Capítulo Oitenta e Sete: Mosteiro de Jialan
— Discípulo, eu estava justamente prestes a relatar esse assunto ao Mestre Luo. Desta vez, ao retornar para casa, meu pai gastou uma fortuna para comprar de um comerciante forasteiro um fruto vermelho peculiar, considerado um suplemento poderoso. Após ingeri-lo, a energia yang e vigorosa em meu corpo aumentou muito, estando agora prestes a atingir o auge — disse Shen Luo, sentindo um frio na espinha, como se tudo estivesse ocorrendo conforme previra, embora em seu rosto apenas transparecesse excitação.
Enquanto falava, uma intensa luz vermelha emanava de seu corpo.
O Daoísta Luo estava prestes a estender a mão para sentir a situação interna de Shen Luo, mas, ao perceber o brilho vermelho que surgia, recolheu a mão e examinou aquele resplendor com surpresa.
— Mestre Luo, assim que eu dominar a técnica Menor de Transformação do Sol, entrego o assunto da Técnica da Espada Pura Yang aos seus cuidados — declarou Shen Luo, atento aos movimentos do mestre, suspirando de alívio em seu íntimo, mas mantendo o discurso respeitoso.
— Já prometi, não voltarei atrás. Mas que tipo de fruto vermelho você ingeriu? — questionou o Daoísta Luo, fitando Shen Luo.
Shen Luo já havia preparado uma resposta; descreveu um fruto de formato oval, cor de fogo, com desenhos que lembravam chamas em sua superfície.
A aparência deste fruto não era uma invenção sua, mas sim inspirada em um fruto espiritual chamado “Fruto do Fogo Primordial”, lido em um livro antigo, famoso por fortalecer a essência vital.
Contudo, ele não descreveu o fruto exatamente como o original, alterando alguns detalhes — sete partes verdadeiras, três inventadas — de modo que o Daoísta Luo não sentiria que estava sendo enganado, mas também não poderia afirmar com certeza tratar-se de um Fruto do Fogo Primordial, evitando revelar qualquer brecha.
— Pelo que você descreve, pode ser mesmo um Fruto do Fogo Primordial ou talvez alguma variação rara. Não posso afirmar com certeza. De qualquer forma, teve sorte, foi uma bênção do destino — exclamou o Daoísta Luo, admirado.
— Tudo graças à boa fortuna do Mestre — sorriu Shen Luo.
— Já que teve tal encontro, dedique-se ainda mais à Menor de Transformação do Sol para alcançar logo a perfeição, depois romper o limite das artes e entrar no período de Refino do Qi, assim resolverá seu problema de longevidade — advertiu o Daoísta Luo, sem dar maior importância ao assunto.
— Sim, prometo me empenhar para não decepcioná-lo — respondeu Shen Luo, solene.
O Daoísta Luo não mais se preocupou com o progresso de Shen Luo, ativando a Nuvem de Água para seguir viagem.
Percebendo isso, Shen Luo permaneceu em silêncio e respeitosamente ao lado do mestre; os dois continuaram o caminho e, à tarde, regressaram ao Observatório Primavera e Outono.
O Daoísta Luo foi prestar contas ao mestre da seita, enquanto Shen Luo retornou sozinho à sua morada.
Após uma noite e um dia inteiro de atribulações, sentia-se exausto e, ao chegar, caiu na cama e dormiu profundamente.
Dormiu por muito tempo; quando despertou, o lado de fora já estava mergulhado na escuridão, com a lua brilhando no alto — devia ser já alta madrugada.
Espreguiçou-se, sentindo-se revigorado, como se aquele sono tivesse restaurado por completo sua energia.
— Será que o Travesseiro de Jade terá mudado de alguma forma? — de repente recordou-se do objeto, retirando-o debaixo da cama. Pegou então um talismã de expulsão de fantasmas, colou-o sobre o corpo e o ativou com seu poder, fazendo os olhos ficarem enevoados.
Olhou para o Travesseiro de Jade e, de repente, soltou um leve som de surpresa.
O travesseiro estava completamente vazio; os fios de luz translúcida não se manifestavam.
