Capítulo Sessenta e Quatro: Harmonia entre Yin e Yang

O Senhor dos Grandes Sonhos Esquecendo Palavras 4299 palavras 2026-01-30 16:21:08

Shen Luo fitava o olhar para o desenho de tatuagem de caveira em seu ombro, sentindo um frio percorrer-lhe as costas. A caveira negra era tão realista que, à primeira vista, parecia mesmo morder-lhe o ombro, como se a qualquer momento pudesse saltar de sua pele; já as marcas de mordida anteriores tinham desaparecido por completo.

Após tantas experiências estranhas vividas em sonhos, Shen Luo já havia fortalecido muito sua capacidade de suportar o insólito, mas ver tal imagem de repente, na calada da noite, ainda fez seu coração estremecer. Respirou fundo, acalmando-se, e começou a observar a tatuagem atentamente.

Os traços negros que formavam o desenho assemelhavam-se aos padrões dos talismãs, exalando um ar de mistério inexplicável. Fora o aspecto assustador, a tatuagem não lhe causava dor ou incômodo, era como se nem existisse. Se não tivesse tirado a roupa naquele momento, talvez nem a percebesse.

“Será que tem ligação com aquela caveira branca de antes? Poderia essa tatuagem ser, na verdade, a manifestação daquela caveira?” pensou Shen Luo, passando a mão pelo queixo, conjecturando em silêncio.

Ele tocou o desenho, sentindo que a pele ali era igual ao restante, sem qualquer saliência ou depressão, como se fosse apenas uma tatuagem comum. Arranhou com força com as unhas, provocando apenas um leve ardor, mas o desenho permaneceu intacto, como se fizesse parte da pele desde sempre.

Refletindo por um instante, sentou-se de pernas cruzadas e começou a praticar a Pequena Arte de Transformação Solar, guiando o vigoroso qi solar de seu dantian até o ombro. Logo, uma tênue luz avermelhada envolveu seu ombro, resplandecendo na pele, mas a tatuagem de caveira manteve-se negra, exceto pelas aberturas dos olhos e do nariz, que também reluziam em vermelho. Não notou nenhuma outra diferença.

“Agora que a Pequena Arte de Transformação Solar atingiu a perfeição, o qi solar que consigo gerar é muito mais poderoso. Se fosse algo maligno e sombrio, não deveria permanecer tão inerte.” Mesmo assim, Shen Luo não desistiu e tentou diversos outros métodos: socou, bateu com a palma, mordeu, jogou água, tudo tentando remover a tatuagem, mas cada tentativa terminou em fracasso.

“Deixe para lá, parece não haver perigo imediato. Se não fosse por esse estranho episódio, eu jamais teria conseguido dominar a Pequena Arte de Transformação Solar. Espero que esta Técnica Anônima não seja tão árdua.” Sem se deixar consumir por dúvidas, voltou a concentrar-se na Técnica Anônima.

Pelas palavras do Mestre Fengyang e do Mestre Luo, se alguém dominasse a Pequena Arte de Transformação Solar, poderia ganhar dois ou três anos extras de vida. Contudo, Shen Luo sabia que essa pequena extensão de tempo não garantia que pudesse realizar seu objetivo; ainda era incerto. Mas, tendo chegado até ali, não cogitava recuar.

Com isso em mente, levantou-se, sacudiu os braços e entrou na pequena correnteza, sentando-se de pernas cruzadas na água rasa, que lhe cobria o peito e parava logo abaixo do pescoço.

Fechou os olhos, concentrou-se, e recordou cuidadosamente o primeiro mantra de cultivo da Técnica Anônima, recitando-o mentalmente até ter certeza. Em seguida, começou a praticar a respiração segundo o método prescrito.

Diferente da Pequena Arte de Transformação Solar, essa técnica enfatizava a conexão com o mundo exterior; enquanto respirava, precisava também concentrar-se e sentir o ambiente ao redor. No início, Shen Luo sentiu dificuldade, mas após alguns tropeços, acabou entrando no ritmo.

O qi solar de seu dantian começou a fluir lentamente pelo corpo, completando um ciclo e retornando levemente aquecido ao dantian. Ao mesmo tempo, fios de energia gélida penetravam-lhe dos arredores, acumulando-se nos membros, sem avançar para o peito ou abdômen.

