Capítulo Oitenta e Oito — Uma Surpreendente Reviravolta no Mosteiro
Foi então que um estrondo abafado ecoou no céu, seguido de um vento amarelo e estranho que surgiu sem aviso, crescendo rapidamente até se tornar uma tempestade rugindo, obscurecendo completamente o firmamento. A claridade já escassa do dia tornou-se de repente sombria, indistinta da noite. A névoa ao redor foi varrida por aquele vento estranho, movimentando-se como uma muralha de ar que avançava com força, dificultando tanto que Shen Luo mal conseguia andar normalmente.
Sem alternativa, ele precisou enfrentar a ventania, avançando passo a passo até a antiga templo. Ao entrar pelo portão da montanha, deparou-se com um corpo sem cabeça e corpulento, sentado em posição de lótus à sua frente; seu coração se apertou e, instintivamente, tentou ativar sua energia de proteção. Mas ao olhar com atenção, percebeu que o cadáver segurava um rosário, sendo na verdade uma estátua de Buda Maitreya feita de argila.
Shen Luo contornou a estátua e viu atrás dela uma imagem de uma divindade guerreira, de armadura negra e empunhando um cetro para subjugar demônios, de costas para ele. Era o deus protetor Wei Tuo, mas nos olhos só havia dois buracos, tornando-o ainda mais horrendo.
— Perdão, perdão... — murmurou Shen Luo, levantando uma mão em gesto de respeito.
Como praticante, fosse budista ou taoísta, sempre era necessário demonstrar reverência. Shen Luo atravessou o pátio, coberto de folhas caídas e pilares tombados, avistando logo o grande salão principal. Por fora, parecia relativamente intacto, embora portas e janelas estivessem danificadas, e lá dentro havia uma tênue luz de fogo.
— Alguém? — Shen Luo arqueou as sobrancelhas e aproximou-se cautelosamente.
Ao chegar diante do salão, não entrou de imediato. Encostou-se numa abertura da porta quebrada e espiou para dentro. No interior, o chão estava coberto de capim seco. No altar central não havia uma imagem de Buda ou de Bodisatva, mas sim uma estátua estranha de três cabeças, segurando um objeto que parecia uma pá de ferro, mais cômica do que reverente.
Entretanto, aquilo não era incomum; era habitual nas aldeias a veneração de divindades locais, talvez algum benfeitor que em vida realizara obras de caridade e, após a morte, foi consagrado como Buda de carne e osso.
Aos pés da estátua, um monte de capim seco formava uma cama improvisada onde um mendigo, com cabelos desordenados e roupas em frangalhos, dormia de lado, profundamente.
Não longe dele, sentava-se um homem baixo, robusto e feio, vestido com um casaco curto, ostentando uma calvície e com um machado negro preso à cintura. Ao seu lado, dois feixes de lenha sugeriam que era um lenhador.
Num canto do salão, junto à parede interna, vários ladrilhos estavam quebrados e um grande buraco afundava, onde água de chuva verdejante se acumulava.
Shen Luo observou por um bom tempo do lado de fora, e como ninguém dentro parecia notar sua presença, decidiu empurrar a porta e entrar. O rangido estridente da porta foi enorme, e ao abri-la, uma rajada de vento amarelo entrou, fazendo o fogo do chão vacilar.
O lenhador só então percebeu Shen Luo. Vendo-o coberto de sangue, encolheu-se instintivamente, com expressão de puro terror.
— Não tema, irmão. Lá fora o vento está forte, só vim me abrigar; assim que passar, parto. — Shen Luo sorriu, fechando a porta atrás de si, franzindo o nariz ante o cheiro desagradável do salão, impregnado de um odor de umidade e decomposição.
O lenhador, ao ver que Shen Luo não parecia hostil, esboçou um sorriso tímido e convidou-o a sentar com um gesto das mãos.
Shen Luo lançou um olhar ao mendigo, que seguia dormindo profundamente, alheio à entrada de alguém. Cruzando as mãos nas mangas, sentou-se em silêncio ao lado direito da fogueira.
O lenhador furtivamente observou Shen Luo, mas logo desviou o olhar, retraído e sem ousar iniciar conversa.
Shen Luo também não pretendia falar; após examinar o ambiente, fixou os olhos na fogueira, perdido em pensamentos.
Nesse momento, seu olhar desviou para a direção da porta. Logo se ouviu um estrondo e ambas as portas de madeira foram empurradas com força, dando passagem a sete ou oito guardas jovens, enérgicos, armados com espadas e adagas.
Entre eles, um jovem de rosto escuro, vestindo armadura de malha, entrou lado a lado com um velho de cabelos grisalhos e túnica de cetim marrom. Atrás, vinham dez ou mais homens com roupas de serventes.
Assim que os guardas entraram e viram que já havia gente no salão, imediatamente sacaram suas armas, tensos e prontos para o confronto.
O velho grisalho rapidamente se escondeu atrás do jovem de rosto escuro, mostrando apenas parte do rosto, observando Shen Luo, o lenhador e o mendigo com inquietação.
Shen Luo, seguindo o olhar deles, espiou para fora e viu que havia carruagens e cavalos no pátio dianteiro, indicando que era uma pequena caravana de comerciantes de passagem.
— Quem são vocês? — perguntou o jovem de rosto escuro, semicerrando os olhos e apontando a espada para Shen Luo.
O sangue em suas roupas realmente chamava atenção.
Shen Luo hesitou, ponderando como explicar, mas o lenhador ao seu lado já havia caído de joelhos, pálido como cera e tremendo.
— Senhores, eu só sou um lenhador do vilarejo, não tenho dinheiro, por favor tenham piedade, poupem minha vida… — implorou ele, repetindo reverências e batendo a cabeça, claramente tomando-os por bandidos.
O mendigo, por outro lado, dormia tão profundamente que nem o alvoroço o despertou; permaneceu imóvel, mergulhado no sono.
O jovem de rosto escuro ignorou as súplicas do lenhador, mantendo o olhar atento aos três, mas focando sobretudo em Shen Luo.
— Fui assaltado na estrada; por sorte escapei com vida e vim me refugiar aqui — explicou Shen Luo, resignado.
— Me desculpe. — O jovem manteve a expressão séria e fez um sinal.
Um dos guardas trouxe um pequeno compasso redondo, do tamanho de uma palma, e entregou-lhe.
Shen Luo notou que o compasso era de bronze, com um ponteiro central e uma pedra de jade cinzenta embutida, do tamanho de um polegar, dentro da qual se via uma nuvem esbranquiçada.
— Pedra primordial… — pensou Shen Luo.
O jovem segurou firmemente a espada e o compasso, primeiro apontando-o para Shen Luo; todos os olhares se voltaram para ele. O ponteiro ficou imóvel por alguns instantes, sem mostrar reação.
O jovem então direcionou o compasso ao mendigo adormecido, mas igualmente nada aconteceu.
Os membros da caravana relaxaram visivelmente.
Porém, ao apontar para o lenhador ajoelhado, o ponteiro começou a girar descontroladamente e, com um estalo, a pedra primordial explodiu.
Ao mesmo tempo, um raio de luz branca disparou do compasso, atingindo o lenhador.