Capítulo Sessenta e Sete: Alguém Esteve Aqui
— Não será por causa disso de novo?
Após a excitação, Shen Luo foi se acalmando pouco a pouco. Lançou um olhar ao crânio tatuado e murmurou consigo mesmo. Surpresas sucessivas o deixaram, ao invés de feliz, um tanto apreensivo.
Só para aprender a técnica Menor de Transformação do Yang, ele já tinha levado dois anos para apenas arranhar a superfície. No entanto, agora, em apenas um dia, não só a técnica Menor de Transformação do Yang atingira a perfeição, como também concluíra o primeiro estágio da Técnica Sem Nome e, até mesmo, a “Arte de Caminhar sobre as Águas” parecia ter sido dominada sem esforço algum...
Quando os acontecimentos fogem do comum, há sempre algo estranho por trás.
Desde cedo ele aprendera que toda consequência tem uma causa. Se não fosse por suas doenças constantes, que o obrigaram a estudar livros diversos e preparar elixires como o “Jinxiangyu” e outras ervas espirituais, como poderia a Família Shen ter ascendido à fama em tão poucos anos?
Tudo o que lhe vinha acontecendo, afinal, seria bênção ou maldição? Agora, ele realmente não sabia responder.
Mas, ao menos no curto prazo, era sem dúvida uma grande sorte para ele. O objetivo desta jornada já havia sido alcançado; talvez fosse hora de regressar.
Pensando assim, Shen Luo se virou e caminhou de volta à margem, vestiu-se e logo chegou à estrada principal fora da vila.
O sol brilhava alto no céu, era o pico do meio-dia. A estrada estava quase deserta.
Instintivamente, Shen Luo aspirou o ar suavemente; uma multidão de odores invadiu-lhe as narinas — rastros deixados pelos passantes. De repente, notou algo curioso: por meio do olfato, conseguia deduzir quantas pessoas haviam passado recentemente e até imaginar o que faziam.
Por exemplo, aquele cheiro misturado ao aroma de feijão devia ser de um vendedor de leite de soja e tofu; outro odor, carregado de suor, certamente vinha de um trabalhador braçal acabado de regressar da cidade; e mais adiante, aquele cheiro característico só podia ser de um limpador de fossas...
Shen Luo não pôde deixar de achar graça. Nunca imaginara que, ao aguçar o olfato, teria utilidades tão engenhosas.
Ao entrar na vila, caminhou em direção à estalagem onde se hospedava. Sem nada melhor para fazer, ergueu levemente as orelhas, querendo testar também a audição. Imediatamente, sons de toda parte chegaram aos seus ouvidos: mulheres discutindo preços com os comerciantes, dois idosos cochichando sobre a vida alheia na esquina, até o brado de um empregado numa taberna próxima era perfeitamente audível.
Shen Luo sorriu de leve, fechou os olhos e tentou captar ruídos ainda mais distantes. O chiado da cozinha de uma grande hospedaria próxima, o ressonar de alguém num quarto do segundo andar — tudo lhe chegava claro. E, mais longe, ainda outros sons...
Após o tempo de uma xícara de chá, Shen Luo voltou calmamente para a pequena hospedaria onde alugara um quarto.
No salão, a hora da refeição era o período mais movimentado do dia. Mesmo naquela hospedaria isolada, quatro ou cinco mesas estavam ocupadas.
— Senhor Shen, então foi por isso que não o encontrei antes! — exclamou o jovem criado, enquanto servia os clientes. Vendo Shen Luo entrar, correu até ele.
— Por favor, traga-me uma refeição ao quarto. Nada de frango, pato ou carnes gordurosas, apenas algo leve — ordenou Shen Luo, acenando distraidamente com a cabeça, já de costas para subir.
Depois de alguns passos, voltou-se, fez sinal ao criado e, quando este se aproximou, disse em voz baixa:
— Preciso também de alguns papéis de talismã, cinábrio, sangue de cão preto e um estojo de caligrafia completo. Traga tudo ao meu quarto.
Sem alterar o semblante, passou-lhe discretamente um pedaço de prata e saiu apressado do salão.
O criado olhou surpreso para as costas de Shen Luo, mas não questionou; guardou a prata com alegria e foi até a cozinha.
— Estranho, como será que o senhor Shen soube que ao meio-dia servimos pernil na cozinha? — murmurou, intrigado, ao dar alguns passos. Havia bastante carne de frango e pato nas mesas, mas ninguém pedira pernil.
Shen Luo chegou ao quarto e, prestes a arrumar a bagagem, sentiu um cheiro diferente; seus olhos se estreitaram.
Havia um odor recente no ambiente, claramente deixado por alguém que saíra há pouco. O dono daquele cheiro lhe era familiar: o gerente Hou.
— O que ele queria em meu quarto?
Pensando nisso, Shen Luo fechou os olhos e, guiando-se pela intensidade do aroma, tentou reconstruir o trajeto do homem. Aos poucos, uma imagem difusa lhe surgiu — uma figura entrava pela porta, dava uma volta, nada fazia, e logo se retirava.
— Se só entrou e saiu, não parecia à procura de nada. Talvez só estivesse preocupado comigo e veio verificar — disse Shen Luo, abrindo os olhos, intrigado.
Nesse momento, passos apressados soaram do corredor e, logo depois, bateram à porta.
— Está aberta, pode entrar — disse Shen Luo, franzindo o nariz.
A porta rangeu e uma figura entrou, trazendo um grande tabuleiro de madeira: de um lado, a refeição; do outro, pincel, papel de talismã, cinábrio e outros itens.
Não era o jovem criado, mas sim o gerente Hou.