Conforme o Livro Celestial Anônimo, aquela energia fria era o qi da água, o espírito aquático. Shen Luo continuou a praticar a técnica, repetindo o ciclo trinta e seis vezes.

A cada ciclo, o qi solar em seu dantian tornava-se mais ardente, até que, após trinta e seis repetições, parecia haver uma fogueira em seu interior. Já os membros, banhados pelo qi aquático, tornaram-se tão frios que pareciam congelados, quase a ponto de perder a sensibilidade.

Esse contraste entre calor e frio fazia Shen Luo sentir-se entre dois extremos, como se estivesse ao mesmo tempo no fogo e no gelo, numa dor excruciante, mas manteve-se firme, suportando com grande força de vontade.

Dar o passo para o Período de Refinamento do Qi, tornando-se um verdadeiro cultivador, dependia sobretudo de compreender a natureza da lei. Só ao alcançar esse entendimento alguém poderia dizer que realmente ingressou no caminho da imortalidade.

Segundo Bai Xiaotian, cada técnica de cultivo tinha seu próprio método para alcançar tal entendimento. O método registrado na Técnica Anônima era mobilizar o qi solar, absorver o qi aquático, circular ambos pelo corpo trinta e seis vezes, colocando-se num estado de alternância entre água e fogo.

Nessa situação, se conseguisse, por tentativas e intuição, fundir as duas energias numa interação sutil de yin e yang, faria o corpo integrar-se ao mundo, elevando o espírito a uma concentração sublime, e com isso tocaria a essência da lei.

Esse tipo de percepção era etéreo, como flores no espelho ou a lua na água: visível, mas difícil de alcançar, e as experiências variavam de pessoa para pessoa. Ainda assim, repetir o processo aumentava as chances de êxito, embora alguns, por limitação de talento ou compreensão, jamais tocassem esse ponto-chave, mesmo após uma vida inteira de esforço.

Shen Luo recitou novamente, em silêncio, o método da Técnica Anônima, ativando tanto o qi solar do dantian quanto o qi aquático acumulado nos membros.

As duas energias, uma quente e outra fria, entrelaçavam-se e colidiam dentro dele, fazendo seu rosto alternar entre tons lívidos e avermelhados.

Esse estado de conflito durou apenas um instante. O qi aquático, muito mais fraco, começou rapidamente a dissipar-se diante do vigor do qi solar.

Shen Luo suspirou, consciente de seu fracasso. Parecia que aquela técnica era tão difícil de cultivar quanto a Pequena Arte de Transformação Solar, ou talvez sua aptidão fosse mesmo limitada.

No entanto, era sua primeira tentativa, um simples experimento para sentir o processo, portanto não se sentiu decepcionado.

Mas então, uma mudança súbita ocorreu.

De repente, sentiu o ombro direito gelar, e uma poderosa energia sombria jorrou dali para dentro de seu corpo. Seu corpo ficou rígido, e uma fina camada de gelo branco cobriu-lhe a pele em instantes.

Como ocorrera antes, o frio intenso não afetou o ambiente: a água continuava a fluir, sem alterar a temperatura. Ao invadir o corpo de Shen Luo, a energia sombria avançou direto para o dantian, chocando-se violentamente com o qi solar.

Um estrondo surdo ecoou por dentro dele, sacudindo-lhe os órgãos e vísceras. Os meridianos ardiam em dor, e Shen Luo mal conseguia mover-se, quanto mais controlar as duas forças em conflito. Restava-lhe apenas deixar que colidissem descontroladamente.

Não demorou, porém, para que ambas as energias cessassem o confronto e começassem a se entrelaçar, tornando-se complementares. Nesse momento, Shen Luo sentiu como se tivesse aberto uma porta misteriosa, uma onda de prazer indescritível inundando-lhe o corpo e a mente, levando-o a uma imersão total.

Agora, ele percebia o qi aquático ao redor fluindo para dentro de seus membros, enquanto o qi solar do dantian se fundia naturalmente com ele, num processo espontâneo que não exigia esforço algum.

Era como se tudo aquilo devesse acontecer desde sempre.