Capítulo Cinquenta e Quatro: Busca sob a Chuva

O Senhor dos Grandes Sonhos Esquecendo Palavras 4815 palavras 2026-01-30 16:20:13

Shen Luo foi até a cidade, enviou uma carta para casa na estalagem e, em seguida, montou em seu cavalo, saindo rapidamente da cidade e retornando sem demora ao porto de travessia em Huang Wei Dang.

O céu de verão mudava num piscar de olhos; há pouco ainda estava claro, mas de repente nuvens negras se acumularam, um vendaval se ergueu e o cenário se tornou uma típica antevisão de tempestade iminente.

Shen Luo olhou para o céu, prendeu o cavalo a uma árvore próxima ao porto, desamarrou o pequeno barco de lona preta preso a um tronco e saltou para dentro dele.

– Senhor, hoje não é dia de navegar. Veja o tempo, logo cairá um temporal. Este trecho do rio é estreito, quando chove forte a correnteza fica perigosamente violenta, nem mesmo barqueiros experientes ousam entrar na água nessas condições – alertou Yu Dadan, saindo de sua cabana de palha, com um avental na cintura, provavelmente cozinhando. Ao ver o gesto de Shen Luo, apressou-se a detê-lo.

– Obrigado pelo aviso, irmão Yu. Eu sei o que faço – respondeu Shen Luo, acenando para Yu Dadan. Com um toque do bambu na margem, o barco deslizou suavemente, seguindo a correnteza em direção ao sul.

Segundo Yu Yan, o Mestre Celestial Yu teria encontrado o Livro Celestial Anônimo justamente num dia de tempestade. Talvez este clima fosse a oportunidade que esperava.

É claro, se a situação do rio se tornasse realmente perigosa, ele não iria arriscar a vida.

– Senhor, há muitos recifes rio abaixo. Se a corrente estiver muito forte, mesmo o barco mais resistente não aguentará uma colisão. Volte agora! – gritou Yu Dadan, aflito.

Mas Shen Luo não respondeu. O barco, levado pelo vento e pela água, rapidamente se afastou.

Sua habilidade em manejar o barco estava bem melhor do que no dia anterior. Logo chegou àquela mesma enseada de pedras de ontem; embora o céu estivesse ainda mais carregado do que na partida, ainda não havia começado a chover.

Shen Luo ancorou o barco junto a uma das pedras marrons do rio. Quando se preparava para avançar, parou de repente e observou atentamente o recife que emergia dois pés acima da água.

– Vou começar por você! – murmurou.

Pegou uma corda bem presa, amarrou-a à cintura, tirou de si um Talismã de Busca de Tesouros, colocou uma Pedra Elemental sobre ele e cuidadosamente canalizou sua energia.

Logo, uma névoa branca brotou da pedra e, guiada por fios vermelhos na palma de Shen Luo, penetrou no talismã.

À medida que os símbolos do talismã brilhavam, formando um halo esbranquiçado, Shen Luo recolheu os fios vermelhos, interrompendo o fluxo. A pedra, antes repleta de energia, acalmou-se; a quantidade de energia branca diminuiu, quase imperceptivelmente.

Mesmo sem acionar totalmente o talismã, só pelo início do processo já percebia que não se formava aquele aglomerado de luz branca como da primeira vez.

Ele tinha poucas Pedras Elementais e precisava economizar. Por isso, pensou nesse método alternativo.

No entanto, nas tentativas seguintes, sete ou oito talismãs falharam, consumindo quase um quinto da energia das pedras.

Não era surpresa para Shen Luo; afinal, o primeiro Talismã de Busca de Tesouros só funcionou por acaso. Reproduzi-lo não seria fácil.

Suspirou, retirou outro talismã novo e tentou novamente.

Fracasso...

Fracasso...

E mais fracasso...

Em pouco tempo, da pilha espessa de talismãs, restavam apenas alguns, e uma Pedra Elemental quase esgotada.

Mesmo preparado para o pior, quarenta fracassos consecutivos abalaram sua confiança.

Será que este talismã dependia mesmo da sorte?

Se assim fosse, a coisa se complicava. Com tantos recifes espalhados pelo rio, encontrar o Livro Celestial Anônimo seria como procurar uma agulha no palheiro.

– Se não conseguir hoje, volto amanhã. Não acredito que, tentando cem, mil vezes, não consiga uma única vez! – murmurou Shen Luo.

O Livro Celestial Anônimo era sua única esperança, não podia desistir.

Convencido disso, recuperou a calma, pegou outro talismã e prosseguiu.

