111 Pequenas coisas
Liu Yangyang regressou a casa em silêncio.
A noite de hoje estava invulgarmente fria.
— Yangyang, chegaste tão cedo? Não disseste por telefone que ias jantar com os teus colegas e chegar mais tarde? — perguntou a sua mãe, Xue Yanni, da cozinha, ao ouvir o som da porta a abrir-se, espreitando para fora.
— Os meus colegas tiveram um imprevisto — respondeu Liu Yangyang de forma sucinta, pousando a mala, descalçando os sapatos de salto alto, escolhidos a dedo, e calçando uns chinelos macios.
Xue Yanni recolheu-se para a cozinha, e o som das panelas e colheres recomeçou.
Liu Yangyang mudou de roupa, sentou-se no sofá e ligou a televisão, franzindo a testa enquanto olhava para o ecrã. Era difícil definir o seu estado de espírito naquele momento. Talvez um pouco de frustração.
— O teu pai foi a um banquete de um amigo.
Pouco depois, Xue Yanni trouxe dois pratos de comida para a mesa de centro, seguidos de uma tigela de papas de milho e pãezinhos cozidos a vapor, sentando-se ao lado da filha.
Liu Yangyang perguntou então:
— Que banquete? O filho do amigo dele casou-se?
— Não, é o banquete de um mês do neto de um amigo do teu pai. — Ao dizer isto, Xue Yanni lançou um olhar à filha.
Liu Yangyang fingiu não reparar e mudou casualmente para um canal de notícias locais; a sua profissão exigia que estivesse bem informada sobre esses conteúdos.
Xue Yanni comia e conversava, ora mencionando que amigo tinha tido um neto, ora comentando que o filho do vizinho do lado já ia no segundo casamento.
Liu Yangyang ouvia sem demonstrar emoção, mas pouco depois, o canal de notícias mostrou imagens dos líderes municipais a realizar um seminário sobre a indústria da internet, onde surgiu um rosto muito radiante e sorridente.
— Droga — praguejou Liu Yangyang, sentindo-se desanimada.
— O que disseste? — Xue Yanni não ouviu bem.
— Disse que isto está um pouco seco — respondeu Liu Yangyang, apontando para o pão.
— Se está seco, bebe a papa. És tonta? És tão teimosa como o teu pai. — Xue Yanni, passando da filha para o pai, soltou uma tosse e finalmente entrou no assunto: — Ontem, uma colega do meu trabalho apresentou-me um rapaz que trabalha no hospital. Como amanhã estás de folga, vão jantar juntos.
Ao ver que a filha não respondia, Xue Yanni recorreu ao discurso habitual:
— Já não és nenhuma criança. Olha para os outros, alguns já têm filhos que correm por aí.
— Está bem — suspirou Liu Yangyang. — Onde vamos jantar amanhã?
Xue Yanni ficou surpreendida, pois todo o discurso que tinha preparado revelou-se desnecessário. Com alegria, respondeu:
— Vou ligar-lhe mais tarde para combinar. A tua tia Li disse que a situação familiar dele é boa; os pais são ambos funcionários aposentados do hospital, ele tem boa aparência e é jovem.
— Está bem, está bem, como quiseres. — Liu Yangyang, desinteressada, desligou a televisão, pegou no telemóvel e foi para o seu quarto.
Xue Yanni, sem se importar com mais nada, terminou a sua papa e ligou imediatamente ao intermediário para marcar o jantar. A filha era perfeita em tudo, exceto pelo facto de ter vinte e seis anos e não ter facilidade em encontrar um companheiro no seu local de trabalho, o que a tinha levado a adiar e a adiar a situação.
No dia seguinte, ao meio-dia, Liu Yangyang, no seu dia de folga, dirigiu-se a um restaurante ocidental de bom nível, conforme o endereço indicado pela mãe. O pretendente já a esperava num lugar visível.
— Olá, Liu Yangyang. Sou o Zhang Yi, apresentado pela tia Li. — O pretendente, com elegância, afastou a cadeira para a senhora e apresentou-se educadamente: — Trabalho no departamento administrativo do Segundo Hospital Afiliado de Zhejiang.
Liu Yangyang sorriu:
— Olá, Zhang Yi. Sou a Liu Yangyang, do segundo departamento de secretariado do comité municipal.
Zhang Yi assentiu:
— Ouvi falar da tua situação pela tia Li. O trabalho de secretariado deve ser muito ocupado, não é?
— É bastante ocupado. — Com apenas um minuto de conversa, Liu Yangyang sentiu que o temperamento dele não combinava muito com o de um médico, por isso perguntou: — Trabalhas no departamento administrativo? Deves lidar com muitos pacientes diariamente, certo?
