Capítulo Oitenta e Três: Assombração
— Este é meu mestre, Daoista Luo, ancião do Observatório da Primavera e Outono; eu sou Shen Luo — respondeu Shen Luo, sem se incomodar em discutir com o porteiro, preferindo apresentar-se.
— Então são o Mestre Immortal Luo e o Mestre Immortal Shen — o homem de meia-idade saudou novamente com reverência.
— Você é Ma Simo, que enviou a carta ao Observatório da Primavera e Outono? Qual sua relação com Ma Xingming? — Daoista Luo finalmente voltou a atenção para ele e perguntou.
— Ma Xingming é meu bisavô — Ma Simo estremeceu sob o olhar do Daoista Luo e respondeu com honestidade.
— Possui um registro genealógico? — Luo perguntou.
— Tenho, mestre, por favor, veja — Ma Simo parecia já preparado, retirou de seu peito um livro de capa de seda negra e o entregou.
Shen Luo apressou-se a pegar o livro e, segurando-o com ambas as mãos, apresentou-o ao Daoista Luo.
Luo tomou o livro com uma mão, folheou rapidamente e logo o devolveu a Shen Luo.
— Ma Xingming estudou artes no Observatório da Primavera e Outono, e embora não tenha obtido grandes conquistas, prestou um serviço ao nosso templo. Por isso, recebeu um símbolo de confiança. Agora que está confirmado que você é seu descendente, pelas regras do Observatório, tem direito a solicitar nossa ajuda uma vez — disse Luo com seriedade.
— Muito obrigado, mestre! — Ma Simo ficou radiante, curvando-se repetidamente, e então convidou ambos a entrar na residência.
Ao atravessar o portão, o cenário se abriu diante deles: um pátio retangular de tamanho considerável, com uma estrada de pedra azul de dois metros de largura, levando ao suntuoso salão principal.
À esquerda da estrada, um jardim repleto de flores e árvores; à direita, um lago com pavilhões sobre a água, conectados por passarelas, cobertos por folhas de lótus verdes e algumas flores rosadas salpicando o cenário.
Havia ainda anexos em ambos os lados do pátio, com mais edifícios e pavilhões, mas separados por muros, tornando difícil enxergar claramente.
Eles atravessaram o pátio e sentaram-se no salão principal, onde duas jovens e belas criadas serviram chá.
— Ma, em sua carta ao Observatório, você mencionou vagamente que há um fantasma em sua casa. Que tipo de entidade é essa? Alguém chegou a vê-la? — Luo tomou um gole de chá e foi direto ao ponto.
— O velho Wang, guarda noturno, viu. Dizem que era um espírito feminino vestida de vermelho, mas ele não enxergou bem; desmaiou de susto e adoeceu no dia seguinte, ainda não conseguiu sair da cama. Depois, os cachorros pretos da casa morreram um após o outro, sempre sangrando pelos sete orifícios... Além disso, todas as manhãs aparecem poças de água fétida em lugares diferentes, às vezes no salão, às vezes no pátio dos fundos, uma vez até no meu quarto — Ma Simo relatava enquanto limpava o suor da testa com a manga, visivelmente pálido.
Shen Luo, ouvindo sobre os acontecimentos estranhos, analisava o ambiente e sentia que a mansão luxuosa carregava uma atmosfera indescritivelmente sombria.
— Por ora, só os cães morreram, ainda não houve vítimas humanas, mas quem sabe o que pode acontecer nos próximos dias. Mestre Luo, estou disposto a oferecer cem taéis de ouro ao Observatório da Primavera e Outono; imploro que afaste os espíritos e salve minha família — Ma Simo, cada vez mais assustado, tremia ao falar e levantou-se para saudar.
— Não precisa exagerar, Ma. Se houver mesmo um espírito maligno, não ficarei de braços cruzados — Luo demonstrou satisfação nos olhos, mas respondeu com tranquilidade.
Ma Simo agradeceu repetidamente, acalmando-se um pouco.
— Só pelo que relatou, não é possível identificar que tipo de fantasma é. O guarda acamado ainda está na casa? Gostaria de interrogá-lo pessoalmente — Luo ponderou e perguntou.
— Isso... infelizmente não. Wang estava se recuperando aqui, mas ontem seus familiares vieram preocupados e o levaram para o campo — Ma Simo limpou o suor do rosto, hesitante.
— Não faz mal. Você disse que toda noite aparece uma poça de água fétida; talvez possamos investigar por aí. Ontem à noite houve tal ocorrência? — Luo perguntou.
— Sim, apareceu no pátio dos fundos, mas era tão fedorenta que mandei os criados limpar imediatamente — Ma Simo abaixou a cabeça, embaraçado.
— E os cachorros pretos mortos, ainda estão aqui? Não os descartou, certo? — Luo, resignado, perguntou.
— Estão, sim! — Ma Simo animou-se.
Luo suspirou aliviado e pediu que Ma Simo o levasse até lá.
Pouco depois, no depósito do pátio dos fundos, Luo agachou-se para examinar os três cães mortos, com Shen Luo em pé atrás dele, respeitosamente.
Ma Simo, temeroso, ficou do lado de fora, sem coragem de entrar.
Os cães estavam mortos há algum tempo, com corpos ressecados; o sangue dos sete orifícios já seco, e seus rostos contorcidos mostravam um terror extremo, como se tivessem visto algo terrível.
Shen Luo, ao ver o estado dos cães, sentiu um arrepio, lembrando-se do espírito de cabelos longos que encontrara em sonho na aldeia.
Luo apalpou um dos cães, pressionando com o dedo entre os olhos e sobrancelhas, e após alguns instantes retirou a mão.
— Mestre Luo, essas mortes são estranhas; sabe como morreram? — Shen Luo aproximou-se e perguntou baixinho.
— Sangue pelos sete orifícios é sinal de que tiveram toda a energia vital sugada; isso é comum entre espíritos, nada surpreendente — Luo respondeu sem preocupação.
Shen Luo relaxou, sentindo confiança nas habilidades de seu mestre.
Luo parecia já ter compreendido o que precisava; não deu mais atenção aos cães e saiu do pátio, com Shen Luo o seguindo.
— Mestre Luo, descobriu algo? — Ma Simo aproximou-se.
— Tudo está sob controle, mas preciso confirmar mais algumas coisas. Poderia nos mostrar o resto da casa? — Luo pediu.
Ma Simo não hesitou e conduziu ambos por toda a Mansão Ma.
Shen Luo sabia que Luo procurava o esconderijo do espírito e ficou atento.
Mas, após revisarem o pátio dos fundos, o salão principal e os anexos laterais, não encontraram nada.
— Não deveria ser assim... — Luo franziu a testa, murmurando.
— Mestre, será que o espírito veio de fora e, com o dia, já fugiu? — Shen Luo sugeriu.
— Não. A mansão está envolta em energia sombria; o espírito certamente está aqui, apenas muito bem escondido — Luo balançou a cabeça.
— Mestre Luo, não conseguiu encontrar o espírito? Os outros magos que contratei também não conseguiram; o que faremos? — Ma Simo estava abatido.
— Não se preocupe, Ma. Para um espírito de magia menor, tenho métodos para obrigá-lo a se revelar — Luo, um pouco irritado, respondeu friamente.
Em seguida, pediu a Ma Simo que preparasse incenso, um altar e alguns papéis amarelos com pó de cinábrio.
Como já havia contratado magos antes, Ma Simo tinha tudo pronto e mandou trazer os itens, montando o altar no centro do pátio principal, com incenso, frutas e outros objetos, conforme orientado por Luo.