096 O agravamento da situação (Parte I)
Em novembro, em Lin'an, Fang Zhuo já sentia o frio ao voltar para o esconderijo à noite.
Mas dentro do esconderijo, o ambiente era animado. A mesa estava puxada para perto do sofá, um novíssimo IBM exibia um filme, e os quatro conversavam e assistiam com entusiasmo, rodeados por sacos vazios de batata frita.
— Chefe, tem alguma boa notícia hoje? — perguntou Yu Hong assim que viu Fang Zhuo entrar.
Ele tirou o casaco, pendurou no cabide improvisado e sorriu:
— Foi só uma recepção simples, nada de especial. Ainda temos que continuar nos esforçando.
Yu Hong respondeu com um “ah” e o convidou:
— Vem ver o filme com a gente.
Fang Zhuo sorriu, puxou um banquinho e se juntou a eles. No notebook, passava “O Jovem Deus do Jogo 3”, dirigido por Wong Jing, estrelado por Leon Lai e Francis Ng.
— Esses filmes de apostadores de Hong Kong são bem interessantes — comentou Fang Zhuo após assistir um pouco, refletindo.
Apaixonada por filmes de Hong Kong, Yu Hong concordou prontamente:
— Pois é, são muito bons. Pena que esse não tem o Stephen Chow. Antes de você chegar, vimos “O Santo dos Apostadores” com ele.
Fang Zhuo sorriu levemente:
— Nessas histórias, o grande vilão sempre acha que conhece a carta do adversário, mas quem realmente sabe é o outro lado. Às vezes, ainda trocam as cartas, é revoltante.
— Revoltante por quê? Quem mandou o grandão fazer coisas erradas? — Yu Hong seguiu o raciocínio do chefe.
— Pensa bem, com toda aquela imponência, carros de luxo, belas mulheres, fortunas... e tudo se perde numa rodada de cartas. Que trágico, que injustiça — suspirou Fang Zhuo.
Yu Hong zombou:
— Foram eles que provocaram o rei dos apostadores. Quem procura acha.
Fang Zhuo assentiu, convencido:
— Tem razão.
Yu Hong olhou para ele curiosa:
— Você está bem reflexivo. Não me diga que também gosta de apostar? Olha, nove entre dez apostadores perdem!
— Imagina! Onde eu teria tempo? Ou estou no hospital, ou com vocês — negou Fang Zhuo.
Yu Hong resmungou:
— E hoje à noite? Quem garante que essa tal recepção não foi jogando mahjong ou cartas? Vai ver ainda perderam de propósito para o chefe.
— Olha só, entende do assunto mesmo, digna filha do vice-prefeito — brincou Fang Zhuo.
— Engraçadinho — retrucou Yu Hong.
Fang Zhuo levantou-se do banquinho, fechou o notebook com firmeza e anunciou:
— Chega de filme, preciso usar o computador para pesquisar. Alguma objeção?
Ele olhou para os outros. Tang Shangde e Hu Meili pareciam surpresos, Yu Hong já se levantava, mas Zhou Xin ainda tentou argumentar.
— Zhouzinho, você tem alguma objeção? — perguntou Fang Zhuo.
Zhou Xin balançou a cabeça rapidamente, e lamentou:
— Só queria pedir, Fang, pega leve com o notebook...
— Muito democrático, quatro contra um. Vão dormir cedo — Fang Zhuo tirou o notebook da tomada e levou para o quarto, lançando um olhar provocador para Yu Hong antes de fechar a porta, como quem diz: agora quero ver reclamar.
Yu Hong ficou vermelha de raiva, como se fizesse questão do notebook!
— Vamos ver TV, Yu! — sugeriu Tang Shangde, tentando aliviar o clima.
Hu Meili ligou depressa a TV, sintonizando no canal seis, que também passava um filme.
Yu Hong sentou-se de novo, aumentando o som da televisão até o máximo.
Zhou Xin olhou para a porta do quarto, depois para Yu Hong irritada, e só conseguia pensar: este é o chefe e a diretora de mercado da minha empresa...
