Capítulo 88: Interrogatório (Peço votos de recomendação)
Depois de se despedirem do velho barqueiro, os três continuaram seu caminho furtivamente até chegarem à periferia da Aldeia da Névoa.
— Kazumi, preciso que descubra onde eles estão — sussurrou Shiroya.
— Byakugan, ativar!
Com os dedos formando selos e veias saltando ao redor dos olhos, Kazumi Hyuuga ativou o olhar albino e impiedoso; em sua visão, todas as cores se desvaneceram, transformando o mundo em tons de cinza e branco.
Nesse universo monocromático, o brilho do chakra era impossível de ocultar, fulgurando intensamente diante dele.
Kazumi vasculhou meticulosamente toda a aldeia, procurando qualquer indicação do paradeiro dos três companheiros capturados.
Embora chamada de vila, a Aldeia da Névoa, sendo a maior organização militar do País da Água, ocupava uma extensão muito além do que o nome sugeria. Nem mesmo o Byakugan conseguia atravessá-la por completo.
Por isso, após uma primeira varredura infrutífera, os três mudaram sua posição, circulando até o outro lado da aldeia.
Depois de algumas mudanças de local, Kazumi finalmente teve um vislumbre.
— Encontrei! Estão juntos, a dois quilômetros na direção leste!
Ele apontou para frente. — E há muitos ninjas vigiando-os. Entre eles, dois com chakra tão forte quanto o seu, capitão!
— Excelente! — assentiu Sakumo Hatake. — Kazumi, fique aqui de prontidão. Shigure, venha comigo!
— Sim, capitão!
Ping... ping...
Gotas de água turva caíam do teto imundo, algumas atingindo a testa dos três prisioneiros, outras pingando na água ao lado deles.
— Ainda se recusam a falar?
A voz gélida ecoou pelo cárcere, cortante como uma serpente úmida deslizando pela espinha.
— Senhor Presa Sangrenta!
Dois membros da divisão secreta, responsáveis pelo interrogatório, levantaram-se apressadamente para prestar continência.
— Muito bem — respondeu Presa Sangrenta, repetindo a pergunta. — Não disseram nada?
— N-não, senhor — o subordinado parecia nervoso. — Tentamos de tudo: afogamento, submersão, chicotadas, até mesmo... nada funcionou. Mal demonstraram dor. Suspeito que...
— Suspeita que foram selados mentalmente?
Presa Sangrenta franziu a testa.
Embora os três capturados tivessem sido detidos por Yagura e seus aliados, como chefe da ANBU, Presa Sangrenta assumira o interrogatório assim que retornaram à vila.
Parte disso era dever; outra parte, o desejo de conter o ímpeto dos reformistas liderados por Kyouka Yagura, cada vez mais ativos. Fiel cão de guarda do Terceiro Mizukage e sua lâmina mais afiada, Presa Sangrenta sentia-se responsável por frear os avanços da oposição.
Jamais imaginara, porém, que receberia um verdadeiro abacaxi em mãos.
A determinação e resiliência dos três prisioneiros surpreendiam até mesmo um veterano como ele.
Sabia melhor do que ninguém o quão cruéis eram os métodos da Aldeia da Névoa. Bastava olhar para o estado dos três, sem um centímetro de pele intacta além do rosto, para entender.
Nem ele próprio tinha certeza de que suportaria tal tortura sem ceder. E, no entanto, aqueles homens mal esboçaram expressões de dor.
— É possível, sim — concordou ele.
Técnicas de selamento sempre foram raras no mundo ninja, e a Aldeia da Névoa, originalmente, não possuía tradição alguma nesse campo.
— Humpf. Mandem chamar Shuuhei!
Após ponderar, Presa Sangrenta tomou uma decisão difícil: pedir auxílio ao Clã da Neve.
Mas por quê?
Durante a Segunda Grande Guerra Ninja, o Mizukage enviara os clãs hereditários — liderados pelos Hozuki — para atacar, junto aos ninjas de Kumo e Iwa, a aldeia dos Uzumaki, reduto de técnicas de selamento.
Queriam dominar melhores métodos de aprisionamento de bestas com cauda e, de quebra, enfraquecer os clãs adversários.
O plano deu certo: o poder de combate dos Uzumaki foi assombroso, mas mesmo com perdas severas para os Hozuki, Yuki e Kaguya, houve ganhos inegáveis.
Embora os pergaminhos secretos dos Uzumaki estivessem sob a guarda da aldeia, os clãs Hozuki e Yuki detinham coleções ainda mais completas.
Quanto ao clã Kaguya, igualmente devastado? Ninguém esperava grande coisa deles.
Considerando sua posição, Presa Sangrenta não queria recorrer aos Hozuki, pois seria como submeter-se aos velhos clãs, coisa que desprezava.
Shuuhei chegou rapidamente.
— Senhor Presa Sangrenta!
O homem de cabelos negros como cascata e rosto suave cumprimentou-lhe com um leve aceno.
— Shuuhei, examine-os. Veja se estão sob algum selo restritivo — ordenou Presa Sangrenta, sem rodeios.
Se fosse Chizuki Hozuki, provavelmente ignoraria tal ordem — afinal, Presa Sangrenta era apenas chefe da ANBU, sem autoridade sobre ninjas de outros setores.
Mas o Clã da Neve era diferente: de natureza gentil como seus traços, não se incomodavam com a falta de cortesia.
— Estes são os três capturados por Yagura, correto?
Lançando um olhar para o cárcere de água, Shuuhei demonstrou surpresa e, ao mesmo tempo, compreensão: — Resistirem a tortura tão severa sem falar sugere, de fato, o uso de selamento.
Deu dois passos à frente, formou selos com uma mão e estendeu a outra:
— Liberação do Gelo: Espinhos Gélidos!
Um espinho de gelo, grosso como um polegar, serpenteou para fora de sua palma, exalando frio visível, e enrolou-se ao redor do ombro de Yamanaka Taku.
Exaurido por dias de tortura, Taku não tinha forças para resistir, deixando-se envolver pelos espinhos que perfuravam sua pele e o arrastavam até Shuuhei.
Uma grande mão gelada pousou em sua cabeça.
— Liberação do Gelo: Túmulo Espiritual de Gelo!
Uma camada de geada branca cobriu lentamente o rosto de Taku, enquanto, invisível, uma onda de frio penetrava seu sistema nervoso.
— Aaah... aaah...
Sem forças para reagir, Taku só conseguia emitir gemidos débeis diante da dor gélida que lhe atravessava a alma.
Vendo sua condição, Presa Sangrenta alertou:
— Ei, Shuuhei, cuidado para não matá-lo!
— Não se preocupe. Só quero projetar o que está escondido em sua mente — respondeu Shuuhei, sorrindo gentilmente.
Quando a geada cobriu toda a cabeça de Taku, os selos em suas mãos mudaram.
Um espelho circular de gelo flutuou à sua frente, e, pouco a pouco, a imagem de um cérebro exposto apareceu em sua superfície.
Nesse exato momento, um inseto minúsculo bateu silenciosamente as asas e escapou, sem ser notado, rumo ao exterior da masmorra.