Capítulo Sessenta e Um – Sem Encontrar Resposta
Quando Shen Luo retornou à cidade de Songfan, já era ainda mais tarde do que no dia anterior, e os portões estavam novamente fechados.
— Parece que eu e esta cidade de Songfan realmente não temos sorte um com o outro — murmurou Shen Luo, sorrindo de si para si. Virou o cavalo e seguiu em direção a uma vila próxima.
Por conta do desmaio do dia anterior, os funcionários das hospedarias da vila ainda se lembravam de Shen Luo e todos o evitavam como se fosse um mensageiro de desgraças, nem cogitavam chamá-lo para entrar.
Shen Luo não se importou com isso, sentiu até um certo alívio no coração.
Aparentemente, Liu Baichuan e o gerente Hou não haviam revelado sua identidade. Afinal, essa viagem era secreta, e agora que encontrara uma oportunidade, se fosse muito notório, não seria impossível que as notícias chegassem de volta ao Condado de Chunhua ou ao Templo da Primavera e do Outono, atraindo problemas desnecessários.
Shen Luo esporeou o cavalo até a mesma hospedaria de antes, onde o pequeno servente continuava na porta.
— Senhor Shen! Retornou para se hospedar em nossa humilde casa, seja muito bem-vindo! — O rapaz, ao vê-lo, teve os olhos iluminados e apressou-se a segurar as rédeas do cavalo.
Shen Luo assentiu, desmontou e entregou-lhe as rédeas, entrando na hospedaria.
O movimento dentro do estabelecimento continuava escasso, e na sala principal quase não havia clientes.
— Senhor Shen, que honra tê-lo aqui! Nossa modesta casa se enche de esplendor com sua presença! — O gerente Hou, que fazia contas atrás do balcão, não conseguiu esconder a alegria ao avistar Shen Luo, largou o livro-caixa e correu para recebê-lo.
— O senhor é muito gentil, gerente Hou. Por favor, arranje um quarto tranquilo para mim — pediu Shen Luo com serenidade.
— Sem problemas, por aqui, por favor. Pequeno San, cuide das coisas aqui — respondeu prontamente o gerente Hou, conduzindo Shen Luo pessoalmente. Os poucos clientes presentes ficaram surpresos, trocando cochichos para tentar adivinhar quem seria aquele hóspede especial.
Atravessaram um corredor nos fundos da hospedaria e chegaram a um quarto nos limites do prédio.
No pátio à frente do quarto, havia uma frondosa figueira, cujos galhos altos e folhas densas sombreavam a janela, cobrindo todo o aposento com uma penumbra agradável e serena.
— Este quarto fica bem afastado da rua, é extremamente silencioso e, quanto à mobília, é o melhor que temos. O senhor se sente confortável aqui? — perguntou o gerente Hou, abrindo a porta e convidando Shen Luo a entrar.
No interior, móveis de madeira avermelhada, entalhados com dragões e fênixes, conferiam um ar antigo e refinado, muito superior ao quarto anterior.
— Está ótimo, fico com este — respondeu Shen Luo, que não se importava tanto com o luxo, mas apreciou o sossego do local.
— E o senhor pretende ficar quantos dias desta vez? — indagou o gerente Hou, animado ao perceber que Shen Luo estava satisfeito.
— Talvez dois ou três dias. E, por favor, sem que os funcionários venham me incomodar, a menos que eu peça. Também peço que minha identidade e minha estadia aqui não sejam comentadas com ninguém, nem mesmo com Liu Baichuan — acrescentou Shen Luo, após refletir um instante.
— Pode ficar tranquilo, senhor. Se tem algo em que sou bom, é em manter segredo. Além disso, o doutor Liu saiu para atender pacientes e só deve voltar daqui a uns dias — garantiu o gerente, batendo no peito.
— Ótimo — assentiu Shen Luo.
— O senhor parece exausto de viagem. Sugiro que descanse um pouco. Mais tarde, posso mandar o jantar ao seu quarto — ofereceu o gerente Hou.
— Não será necessário. Quero repousar cedo hoje — recusou Shen Luo com um gesto. Agora que dominara completamente a Pequena Técnica de Circulação Solar, sentia-se cheio de energia, sem fome ou cansaço, mas guardou isso para si.
— Então, desejo-lhe boa noite. Não o incomodarei mais — disse o gerente, despedindo-se com um sorriso e fechando a porta ao sair.
Shen Luo achou curiosa a gentileza do gerente, mas, pensando bem, não viu nada de errado. Talvez fosse por sua certa fama no Condado de Chunhua, então decidiu não se preocupar.
Assim que ouviu os passos do gerente se afastarem, trancou a porta por dentro, fechou a janela e certificou-se de que ninguém poderia entrar. Só então sentou-se na cama, ansioso, e retirou a caixa de pedra, de onde pegou o pergaminho de pele.
Mal ergueu o livro, exclamou levemente, virou o pergaminho e examinou a última página.
No verso, havia sinais claros de que fora arrancada uma folha.
Antes, ao se concentrar nos caracteres antigos do texto, não havia reparado nisso.
— Será que este pergaminho é apenas uma parte da obra? — franziu o cenho.
Não se deteve nessa questão. Se só encontrara metade, provavelmente o tal barqueiro que, segundo Yu Yan, tornou-se o “Mestre Celestial Yu”, também só teve acesso a essa porção.
Recobrando a concentração, Shen Luo abriu o pergaminho na primeira página e começou a ler palavra por palavra, tentando decifrar o conteúdo.
O tempo passou, e logo meia hora se foi.
Por fim, Shen Luo ergueu a cabeça com a testa franzida, suspirou e largou o pergaminho na cama, jogando-se de costas, exausto.
Apesar da vontade de compreender o texto, conhecia pouquíssimos dos caracteres antigos — mal conseguia identificar quatro ou cinco por página.
Sabia que se tratava de uma escrita muito arcaica e complexa, da qual só vira menções esparsas em alguns registros. Era impossível decifrar os caracteres desconhecidos apenas por dedução; com seu nível, desvendar os mistérios do pergaminho seria como sonhar acordado.
— Será que preciso aprender antes essa antiga escrita? — pensou Shen Luo, inquieto.
Mas onde poderia aprender algo assim? No mínimo, durante todo o tempo que viveu no Condado de Chunhua, jamais ouvira falar de algum sábio que dominasse tal linguagem.
E mesmo que encontrasse alguém capaz de ler, o conteúdo do livro corria o risco de ser revelado. Uma obra com potencial para conduzir alguém ao caminho da iluminação certamente despertaria cobiça.
Pensou e repensou, mas não encontrou solução segura.
— Como será que aquele “Mestre Celestial Yu” resolveu esse problema? Era apenas um barqueiro, dificilmente conhecia tal escrita…
— Enfim, se for preciso, posso dedicar um ou dois anos para aprender esses caracteres antigos. Afinal, já dominei a Pequena Técnica de Circulação Solar, posso me dar a esse luxo — murmurou Shen Luo, sentando-se e agarrando novamente o pergaminho. Mas, ao fazer isso, sua mão parou e um brilho de alerta surgiu em seus olhos.