A televisão ficou ligada até tarde. Zhou Xin foi o último a desligá-la. Ao entrar no quarto, viu Fang Zhuo compenetrado no notebook, vez ou outra anotando algo num caderno ao lado.
Zhou Xin se aproximou e perguntou:
— Fang, está pesquisando o quê?
— Vai dormir — respondeu Fang Zhuo de cara séria e tom firme.
Zhou Xin deitou-se na cama de solteiro. Antes de fechar os olhos, viu as palavras “Província de Chuan” e “anúncio de construção” na tela.
Será que o próximo passo é expandir para a província de Chuan?
Mas é tão longe...
Sem entender direito, Zhou Xin adormeceu ouvindo o som do teclado, sabendo que o chefe ficou pesquisando até tarde.
No dia seguinte, ao acordar, Zhou Xin foi checar seu IBM e percebeu que o notebook nem estava fechado. Correu para conferir. A energia estava desligada, mas... assim pega muita poeira.
Olhando em volta, viu o chefe dormindo profundamente — e o caderno que ele usava na noite anterior havia sumido.
Curioso, Zhou Xin limitou-se a lavar o rosto e tomar café.
A simulação do teste de operação no hospital estava marcada para terça-feira. Segundo o plano, naquela segunda ainda precisavam ir ao Hospital Universitário de Zhejiang. Mas, já eram quase oito horas, e o chefe ainda dormia.
— Acorda ele — apressou Yu Hong.
Zhou Xin hesitou:
— Acho que ontem ele ficou pesquisando até tarde. Umas duas ou três da manhã, vi que ainda estava acordado.
Yu Hong ficou surpresa:
— Pesquisando o quê?
Zhou Xin balançou a cabeça.
Enquanto conversavam, a porta do quarto se abriu e Fang Zhuo apareceu, com um rosto exausto — acordara com o barulho.
— Hoje de manhã tenho assuntos para resolver. Vocês vão ao hospital, eu apareço à tarde.
Os quatro suspeitavam que o chefe queria apenas dormir mais, mas nada disseram e seguiram para o hospital conforme o combinado.
Fang Zhuo voltou a deitar um pouco, depois levantou-se para pesquisar mais sobre o “Grupo Topo”. Naquela época, a busca por informações era muito mais difícil. Sem motores de busca, ele precisava garimpar manualmente.
Procurava, por exemplo, notícias de empresas da província de Chuan no Sina, algumas entrevistas, os planos anunciados pelo grupo.
Após uma pesquisa fragmentada, Fang Zhuo preencheu várias páginas com tópicos importantes.
Na recepção da noite anterior, tudo correra bem, mas a insistência de Song Ruhua em propor uma parceria o deixara alerta — aquele homem não era confiável.
Muitas vezes, sabendo o resultado, era possível deduzir o processo.
Por exemplo, o Grupo Topo anunciava investimentos milionários em cada parque de software — certamente uma mentira.
Se era mentira, nada impedia de exagerar: podia alegar que o capital inicial do grupo era de apenas quinhentos mil, e não em apenas uma cidade, mas sim em todo o país.
Ou, por exemplo, as especulações e lucros com ações do Grupo Topo.
Se isso acontecia, bastava tecer algumas histórias de troca de favores e corrupção, que seria plausível.
De qualquer forma, o senhor Song não iria durar muito. Cairia em algum lugar, não importava onde.
Fang Zhuo coletava e organizava suas anotações com calma. Ainda não decidira se, diante de sinais suspeitos, deveria tomar medidas como denúncias ou manipular a opinião pública, mas estar preparado nunca era demais.
Além disso, denúncias comuns dificilmente teriam efeito. Era preciso algo direcionado.
Nessa área, Fang Zhuo não era experiente — era apenas um sujeito honesto.
Rasgou cinco páginas do caderno, cheias de anotações.
Observou-as por um tempo, riscou os pontos com alguma incoerência lógica e pensou que deveria reescrevê-los, desta vez com o tom de alguém interno ao grupo.
Denúncias comuns poderiam ser abafadas, mas ele ainda tinha uma boa carta na manga, tudo dependeria do desenrolar da situação.
Senhor Song, seja um bom dragão além do rio, e não crie confusão.