Capítulo Setenta e Nove: A Inusitada Transformação do Travesseiro de Jade
Os olhos de Shen Luo se arregalaram, como se uma serpente gélida tivesse subido por sua espinha. As pequenas mãos, inchadas e podres, exibiam um tom pálido e horrendo, semelhantes a cadáveres boiando há muito tempo na água; nelas cresciam unhas negras e finas, algumas até penetrando sua pele por entre as roupas. Shen Luo abriu a boca para gritar, escancarando-a, mas nenhum som saiu, e o medo tomou conta de seu coração.
Logo em seguida, algo estranho chamou sua atenção: ele não sentia dor alguma.
“Não entre em pânico, não entre em pânico...”, murmurou para si, esforçando-se para manter a calma.
Tentou ativar a técnica sem nome, buscando manipular o poder interno na esperança de repelir aquelas mãos fantasmagóricas. Mas, mal sentiu um movimento em seu dantian, uma sensação fria percorreu seu pescoço, e uma energia sombria e poderosa emanou dali, fazendo arrepiar todos os pelos do seu corpo.
“É a almofada de jade!”, percebeu Shen Luo imediatamente.
Antes que pudesse reagir, uma força de absorção intensa surgiu da almofada de jade em sua nuca. De repente, sentiu o sangue e a energia vital dentro de si fervendo, transformando-se em vapor branco e sendo sugados para fora.
Seus olhos se arregalaram ainda mais, mas só pôde observar impotente enquanto seu peito afundava, suas mãos expostas secavam rapidamente, tornando-se garras espectrais, e sua vitalidade se esvaía.
Sua mente mergulhou num caos absoluto: medo, dúvidas, indignação… sentimentos misturados. Com o último fio de força, esforçou-se para gritar: “Não…”
No instante seguinte, seu corpo se ergueu bruscamente da cama, o peito arfando, respirando com dificuldade.
Aflito, olhou para o colchão, vendo apenas uma mancha de suor; nada daquelas mãos brancas e pequenas como de crianças. Virou as mãos para examinar as palmas e o dorso, tudo intacto, sem qualquer vestígio das garras secas de antes.
“Terá sido apenas um pesadelo?”, murmurou, confuso, observando o quarto. As portas e janelas estavam bem fechadas, a mobília inalterada, e sob sua cabeça repousava o velho travesseiro de vime, com a almofada de jade silenciosa ao lado.
Passou a mão pela testa suada, a sonolência desaparecendo por completo. Acendeu uma lâmpada, trocou de roupa e sentou-se à mesa.
O luar filtrava-se pela janela, brumoso, indicando que já era madrugada.
Ao lembrar das cenas do pesadelo, Shen Luo ainda sentia o coração acelerado. Sem pensar, pegou um talismã para afastar espíritos, grudou-o no peito e infundiu um pouco de poder mágico.
À medida que o talismã brilhava, seus olhos tornaram-se turvos, e ele passou a examinar atentamente os cantos do aposento.
Mal começou a olhar, suas sobrancelhas se ergueram de surpresa: havia realmente algo estranho ali!
Olhando de volta, percebeu que do teto até a cabeceira da cama, no espaço vazio, caíam sombras finas e indistintas, quase imperceptíveis.
Se não estivesse tão tenso e concentrado, jamais perceberia.
Com o coração apertado, Shen Luo pegou a lâmpada para iluminar melhor.
Mas ao mover a luz, aquilo que mal enxergava desapareceu completamente.
Sem hesitar, apagou a lâmpada de óleo de uma só vez.
Com a escuridão, aquelas sombras voltaram a surgir: fios luminosos, finos como cabelos e quase transparentes, desciam do teto como chuva.
Shen Luo seguiu os fios com o olhar e viu que, ao redor da almofada de jade sobre a cama, havia uma aura semitransparente, absorvendo todos os fios que caíam do alto.
“O que será isso...”, pensava, intrigado, aproximando-se da cama.
Ao olhar para o talismã colado ao peito, percebeu que não estava queimando, e os fios estranhos não se agitavam.
“Parece não ser algo maligno…”, tranquilizou-se.
Estendeu a mão, como se quisesse colher a chuva, tocando os fios quase invisíveis. Uma luz branca envolveu sua mão, mas, imediatamente, notou que os fios atravessavam sua palma e continuavam convergindo para a almofada de jade.
Não sentiu nada de estranho; os fios pareciam apenas ilusórios.
Instintivamente, olhou para o teto e viu que os fios pareciam brotar do interior da estrutura, perfeitamente encaixados.
Com um pensamento, pegou a almofada de jade, abriu a porta e saiu.
Do lado de fora, o luar era prateado, a noite silenciosa, apenas o som dos insetos se alternava.
Shen Luo examinou os arredores; além dos roncos do irmão de quarto, não ouviu nenhum outro ruído. Tocando com a ponta dos pés, saltou com leveza para o telhado do segundo andar.
Sobre o telhado, fitou o céu e viu que os fios brilhantes perseguiam a almofada de jade, caindo como cascatas intermináveis.
Permaneceu olhando para o céu por muito tempo, até finalmente perceber que aqueles fios vinham da vasta constelação acima.
“Que relação existe entre esses fios de luz e a almofada de jade?”, pensou, perplexo.
Já havia passado a noite acordado, sem sono, e não achava o fenômeno tedioso; ficou abraçado à almofada de jade, contemplando as estrelas.
Fios de luz caíam durante toda a noite, e Shen Luo observou durante todo esse tempo.
Só quando o dia começou a clarear, os fios diminuíram até desaparecerem com a luz do sol.
No final, não encontrou nada de anormal na almofada de jade. Saltou do telhado, levando consigo suas dúvidas para dentro de casa.
...
Ao meio-dia, depois de almoçar no refeitório, Shen Luo foi caminhando até o monte posterior.
Quando chegou a um local deserto, acelerou o passo em direção ao vale escondido.
Chegando à margem de um lago raso, saltou direto para a água.
O lago espirrou água por toda parte, e uma sensação refrescante envolveu Shen Luo, dissipando até o cansaço da noite mal dormida.
Mas não fora ali para descansar; queria testar um outro feitiço anexado à técnica sem nome: a Arte da Comunicação e Domínio dos Espíritos.
Segundo os registros, quem tem talento elevado nesta arte pode comunicar-se com espíritos já ao dominar o primeiro estágio da técnica sem nome, enquanto os menos dotados podem chegar ao quinto ou sexto estágio sem sucesso.
Shen Luo considerava que, tendo alcançado o primeiro estágio com facilidade, talvez seu talento não fosse ruim; só que, por natureza, era mais afinado com a água, e isso se manifestara ao encontrar o livro celestial sem nome.
No centro do lago, sentou-se de pernas cruzadas; a água chegava ao peito.
Fechou os olhos, ajustou a respiração e começou a executar a técnica em silêncio.
Logo, uma energia fresca circulou em seu dantian, fluindo por suas veias, enquanto a aura aquática do lago convergia ao redor de seu corpo.
Com a mente esvaziada, repetiu mentalmente o mantra da Arte da Comunicação e Domínio dos Espíritos, e tudo ao redor do vale tornou-se sutil.
A princípio, ainda ouvia o canto de alguns pássaros; depois, apenas o vento nas árvores, então o zumbido de insetos sob a terra, o movimento dos peixes no lago...
No fim, só o suave murmúrio da água correndo.
Ao mesmo tempo, sua mente tornou-se vazia, e diante de seus olhos semicerrados tudo era escuridão, como se tivesse atravessado o espaço e surgido em um vazio absoluto...