— Por que desapareceram? Será que... — um palpite surgiu em sua mente. Fixou o olhar no travesseiro, ansioso por observar qualquer outra mudança.
Após algum tempo, as pálpebras começaram a pesar, e uma onda de sono o envolveu.
— Acabei de acordar, como posso estar com tanto sono de novo? — assustou-se, dando tapas no rosto para afastar o torpor.
Mas, longe de diminuir, o sono só aumentava, tornando-se irresistível.
Esforçou-se ao máximo, mas, por fim, não conseguiu vencer a sonolência: desabou suavemente sobre a cama, pressionando o Travesseiro de Jade por baixo do corpo e mergulhando em sonhos.
Não se sabe quanto tempo passou até que, confuso, Shen Luo abriu lentamente os olhos.
Esfregou as pálpebras ainda sonolentas, mas logo um vento frio o atingiu, provocando um calafrio e fazendo-o sentar-se imediatamente.
Ao levantar o olhar, percebeu que ao redor o céu estava sombrio, sem saber se era alvorada ou entardecer, e, não longe à frente, via-se uma construção antiga, arruinada e solitária.
O coração de Shen Luo acelerou; apressou-se em olhar para si mesmo e, para seu espanto, viu que vestia apenas uma roupa de baixo fina, manchada de sangue seco.
Era exatamente a vestimenta que usara quando esteve na Cidade Fengchi, lembrando claramente de ter abandonado a túnica externa para envolver as cinzas e se esconder do Lobo Azul.
— Parece que estou novamente em um sonho... — compreendeu de imediato sua situação.
Rapidamente abriu mais a roupa e examinou cuidadosamente o corpo, constatando que as feridas da luta com o lobo demoníaco estavam curadas, o que o tranquilizou um pouco.
Nesse instante, um brilho de dúvida surgiu em seu olhar, apressando-se em examinar o ombro direito.
— Como assim sumiu? — exclamou, assustado.
Sua voz não foi alta, mas suficiente para assustar alguns corvos empoleirados numa árvore seca próxima, que bateram as asas e voaram para longe.
O motivo de sua surpresa era que a tatuagem de caveira em seu ombro havia sumido de forma estranha, e o tridente de talismã que sempre carregava também não estava consigo.
O sumiço do tridente era compreensível, mas como o desenho da caveira, que parecia uma tatuagem, poderia ter desaparecido?
— Será que a energia espiritual também...? — inquieto, Shen Luo executou um selo com as mãos e circulou a arte anônima que praticava.
Após alguns instantes, ao perceber que a energia em seu dantian ainda fluía livremente, finalmente se acalmou.
Vestiu-se devidamente, estabilizou o ânimo e se levantou, observando o entorno com cautela.
Ao redor, a vegetação crescia alta e densa, o ar estava saturado de umidade, formando uma névoa espessa que impedia a visão a poucos metros.
Sob seus pés, uma antiga trilha de tijolos azuis, bastante danificada e tomada pelo mato, seguia em direção à construção à frente.
Ao se aproximar, Shen Luo percebeu tratar-se do portão de um templo, com telhas cobertas de ervas daninhas e as paredes descascadas, onde ainda se podia distinguir, entre manchas, quatro caracteres que significavam “Dignidade Sagrada do Tesouro”.
O portão semiaberto estava quase desabando, e acima dele pendia torta uma tabuleta onde se lia “Templo Jialan”.
— Julgando pelo estado de ruína, deve estar abandonado há pelo menos um século — murmurou Shen Luo.
Em muitos romances fantásticos que lera, era comum encontrar descrições de templos antigos nas montanhas, povoados por fantasmas belos que seduziam estudiosos a caminho dos exames imperiais — sempre narrados de forma sedutora.
Obviamente, não tomava tais histórias como verdade, mas em "Crônicas do Mestre Celestial Zhang Subjugando Demônios" mencionava-se que templos e santuários, quando cheios de devoção, eram protegidos por divindades; mas, ao caírem no abandono e se tornarem ruínas, acabavam mais propensos a atrair espíritos e fantasmas do que outros lugares.
Dado que, nas duas vezes anteriores em que sonhara, encontrara fantasmas ou monstros, agora hesitava em decidir se deveria ou não entrar naquele templo.