Zhang Yi riu-se:
— No nosso departamento administrativo não tratamos doenças; somos a parte administrativa do hospital e, normalmente, não temos contacto com os pacientes.
Liu Yangyang compreendeu instantaneamente: era um colega na área administrativa do hospital.
Zhang Yi, notando que a bela jovem parecia interessada no tema, continuou:
— O departamento administrativo é bastante atarefado com tarefas triviais, algumas das quais, por vezes, não fazem qualquer sentido.
— Não fazem sentido? — perguntou Liu Yangyang, por cortesia.
— Aqui em Lin'an, o Primeiro Hospital Afiliado, por exemplo, está a implementar um sistema de marcação de consultas online. — Zhang Yi encolheu os ombros. — É um tédio. Embora eu seja vice-chefe de departamento, não tenho voz nas decisões sobre este tipo de trabalho, caso contrário…
O estado de espírito de Liu Yangyang tornou-se estranho. Ela hesitou, sem saber o que dizer.
Nesse momento, o telemóvel de Zhang Yi tocou.
Ele retirou o aparelho da cintura com naturalidade, fez um arco no ar antes de atender e, com um sorriso radiante, disse:
— Alô, irmã Li.
— Ah, eu… bem, não é longe, mas não me dá muito jeito agora.
— O quê? Trabalho designado pelo diretor? Mas não estávamos ainda a estudar isso? Como é que se decidiu tão depressa?
— A pessoa já está quase a chegar ao hospital? Está bem, está bem, certo.
Zhang Yi desligou o telefone e, em vez de o prender à cintura, deixou-o em cima da mesa. Depois, disse com ar de desculpa:
— Liu Yangyang, peço desculpa. Surgiu um assunto urgente no hospital. Bem, falando do diabo, o nosso chefe de departamento está fora da cidade e só me resta a mim voltar para coordenar o trabalho, precisamente sobre esse assunto que não faz sentido de que falei há pouco.
Liu Yangyang, compreensiva, disse:
— Não faz mal, podes ir tratar disso.
Zhang Yi assentiu, pegou no telemóvel e perguntou:
— Posso ficar com o teu número?
— Não tenho telemóvel — respondeu Liu Yangyang, balançando a cabeça. — O telefone lá de casa avariou. Dá-me o teu número.
— Está bem. — Zhang Yi escreveu o número num papel, entregou-lho e, pedindo desculpas sucessivas, levantou-se e saiu.
Dois minutos depois, o toque do telemóvel de Liu Yangyang soou dentro da sua pequena mala.
Com uma expressão neutra, ela olhou para o número que a tinha deixado pendurada no dia anterior e só atendeu quando a chamada estava prestes a cair.
— Alô, irmã Yang, onde estás? Quero convidar-te para jantar — disse uma voz alegre do outro lado da linha.
— Estou a jantar — respondeu Liu Yangyang, enquanto os pratos que tinha pedido começavam a ser servidos.
— Ah, irmã Yang, peço imensa desculpa, desculpa mesmo. Tu sabes, ontem tivemos uma reunião especial e houve imensos assuntos na empresa à noite — a voz de Fang Zhuo era sempre sincera e entusiasta.
Liu Yangyang permaneceu em silêncio.
— Irmã Yang, não fiques zangada. Foi um erro involuntário. Se houvesse uma segunda vez, aí sim, seria imperdoável — disse Fang Zhuo.
Liu Yangyang respondeu:
— Tu não mataste o Bo Ren, mas o Bo Ren morreu por tua causa.
— O quê? — Fang Zhuo não compreendeu.
— Vai tratar dos teus assuntos no Segundo Hospital Afiliado — disse Liu Yangyang, desligando o telefone. Ela decidiu que se focaria apenas no seu trabalho e que nunca mais faria nada que fosse além das suas obrigações.
Do outro lado, Fang Zhuo ouviu o sinal de ocupado e abalou a cabeça, sem saber se deveria ligar novamente; a outra pessoa parecia realmente muito zangada.
Pouco depois, o vice-chefe do departamento administrativo do Segundo Hospital Afiliado de Zhejiang chegou.
— Olá, falei anteriormente com a chefe Li Wanshi. Ela está em viagem de negócios, mas o diretor tem pressa. Peço desculpa, peço imensa desculpa — disse Fang Zhuo com um ar de desculpas.
— Não tem problema, Sr. Fang, certo? Vamos trocar os nossos números. — O vice-chefe Zhang Yi tirou o telemóvel, pensando que aquele homem devia ter uma relação especial com o diretor.
Caso contrário, como explicaria que, há pouco tempo, tinha falado com a irmã Li sobre essa tal marcação online e, hoje, de repente, tudo tinha de ser decidido, sendo que, durante a chamada telefónica a caminho, ele até mencionou o contrato.
Aquele assunto não era comum.