Um zumbido ecoou.

Com o último resquício de energia da Pedra Elemental, um halo branco suave emergiu do talismã, formando uma esfera de luz do tamanho de uma bacia.

Shen Luo ficou atônito, e só então reagiu, sentindo o rosto corar de animação!

Era exatamente aquela esfera de luz branca, não havia erro; só era um pouco menor do que aquela criada por acaso naquela noite.

Mas Shen Luo logo se lembrou de algo, e sua alegria diminuiu. Aproximou o talismã da pedra marrom ao lado.

Como havia pouca energia infundida, o brilho do talismã começou a enfraquecer, mas a esfera de luz ainda pairava sobre o recife.

A luz branca pulsou suavemente, e a pedra rapidamente tornou-se semitransparente.

Porém, a cena durou apenas um ou dois segundos; a esfera piscou duas vezes e desapareceu junto com o brilho do talismã.

Shen Luo não ativou o talismã de imediato. Guardou-o com cuidado, examinando-o atentamente.

Memorizou cada detalhe dos símbolos, tentando recordar todo o processo de criação do talismã. Começava a perceber diferenças entre o Talismã de Busca de Tesouros e o Talismã do Pequeno Trovão.

Quando se preparava para continuar a análise, percebeu que as nuvens negras estavam ainda mais baixas, anunciando uma chuva iminente.

Shen Luo olhou para o céu, desistiu de estudar mais, pegou outra Pedra Elemental e ativou o talismã.

Outro zumbido!

O talismã brilhou intensamente, formando uma esfera branca com cerca de três metros de diâmetro, envolvendo o recife marrom, que rapidamente ficou translúcido.

A luz também envolveu a água turva ao redor, mas diferentemente das pedras, a água não ficou transparente nem foi iluminada.

Sem hesitar, Shen Luo esmagou o talismã.

A esfera branca se desfez em incontáveis globos de luz, espalhando-se ao redor como vaga-lumes. Alguns penetraram na água e sumiram.

Shen Luo seguiu com o olhar todos os globos, observando seus movimentos.

Logo, as luzes se espalharam por dezenas de metros. No ambiente escuro, eram facilmente visíveis.

De repente, uma grande porção de luzes à frente pareceu atraída por algo, tremeu e afundou, desaparecendo no rio.

Satisfeito, Shen Luo não perdeu tempo remando; saltou na água e mergulhou na direção das luzes, sem hesitar.

Movia-se o mais rápido que podia, mas ainda assim era mais lento que as luzes.

Quando chegou ao fundo, todos os globos tinham sumido, restando-lhe apenas a direção, próxima a um grupo de pedras perto dos juncos da margem sul.

Nadou até lá e, ao chegar, ficou surpreso.

Mesmo com a pouca luz, notou que as pedras eram grandes, negras como mós, de superfície lisa, diferentes de todas as outras dali, totalizando mais de uma dúzia.

O estranho era que as pedras não estavam dispostas ao acaso; formavam, ainda que vagamente, um padrão.

Shen Luo refletiu por um instante e arregalou os olhos.

O desenho era claramente o de um crânio!

Com o fôlego já no limite e assustado com a descoberta, soltou de súbito uma grande bolha e subiu rapidamente à superfície, respirando ofegante por um bom tempo até se acalmar.

– Como pode haver algo tão estranho no fundo do rio? Seria coincidência ou obra de alguém? – pensou, ainda nervoso.

Agora, as nuvens de chumbo quase tocavam sua cabeça, o vento agitava as águas, e o barco balançava, batendo nas pedras com força.

– Céus, ajudem-me, que esta chuva demore mais um pouco! – murmurou, olhando ao redor e memorizando o local antes de voltar ao barco.

Avançou com o barquinho mais um trecho, prendeu-o firmemente entre duas grandes pedras, garantindo que não seria arrastado pela correnteza.

Calculou a distância e, prestes a mergulhar de novo, hesitou por um instante. Depois, tirou do embrulho todas as restantes Talismãs de Busca de Tesouros, dois Talismãs do Pequeno Trovão e as três últimas Pedras Elementais, guardando-os junto ao corpo antes de pular novamente no rio.

Nesse instante, um raio cortou o céu, seguido por um trovão ensurdecedor. Chuva pesada, com gotas grossas como feijões, desabou cobrindo tudo.

– Será que nem os céus me ajudam! – praguejou Shen Luo. Justo quando achara pistas, aquela chuva veio na pior hora possível.

Mas não havia tempo a perder. Ele mergulhou no rio, nadando decidido em direção ao local de antes.