se afastou, voltando ao seu jeito extrovertido.

— De fato, admiro a arte dos talismãs de seu pai. Não esperava que você fosse filho de um mestre imortal — disse Shen Luo, sorrindo, rememorando as cenas de magia que testemunhara nos muros e sentindo inveja.

Talvez houvesse práticas semelhantes na Observância da Primavera e do Outono, mas, por sua falta de talento, Shen Luo mal conseguira iniciar-se nos fundamentos da Pequena Arte de Transformação Solar, não tendo sequer acesso às artes superiores.

— O que há para invejar? Riscar talismãs é entediante, não é para mim. Prefiro o arco e a espada — disse Yu Meng, balançando as mãos.

— É mesmo uma pena — disse Shen Luo, balançando a cabeça.

— Chega desse assunto. Olhe para nós, sujos de sangue e suor. Vamos trocar de roupa primeiro — desconversou Yu Meng, sacudindo as mangas imundas.

— No tumulto de antes, perdi minha trouxa de roupas — comentou Shen Luo, franzindo o cenho ao olhar para si.

— São só algumas roupas. Use as minhas, não seja formal — respondeu Yu Meng, despreocupado.

Foram até o pavilhão dos fundos. Yu Meng foi tomar banho, enquanto Xiao Shun levou Shen Luo a outro quarto, onde já o aguardava um tonel cheio de água quente.

Xiao Shun despejou de um odre um líquido esverdeado na água, que logo adquiriu tom esmeralda.

— É uma mistura preparada pelo senhor da casa, ótima para o corpo. Foi ordem do jovem mestre — explicou Xiao Shun, ao notar a surpresa de Shen Luo.

— Muito obrigado — respondeu Shen Luo, admirado por dentro.

— Senhor Shen, há apenas uma criada, Xiaohua, que está auxiliando o jovem mestre no banho. Se desejar, pode aguardar um pouco, logo ele termina — ofereceu Xiao Shun.

— Não é necessário, posso cuidar de mim mesmo — recusou Shen Luo.

Xiao Shun assentiu, deixou um conjunto limpo de roupas e retirou-se.

Shen Luo despiu-se e entrou no banho. Enquanto lavava o corpo, refletia sobre os acontecimentos recentes.

O local deste sonho era completamente diferente da aldeia da primeira vez, mas sentia que havia alguma conexão entre os dois, embora ainda não conseguisse compreender qual.

Com esses pensamentos, terminou o banho, secou-se e vestiu as roupas limpas.

Fitou-se no espelho: a pele clara, os traços elegantes — um verdadeiro jovem nobre em tempos sombrios, ainda mais dotado de aura que sua aparência real.

Além disso, todo o cansaço parecia ter sumido; sentia-se revigorado.

Lembrando-se do líquido que Xiao Shun despejara na água, entendeu o motivo e saiu do quarto.