Capítulo Sessenta e Cinco: Compreensão das Leis
Não se sabe quanto tempo se passou até que a consciência de Shen Luo começasse a retornar, aos poucos, à lucidez.
Ele abriu os olhos e percebeu que, do pescoço para baixo, continuava submerso nas águas do riacho. Primeiro se assustou, depois ficou surpreso.
Embora já fosse verão, a água do riacho, nas primeiras horas da manhã, permanecia gélida e cortante. Qualquer pessoa robusta, se permanecesse ali durante toda a noite, provavelmente acabaria adoecendo gravemente, quanto mais ele, com sua constituição debilitada.
Porém, estranhamente, ele não sentia o frio cortante da água; ao contrário, parecia-lhe confortável estar imerso nela, como se todo o seu corpo se sentisse revigorado.
Intrigado, Shen Luo ergueu-se lentamente da água.
O céu já estava bem claro. Os raios dourados do sol matinal se espalhavam, iluminando tudo ao redor.
Mas aos olhos dele, o mundo parecia completamente diferente do que era antes: nunca estivera tão claro, nunca fora tão nítido.
Shen Luo, como se intuísse algo, olhou ao redor, e para sua surpresa, descobriu que sua visão havia melhorado de maneira extraordinária!
Ele podia enxergar, com facilidade, cada nervura das folhas das árvores a dezenas de metros de distância, distinguia as formigas que subiam e desciam pelos troncos e até mesmo as lagartas que se arrastavam entre as folhas densas, esticando e encolhendo o corpo, não escapavam ao seu olhar.
Recobrando o ânimo, olhou ainda mais longe.
A vila, a vários quilômetros dali, apareceu diante de seus olhos com uma nitidez impressionante: as ruas sinuosas de pedras azuladas, as casas de onde subia a fumaça das cozinhas, alguns comerciantes madrugadores arrumando suas mercadorias, crianças brincando diante das portas de casa...
Sua audição também se tornara incrivelmente aguçada: além dos sons naturais de insetos e pássaros ao redor, muitos outros sons desconhecidos chegavam até ele. No campo próximo, um rato corria entre as plantações; entre as flores, à margem do riacho, duas borboletas batiam as asas com um sussurrar suave; dentro de uma toca na beira do riacho, um caranguejo cavava a terra, soltando bolhas e fazendo ruídos abafados...
Seu olfato não ficava atrás: o cheiro forte da terra, a fragrância das flores e ervas, o odor adocicado das folhas em decomposição, junto com dezenas de outros aromas, invadiram suas narinas ao mesmo tempo.
"Que cheiro horrível é esse?" murmurou Shen Luo, levando a mão ao nariz.
Naquele instante, um fedor nauseante pareceu irromper diante dele, algo que antes passara despercebido.
Ao tocar o rosto, percebeu uma camada escorregadia. Levou a mão diante dos olhos e viu que estava coberta por uma substância negra, semelhante a lama.
Aquele odor vinha justamente dali.
Rapidamente, esfregou o rosto e o pescoço, retirando aquela camada de sujeira negra, e lavou-se no riacho.
Livre daquela crosta, sentiu-se revigorado, o espírito leve e uma alegria indescritível tomou conta de seu peito.
Seus cinco sentidos haviam sofrido uma transformação fundamental sem que ele se desse conta, uma mudança muito além do que alcançara ao concluir a Pequena Arte do Sol Nascente. Era uma elevação genuína de qualidade!
Nesse momento, lembrou-se bruscamente do que acontecera na noite anterior: estava tentando praticar a técnica registrada no misterioso Livro Celestial, e então, de repente, perdera a consciência.
“Lembro-me de ter seguido os passos descritos, circulando a energia trinta e seis vezes pelo corpo. Será possível que essa técnica seja mesmo tão extraordinária? Logo no início da prática, meus cinco sentidos se aprimoram dessa forma? Não importa, seja como for, não é algo ruim.”
Inspirou fundo, acalmou-se e começou a sair da água em direção à margem.
