Capítulo Um: O Genro do Palácio do Primeiro-Ministro
Dinastia Grande Ning, Cidade Imperial.
No quarto nupcial da Mansão do Primeiro-Ministro, Chen Luo ergueu a mão e tocou o próprio rosto, voltando-se depois para encarar, no espelho de bronze, aquela fisionomia jovem e estranha. Não era um súbito retorno à juventude; ao fundir-se com as lembranças do antigo dono daquele corpo, ele compreendeu, enfim, que havia atravessado para outro mundo.
Chen Luo não conteve um sorriso amargo. Na vida anterior, passara décadas de existência ordinária, e jamais imaginara que renasceria com um destino tão humilde: um genro residente, sem status ou poder. Que ironia do destino!
O inesperado, porém, era que havia ingressado não em qualquer família, mas na própria residência do Primeiro-Ministro do império. Ainda que desprezado, a reputação da mansão exigia que não o tratassem de modo excessivamente cruel. Ao menos, nesta vida, comida e vestuário não lhe faltariam.
Quanto àquela esposa, filha única da mansão, era certo que ela não o via com bons olhos. Mas se cada um seguisse seu caminho e não se intrometesse na vida do outro, ele até preferia assim: viver em paz.
— Senhorio, já acordou? — Uma batida leve e alegre à porta interrompeu seus pensamentos.
— Já acordei — respondeu, distraidamente.
A porta rangeu suavemente ao ser empurrada. A primeira a entrar foi uma jovem criada de aparência graciosa, que sorria mostrando duas covinhas encantadoras.
— Senhorio, a senhorita deseja falar com você.
Chen Luo assentiu com a cabeça.
— Certo. Onde ela está? Eu irei até lá.
— Não precisa — veio uma voz fria e limpa por detrás da criada.
O olhar de Chen Luo foi atraído involuntariamente. Diante dele estava uma jovem de porte esguio, pele mais alva que a neve, traços delicados como se esculpidos à mão. O vestido longo e branco realçava sua aura etérea, como uma deusa saída de uma pintura, imune à mácula do mundo.
Shangguan Nanyan, sua esposa.
Com apenas dezoito anos, era tida como a mais bela de toda a Cidade Imperial, dotada de talento e sabedoria, além de ostentar a honra de ser filha do Primeiro-Ministro.
Chen Luo, em sua vida passada, vira muitas belezas — deusas nacionais, celebridades em voga... Mas nenhuma se comparava àquela diante de si, pois todas lhe pareciam vulgares em comparação.
— Já está sóbrio? — Perguntou Shangguan Nanyan, com voz gélida e distante.
Chen Luo hesitou por um instante, recordando-se então do vexame do antigo dono do corpo, que na noite anterior se embriagara até cair. Assentiu:
— Sóbrio o suficiente.
— Então falemos do que importa.
— Diga, estou ouvindo — respondeu prontamente.
A atitude surpreendeu levemente Shangguan Nanyan; no dia anterior, ele não demonstrara tamanha disposição. Ainda assim, ela não se deteve no assunto, prosseguindo com serenidade:
— Seu pai e o meu, além de colegas de estudos, eram amigos de longa data, e foi por isso que este casamento foi acertado. No entanto, um compromisso firmado desde o berço é algo leviano para ambos.
— Meu pai, fiel à palavra, fez questão de trazer você de Yunyang até a capital. Quanto a mim... — ela fez uma pausa — aceitei que você viesse apenas para não causar mais preocupações ao meu velho pai.
Chen Luo acenou levemente com a cabeça.
Nas lembranças, o pai do antigo dono e o de Shangguan Nanyan haviam prestado juntos os exames imperiais em Pequim. Só que o pai dela era um prodígio: aprovado de primeira e, com esforço próprio, alcançou o posto de Primeiro-Ministro. Já o pai do antigo dono? Foi reprovado uma vez, depois outra, e assim por diante, até que, na quinta tentativa, conseguiu, com muita dificuldade, tornar-se um dos três melhores da prova.
Desiludido, abandonou a carreira política. O atual cargo de magistrado de Yunyang só lhe fora concedido pelo Primeiro-Ministro, por consideração aos laços antigos.
A diferença entre as famílias era abissal. Esse casamento não apenas era inadequado; era completamente desnecessário. Mas o Primeiro-Ministro era um homem de palavra.
— Já que estudou, agora que está na capital, fique na mansão e dedique-se aos estudos. Tente conquistar uma posição no exame imperial — disse Shangguan Nanyan, com tranquilidade. — Assim, não preciso preocupar meu pai com o casamento, e ambos evitamos muitos problemas.
Chen Luo foi assentindo enquanto ouvia. Pensando bem, o casamento era de interesse mútuo.
