Capítulo Quarenta e Oito: A Imperatriz Designa um Censor Especial
Alguns guardas vestidos com uniformes de carcereiros escoltavam um prisioneiro com o rosto coberto por um pano negro, caminhando por um corredor sombrio do palácio. Chen Luo liderava a comitiva, ostentando ares de quem havia capturado o verdadeiro culpado que tramara contra o Palácio do Chanceler, pronto para encontrar-se com a Imperatriz e negociar a segurança de todos os membros da residência.
No meio do caminho, eles cruzaram com um grupo de eunucos do palácio, à frente dos quais estava Wei Huai.
— Não imaginei que o senhor encontraria o verdadeiro criminoso tão rapidamente — disse Wei Huai, sorrindo e juntando as mãos em saudação. — Quando Sua Majestade souber, certamente ficará muito satisfeita. Talvez até conceda ao senhor um alto posto.
— O senhor me lisonjeia — respondeu Chen Luo com indiferença. — Apenas desejo garantir a segurança da família do Chanceler.
— Peço que me siga, por favor — disse Wei Huai, virando-se para guiá-los.
Formava-se assim um grupo bastante peculiar: eunucos, carcereiros, Chen Luo e Wei Huai, nenhum deles parecia ser alguém capaz de lutar.
A meio caminho, uma patrulha da Guarda Imperial bloqueou-lhes o avanço. O capitão saudou Wei Huai:
— Senhor Wei, Sua Majestade ordena que os prisioneiros graves sejam entregues a nós!
Wei Huai trocou um olhar com Chen Luo e acenou:
— Se é ordem imperial, então está em vossas mãos.
Os carcereiros transferiram o “Li Gui” encapuzado para a Guarda Imperial.
Quando o grupo se afastou, Wei Huai soltou um riso frio:
— Que ousadia da Família Xie, ousarem fazer-se passar por guardas do palácio!
Chen Luo observou os que se afastavam e murmurou:
— Em plena luz do dia, a Família Xie jamais ousaria enviar assassinos diretamente. Disfarçar-se de guardas ou de criados do palácio é mesmo a opção mais segura.
— Então não teme pela sua amiga? — indagou Wei Huai.
— Confio em senhorita Chi. Esses poucos não são páreo para ela.
O prisioneiro encapuzado não era outro senão Chi Hanshang disfarçada. O verdadeiro Li Gui já havia sido entregue à Imperatriz sob a proteção de Su Shuhuai.
Chen Luo seguiu Wei Huai até um dos palácios, onde a Imperatriz Xuan Ruoli os aguardava.
— Este súdito saúda Vossa Majestade! — saudou ele respeitosamente.
Xuan Ruoli respondeu com frieza:
— Não precisa de tantas formalidades.
— Chen Luo, começo a ver-te com outros olhos. Não imaginei que em apenas uma hora limparias o nome do Palácio do Chanceler.
— Era meu dever, Majestade.
Ela sorriu suavemente:
— Sendo assim, cumprirei minha promessa. Não só protegerei o Palácio do Chanceler como também restituirei a prata confiscada.
— Minha gratidão, Majestade!
A maior parte daquela prata pertencia a Shangguan Qian, e o restante era fruto do negócio de perfumes de Chen Luo. Se não recuperasse esse dinheiro, não só o Palácio do Chanceler como ele próprio estariam à beira da falência.
Chen Luo então pediu:
— Majestade, Li Gui foi apenas um instrumento nas mãos de outros, é um homem de destino infeliz. Suplico que lhe poupe a vida! Meu sogro também concorda em não mais responsabilizá-lo.
Sabendo que sua posição não era forte o suficiente para convencer a Imperatriz, ele procurou Shangguan Qian antes para obter sua anuência.
— Se até seu sogro não busca vingança, posso poupar-lhe a vida, mas não escapará do castigo. O exílio será inevitável — ponderou Xuan Ruoli, antes de continuar: — Contudo, pensei melhor: o exército de Da Ning carece de soldados. Que ele entre para as tropas e redima-se em combate.
— Vossa Majestade é sábia.
Assim, Li Gui teria sua vida poupada.
De repente, Xuan Ruoli perguntou:
— Embora esteja a ajudar a Corte de Da Li a investigar, já pensou em aceitar um cargo oficial?
— Nunca passou por minha cabeça, Majestade. Para mim, ser consultor externo já é grande honra.
— Consultor externo? — Xuan Ruoli riu. — Ouvi dizer que cobras dez taéis de prata por cada caso para Su Shaoqing. De fato, “externo” não poderia ser mais adequado.