No entanto, a meio caminho, parou subitamente, com o pé direito suspenso no ar, imóvel, como se petrificado ali.
Foi então que percebeu algo além da ampliação dos sentidos: uma sensação sutil e misteriosa, como se agora fosse capaz de perceber uma presença etérea que antes lhe passava despercebida.
Essa presença parecia estar em tudo ao redor: no ar, na terra, na água corrente, nas plantas — em todos os elementos do mundo, em maior ou menor grau, com formas variadas... até mesmo dentro de si, concentrada no campo de energia do baixo ventre.
Com receio de dissipar aquela percepção delicada, Shen Luo permaneceu imóvel.
Fechou os olhos lentamente, concentrando-se para sentir a existência daquela “substância etérea” no centro de energia do corpo.
Era como um fio de ar gélido, circulando no baixo ventre, emitindo uma leve energia pulsante. Sempre que a antiga energia solar, forte e quente, entrava em contato com aquela corrente fria, recuava imediatamente, dando-lhe espaço.
“Isto... isto é poder mágico! Eu já alcancei a natureza mágica!” exclamou Shen Luo, abrindo os olhos, e, num ímpeto, desceu o pé direito na água, levantando uma grande onda.
A onda fria que sentia era idêntica à energia branca das pedras de essência e ao fluxo emitido pelos mestres imortais como Yu Yan. Não havia dúvida: era poder mágico.
Desde que soubera da existência das artes da imortalidade e do poder mágico neste mundo, Shen Luo sonhara constantemente em atravessar esse limiar e alcançar esse patamar.
Para a maioria das pessoas, esse passo era praticamente inalcançável; para ele, era ainda mais inatingível.
Talvez fosse a pressão de uma expectativa de vida curta, ou a obstinação por um ideal, mas nunca desistira, mesmo sem saber quanto esforço havia dedicado. E, surpreendentemente, todos esses esforços finalmente deram resultado!
Quase sem perceber, ele havia atravessado o limiar da natureza mágica, cultivando o poder arcano e dando o primeiro passo no caminho do cultivo!
As mãos de Shen Luo se fecharam em punhos, tão forte que as unhas cravaram-se na carne, mas ele mal sentiu dor.
Somente passado algum tempo conseguiu se acalmar e refletir sobre tudo o que acontecera, percebendo então algo estranho.
Segundo o que Bai Xiao Tian dissera, atingir a natureza mágica era um marco fundamental no caminho do cultivo, extremamente difícil de ultrapassar. Muitos, mesmo com grande talento e recursos, passavam anos aprimorando as técnicas de base, tomando elixires raros, mas nunca conseguiam dar esse passo. Exemplos assim não faltavam no Observatório da Primavera e Outono.
Ele próprio levara dois anos apenas para iniciar a Pequena Arte do Sol Nascente, e já se preparava para dedicar os poucos anos que lhe restavam a superar esse obstáculo, sem grandes esperanças de sucesso.
No entanto, logo na primeira tentativa dessa técnica desconhecida, já havia atravessado a barreira. Era algo inacreditável.
Mesmo que essa técnica fosse superior ao Puro Jogo da Espada Solar do observatório, não deveria ser tão fácil assim.
Era como se tivesse recebido ajuda dos céus!
“Ajuda divina...”
Nesse instante, Shen Luo recordou a onda de frio intenso que sentira na noite passada.
Naquele momento, a energia aquática que absorvera do riacho já se dispersara, mas aquela corrente gelada surgiu de repente, lançando-o num estado de esquecimento total do corpo e da mente.
“Lembro-me que aquela onda de frio veio do meu ombro direito. Será que está relacionada a isso?” Pensando nisso, olhou instintivamente para a tatuagem de caveira em seu ombro direito.
A tatuagem continuava vívida como sempre, sem qualquer alteração.
Por algum motivo, aquela imagem, que antes lhe parecia sinistra, agora já não lhe causava desconforto.
“Talvez esta seja a tal sorte do destino”, pensou Shen Luo, coçando a cabeça, resignado.