Capítulo Noventa: Combate contra o Monstro
Só então, ao perceber que a criatura finalmente se calara, Shen Luo soltou um suspiro de alívio, encostando-se ao pilar do salão. Ergueu a mão para examinar a palma e notou que ela estava completamente escurecida; as runas traçadas ali haviam desaparecido sem deixar vestígio.
Virou-se para o outro lado, onde viu que, sob a rede negra, o monstro rato já havia sido destroçado pelos guardas, reduzido a uma massa de carne indistinta.
No entanto, antes que pudesse relaxar, uma voz venenosa e carregada de rancor ecoou repentinamente do lado de fora do salão.
— Apenas alguns mortais e um cultivador recém-iniciado ousam fazer desordem no meu território, matando meus mais valiosos subordinados... não importa quem sejam, todos morrerão.
A última palavra, “morrer”, prolongou-se com tal rancor que parecia emanar ódio profundo.
Shen Luo arregalou os olhos, fitando o lado de onde vinha a voz. Avistou uma figura vestida de branco atravessando o limiar, segurando na mão uma cabeça ensanguentada, que parecia pertencer ao administrador da associação comercial que fugira momentos antes.
O pescoço da cabeça era irregular, como se tivesse sido arrancado à força, não cortado por lâmina.
A cena brutal assustou os guardas do salão, que, tomados de horror, recuaram alguns passos.
A figura de branco exibia duas orelhas pontiagudas sobre a cabeça; pelo rosto, era possível distinguir os traços de um jovem, mas boa parte de sua face estava encoberta por fios de pelos amarelos, impossibilitando ver claramente.
Com um gesto indiferente, atirou a cabeça ao chão, que rolou ruidosamente até parar aos pés de Shen Luo.
— Mestre celestial, se unirmos forças, talvez tenhamos uma chance — diferente do comportamento diante do monstro rato, o jovem de rosto escuro mostrava temor, sua voz tremendo ao falar.
Shen Luo não respondeu, apenas manteve o olhar fixo na figura à sua frente, recolhendo as mãos nas mangas.
— Ainda pensam em lutar até a morte? Que ingenuidade! — disse friamente o jovem monstro, com aparência masculina.
Ao abrir a boca, revelava dentes brancos e afiados. Sua voz, agora tranquila, não transmitia qualquer emoção.
Mal terminou de falar, a luz no grande salão esmoreceu abruptamente. O cenário, antes desolado e descuidado, transformou-se: pilares e paredes desapareceram, substituídos por rochas irregulares e pontiagudas, convertendo o ambiente em uma caverna sinistra.
Baixando os olhos, Shen Luo percebeu que, sob seus pés, não havia mais tijolos ou relva seca, mas sim uma camada densa de ossos brancos de humanos e animais. A porta de madeira do salão fora substituída por um gigantesco portão de ferro negro.
O portão ostentava espinhos, cada qual empalando cadáveres de carne e osso, com aspecto grotesco e expressões de morte atormentada. Dentro da caverna, apenas a estátua de três cabeças mantinha sua aparência original.
— Que tipo de habilidade é essa? — murmurou Shen Luo, tomado de frio interior.
Para enfrentar o zumbi há pouco, ele havia consumido quase toda sua energia espiritual, usando cinco ou seis talismãs de relâmpago; o poder do monstro diante dele, cuja natureza era desconhecida, era claramente superior ao do rato ou ao zumbi.
— Tragam-me suas vidas! — bradou o jovem monstro, sacudindo o braço com desprezo.
O coração de Shen Luo disparou.
Percebeu um som sutil no vazio, mas, ao olhar, não viu nada.
Então, uma cena aterradora se desenrolou!
Os guardas mais distantes, desprevenidos, viram suas cabeças caírem como frutos maduros de uma árvore, decepadas por alguma força invisível.
Apenas o jovem de rosto escuro, graças ao talismã colado à sua armadura, viu surgir diante de si um escudo de luz esbranquiçada, que amortizou o golpe. Mesmo assim, o escudo se partiu em instantes, dissipando-se; por pouco, ele não perdeu a vida.
Em meio ao pânico, Shen Luo começou a desenhar runas de expulsão de espíritos dentro das mangas, mas não teve tempo de concluir. Um vento leve se aproximou, tão rápido que não pôde sequer reagir!
No derradeiro instante, uma corda fina de água surgiu ao lado, envolvendo sua cintura e puxando-o violentamente para o lado. O pilar rochoso atrás dele rachou profundamente sob o impacto.
Ao olhar para a corda d’água, fina como o dedo mínimo, Shen Luo sentiu alívio.
No frenesi, uma inspiração súbita o levou a usar a técnica de controle de água, capturando o líquido acumulado num canto do salão e moldando-o numa corda para salvar-se.
Mas as estranhas habilidades do monstro eram imprevisíveis; sem tempo para desenhar talismãs, sacudiu as mangas, lançando a corda d’água em todas as direções.
Milhares de gotas de água espalharam-se, mas muitas permaneceram suspensas no ar, algumas alinhadas em fios, prestes a cair.
Ao concentrar o olhar, Shen Luo finalmente percebeu que os fios conectando as gotas vinham do próprio monstro: eram pelos longos e quase transparentes, disparados de seu corpo, que haviam decapitado os guardas.
Os fios eram finíssimos e quase invisíveis; só as gotas de água permitiam identificá-los a olho nu.
O monstro, surpreso com a reação de Shen Luo, soltou uma risada abafada e, girando a mão no ar, fez com que todos os pelos se reunissem, formando duas lâminas gigantes de tom amarelado, que desceram sobre Shen Luo e o jovem de rosto escuro.
Sem armas, Shen Luo reuniu todas as gotas de água numa pequena defesa circular e investiu contra a lâmina que se abatia sobre si.
Um estrondo abafado ecoou.
O escudo de água explodiu, espalhando gotas por toda parte, incapaz de deter a lâmina.
Shen Luo rolou para o lado, tomado pelo desespero: diante do poder assustador do monstro, mesmo que pudesse ressuscitar, não teria chance de sobreviver.
O jovem de rosto escuro, ainda munido de uma espada longa, nem tentou resistir à lâmina; apenas fugia, gritando:
— Comandante Wu, ajude-me!
— Inútil... — um suspiro ecoou de lugar incerto.
Chamas irromperam!
Duas lanças curtas, envoltas em fogo, voaram do vazio, colidindo com a lâmina e desviando-a, traçando um arco no ar antes de cair ao lado do jovem de rosto escuro.
No espaço ao lado dele, ondas de água cintilaram, revelando um guerreiro alto e robusto. As duas lanças encaixaram-se na bainha junto às outras cinco, formando um leque semelhante à cauda de um pavão.
Shen Luo, recolhido num canto, observou o recém-chegado: vestia armadura negra, as lanças reluziam às suas costas. Seu rosto era quadrado, com sobrancelhas grossas e caídas, barba curta cobrindo as faces, orelhas grandes e boca larga, mas exibia uma expressão de profunda tristeza.