— Contudo... — ela mudou o tom — só seremos marido e mulher no papel. Nada de dividir o quarto, nem de consumar o casamento.
— Diante dos mais velhos, fingiremos harmonia; no cotidiano, seremos estranhos, sem interferir na vida um do outro.
— E, por fim, o mais importante — seus olhos brilharam friamente —: se ousar manchar a reputação da mansão, eu mesma pedirei o divórcio, e nem meu pai poderá impedir.
Chen Luo respondeu alegremente:
— Sem problema algum!
Tudo fazia sentido; não tinha por que recusar. A reação deixou Shangguan Nanyan um tanto surpresa. Imaginara que ele negociaria, ou mesmo fizesse exigências descabidas. Se ele propusesse algo razoável, ela até consideraria.
Ao que parecia... ele estava mesmo decidido a ser um genro residente, abrindo mão até do orgulho masculino.
— Que tal assim — sugeriu Chen Luo de repente. — Acrescentemos mais uma cláusula: se no futuro cada um encontrar alguém por quem se apaixone, poderemos nos separar amigavelmente?
O olhar de Shangguan Nanyan vacilou; ela realmente não esperava por aquilo.
— Está bem — concordou.
Concluída a conversa, Shangguan Nanyan fez sinal para que a criada ao seu lado entregasse uma bolsa pesada a Chen Luo.
— Este é o estipêndio deste mês.
Chen Luo pesou o saco na mão e sentiu que era considerável. Ao abri-lo, seus olhos brilharam.
— Tanto assim?
Havia dezenas de taéis de prata dentro.
— Não é muito — respondeu ela, com frieza —, mas espero que use para fins corretos.
Chen Luo, porém, como se não tivesse ouvido, perguntou de repente:
— Senhorita Nanyan, este dinheiro de bolso é mensal?
Shangguan Nanyan assentiu de leve:
— Naturalmente. Mas se cometer algum deslize, reduzirei conforme julgar necessário.
— Isso é maravilhoso! — Chen Luo abriu um sorriso radiante, ignorando a segunda parte da fala. — Tomar chá, ouvir histórias, passear pela cidade... hehehe...
— O que disse? — O semblante de Shangguan Nanyan escureceu, as sobrancelhas franzidas.
— Ir beber chá e ouvir contadores de histórias — respondeu Chen Luo, com ares inocentes. — Talvez não seja importante para você, mas para mim é essencial.
— Agora que está na capital! — Ela conteve a raiva. — Não deveria se dedicar aos estudos e buscar uma carreira?
Chen Luo balançou a cabeça, sério:
— Se não fosse para ser genro do Primeiro-Ministro, acha que eu teria vindo? Estudar é cansativo. Já que já assumi o papel de genro residente, prefiro desfrutar de dias tranquilos.
— Você! — O peito de Shangguan Nanyan subia e descia de indignação.
Ela respirou fundo e, rangendo os dentes, perguntou:
— Então veio apenas para aproveitar a boa vida? Não tem nenhuma ambição?
— Senhorita Nanyan — Chen Luo respondeu com um sorriso despreocupado —, sendo genro nesta mansão, que grande ambição acha que posso ter?
Shangguan Nanyan tremia de raiva, mas acabou rindo de desespero.
— Muito bem! Quer viver como um parasita, sem fazer nada, não é?
Articulou palavra por palavra:
— Saiba: se eu descobrir que você envergonha a mansão, eu mesma escrevo a carta de divórcio!
— Fique tranquila! — Chen Luo bateu no peito, despreocupado. — Aliás, se quiser mesmo se livrar de mim, pode fazer isso quando quiser.
A resposta surpreendeu Shangguan Nanyan. Pensando bem... fazia sentido. Se não fosse para poupar o pai de aborrecimentos, já teria posto aquele inútil para fora.
— Cuiyun! — Ela se levantou abruptamente. — Fique de olho nele para mim!
Antes de sair, lançou um olhar furioso para Chen Luo.
— É melhor comportar-se!
Assim que Shangguan Nanyan saiu, Chen Luo se aproximou sorridente de Cuiyun:
— Cuiyun, quantos anos tem? Já está prometida?
A criada se encolheu, assustada:
— Se-senhorio! Por favor... não faça isso!
— Ah, que falta de graça — Chen Luo acenou displicentemente. — Vamos, acompanhe-me num passeio.
— Espere por mim! — Cuiyun correu atrás dele, ansiosa. — Para onde vamos?
— Já disse, só para dar uma volta — respondeu Chen Luo, com um sorriso enigmático. — Ou acha que vou aprontar alguma?
Apesar das palavras despreocupadas, seus pensamentos eram outros. Fosse para se separar no futuro ou ser descartado, precisava garantir uma saída.
Na Cidade Imperial, sem dinheiro ninguém sobrevive.
Por isso, era hora de conseguir recursos!