Nesse instante, Wei Huai entrou apressado e reportou, após uma reverência:
— Majestade, a amiga de Chen Luo eliminou todos os traidores da Família Xie disfarçados de Guardas Imperiais!
— Todos mortos? — a Imperatriz franziu levemente o cenho.
— Restou um vivo — respondeu Wei Huai.
A Imperatriz regozijou-se:
— Excelente!
A ousadia da Família Xie era tamanha que invadiram o palácio e se fizeram passar pela Guarda Imperial. Isso já era suficiente para sua ruína. Mas para Xuan Ruoli, não bastava: ela queria extirpar a influência dos Xie da capital e de todo Da Ning.
— Majestade, ouso sugerir — disse Chen Luo, sério — que a Família Xie não só infiltrou a corte, mas também o próprio palácio. É urgente eliminar todos os traidores.
— Concordo — assentiu Xuan Ruoli, ordenando imediatamente que Wei Huai desse início à purga.
Que a Família Xie conseguisse enviar assassinos tão rapidamente mostrava quantos espiões tinha no palácio. Talvez conhecessem cada decisão da imperatriz, cada reunião e cada detalhe de sua corte. Se não eliminasse essas ameaças, tanto ela quanto Da Ning estariam em perigo.
— Chen Luo, teu sogro Shangguan Qian sugeriu que usássemos a influência da Família Sun para equilibrar o poder dos Xie. Foi ideia tua? Sabes que pensavas exatamente como eu?
— Não sabia, Majestade. Se for verdade, é grande honra para mim.
— Sendo assim, encarrego-te dessa missão.
Chen Luo ergueu o olhar e, pela primeira vez, viu o rosto da Imperatriz de Da Ning. Sua beleza era de tirar o fôlego, e sua autoridade imperial impunha respeito, tornando impossível qualquer aproximação.
Comparada a Shangguan Nanyan, era ainda mais madura e encantadora.
O mais estranho: aquele rosto lhe parecia familiar.
— O que foi, assustei-te com minha aparência? — perguntou a Imperatriz.
— De modo algum! Apenas achei que já a vira antes… Talvez em alguma reunião de poetas com Nanyan?
— Exato — sorriu Xuan Ruoli. — Na última vez, fui com Jinxi.
Ela era, afinal, o “jovem senhor” que acompanhara Luo Jinxi naquele dia, que todos imaginavam ser o pretendente da princesa.
— Mas isso é importante? — indagou ela.
De fato, não tinha relevância. Chen Luo logo recusou:
— Majestade, ajudar a aliviar suas preocupações é minha honra. Apenas receio não ter talento ou conhecimentos para tamanho encargo.
Tudo o que queria era viver em paz e ganhar algum dinheiro, sem se meter nas intrigas da corte.
Ainda mais quando a Imperatriz queria que ele enfrentasse a Família Xie…
Se fosse tão fácil lidar com os Xie, como teriam dominado o poder por tantos anos?
Xuan Ruoli parecia já esperar sua recusa e, sem pressa, disse:
— Conheço tuas preocupações. Concedo-te permissão para continuar teu negócio enquanto lidas com a Família Xie. Quem sabe eu mesma compre algum perfume.
Apesar de poder aumentar sua reputação negociando com a família imperial, Chen Luo ainda recusou:
— Majestade, peço perdão. Tão grave tarefa seria melhor confiada ao meu sogro…
— Se me ajudares a destruir a Família Xie, concedo-te metade de seus bens. Ainda quer recusar? — interrompeu Xuan Ruoli.
— Metade? — Chen Luo arqueou as sobrancelhas.
— Exatamente. Imagina quanto gastaram para corromper tantos oficiais e governadores… Achas que foi pouco?
Chen Luo permaneceu em silêncio.
Para subornar tantos, o gasto devia ser astronômico.
Xuan Ruoli sorriu, confiante da vitória:
— Posso afirmar: metade das propriedades dos Xie valem, no mínimo, centenas de milhares de taéis de prata.
— Além disso, zelarei pessoalmente por tua segurança. Não temas vingança dos Xie.
Chen Luo suspirou, amargo:
— Majestade, no fundo não me resta alternativa, não é?
— Inteligente — disse Xuan Ruoli, rindo suavemente. — Desobedecer à ordem imperial é punível com a morte. Aceitá-la traz fortunas incalculáveis.
— Então… aceitarei o desafio.
Xuan Ruoli assentiu:
— Muito bem. A partir de hoje, és meu Censor Imperial Especial!