Capítulo Três: A Graciosa Jovem Taoista

Embriaguez de Tang Tang Yuan 4653 palavras 2026-02-07 15:21:21

“Não precisa de formalidades!”, disse Sun Simiao, aproximando-se de Chen Yi, que permanecia curvado em respeito, e o avaliou cuidadosamente dos pés à cabeça. Com um gesto da mão, convidou: “Jovem amigo, venha comigo para dentro. Vou examinar seus ferimentos.”

“Sim, mestre!”, respondeu Chen Yi, inclinando-se novamente e seguindo Sun Simiao para dentro da casa. Ning Qing, que até então permanecera calada, mas lançava olhares curiosos a Chen Yi com seus belos olhos, também os acompanhou. Assim que entraram, ela ficou de pé discretamente a um canto, demonstrando uma postura muito respeitosa.

Já haviam se passado alguns dias, e Chen Yi conseguia entender perfeitamente o que os outros diziam. Até sua entonação se adaptara, assemelhando-se à deles. Isso o intrigava profundamente, pois não compreendia como alguém acostumado, em sua vida anterior, a falar apenas o mandarim padrão, poderia, em poucos dias, mudar completamente o modo de se expressar.

Sun Simiao sentou-se e indicou que Chen Yi fizesse o mesmo ao seu lado. Assim que Chen Yi obedeceu, Sun Simiao estendeu a mão, tomou-lhe o pulso por alguns instantes e, em seguida, examinou cuidadosamente os ferimentos do rapaz. Após uma minuciosa avaliação, Sun Simiao sorriu e assentiu com a cabeça:

“Você sempre teve um corpo robusto, jovem amigo, e seus ferimentos não foram graves, pois não atingiram ossos nem órgãos vitais. A recuperação, portanto, foi rápida. Com mais alguns dias de repouso, estará totalmente curado! Quando soube da lesão na cabeça, temi complicações, mas vejo que não há motivo para preocupação!”

“Tudo isso só foi possível graças ao senhor, mestre Sun,” respondeu Chen Yi, com sincera gratidão, inclinando-se mais uma vez. “O senhor é o mais hábil dos curandeiros desta era; só consegui me recuperar tão depressa por sua causa. Se não fosse pela sua ajuda, não estaria aqui para agradecer; provavelmente meu corpo estaria abandonado em algum lugar ermo.”

Sun Simiao aparentava simpatia e juventude, ainda que seus cabelos e barba já estivessem brancos, conferindo-lhe um ar de erudição e espiritualidade. Diante daquele mestre tão bondoso e sábio, Chen Yi não ousava demonstrar qualquer desrespeito, comportando-se sempre de maneira cautelosa e reverente.

“Curar e salvar vidas é o dever de todo médico. Não precisa me agradecer tanto por um gesto tão simples!”, disse Sun Simiao, recolhendo o sorriso e balançando a cabeça com leve melancolia. “Apesar dos anos de prática, conheço apenas o básico da arte médica; muitos males ainda estão além das minhas capacidades. Não sou digno dos títulos de ‘Deus da Medicina’ ou ‘Rei dos Remédios’. Além disso, percebi que você mesmo cuidou de alguns dos seus ferimentos, usando métodos que desconheço. Isso me faz crer que também domina a arte médica. Posso saber de quem aprendeu?”

O olhar de Sun Simiao era inquisitivo, esperando uma resposta.

“De fato, mestre, conheço um pouco de medicina, mas não sou um médico de ofício. Apenas li alguns livros de medicina herdados da família e memorizei parte de seu conteúdo…”, respondeu Chen Yi, sentindo-se constrangido por não saber como explicar de onde vinha seu conhecimento. Mentir para alguém tão sábio parecia-lhe impossível, e evitava até encarar o velho, que parecia enxergar a alma das pessoas.

Logo que despertara e aceitado sua situação, Chen Yi tratara seus ferimentos da melhor forma possível. Após ser resgatado pelos discípulos de Sun Simiao, o próprio mestre cuidara de suas lesões, aplicando medicamentos que ele desconhecia. Não sabia se os ferimentos haviam passado por desinfecção, nem qual era o efeito dos remédios utilizados, mas, com base em sua experiência, também empregou algumas de suas próprias técnicas e conversou sobre medicina com Ning Qing, sabendo que ela certamente contaria tudo ao mestre.

Não esperava, porém, que Sun Simiao fosse tão direto em suas perguntas. Sem saber o que responder, temendo inventar uma história inconsistente, limitou-se a uma resposta evasiva, torcendo para que o mestre não insistisse.

“Vejo que tem seus motivos para não querer se aprofundar no assunto, não perguntarei mais!”, disse Sun Simiao, levantando-se. “Já que está melhor, vou tratar de outros assuntos. Amanhã volto para examiná-lo novamente. Por hora, descanse e evite esforços. Qualquer necessidade, peça a Qing para ajudá-lo.”

“Sim, mestre Sun!”, respondeu Chen Yi, pondo-se de pé e agradecendo. “Muito obrigado, mestre!”

Sun Simiao não insistiu, e Chen Yi suspirou aliviado.

Antes de sair, Sun Simiao deu alguns passos e voltou-se para Chen Yi, dizendo com significado: “Caso tenha dúvidas ou precise conversar, pode me procurar a qualquer momento. Se quiser discutir sobre medicina, também estou à disposição.”

Aquelas palavras deixaram Chen Yi um pouco inquieto, mas ele apressou-se em assentir: “Entendi, mestre Sun. Muito obrigado!”

***

Ning Qing acompanhou Sun Simiao até a porta e logo retornou.

Na casa onde Chen Yi estava hospedado, Sun Simiao só aparecia uma vez por dia; o restante do tempo, era Ning Qing, a jovem noviça, quem cuidava de tudo. Após alguns dias de convivência, já havia estabelecido certa intimidade com aquela moça tão cheia de vitalidade. Mesmo assim, ainda não se sentia completamente à vontade diante de alguém de sua idade, tratando-a sempre com respeito.

“Então, senhor Chen, está mesmo recuperado?”, perguntou Ning Qing, fitando-o com seus grandes olhos brilhantes.

“Já não sinto mais nada!”, respondeu Chen Yi, movendo os braços e sorrindo com gratidão. “Agradeço muito por terem me resgatado e, especialmente, pela sua dedicação nestes dias. Serei eternamente grato!”

Aos poucos, Chen Yi já sabia como fora salvo. Sun Simiao, ao procurar determinados ingredientes para uma receita medicinal, levou alguns discípulos à região de Liangshan, onde era possível encontrar ervas raras, como o báiji, mesmo em época fria. Ao subirem a montanha, Ning Qing e dois irmãos de ordem encontraram Chen Yi ferido e o trouxeram de volta.

Sun Simiao tinha ainda dois discípulos homens, Wang Chong e Liu Hai, que haviam ajudado a carregar Chen Yi. Nos últimos dias, estavam na montanha colhendo ervas, enquanto Ning Qing se encarregava de cuidar de Chen Yi.

Ao tomar conhecimento disso, Chen Yi sentiu-se profundamente agradecido e sortudo. Ser salvo após um acidente desperta gratidão em qualquer um; além disso, ser assistido por uma jovem tão encantadora era motivo de alegria e honra para ele.

Ning Qing, porém, minimizou: “Não foi nada; apenas cumpri as ordens do meu mestre. Ele está sempre ajudando quem precisa.”

“Mesmo assim, agradeço de coração por tudo o que fez por mim!”, insistiu Chen Yi, inclinando-se em sinal de respeito.

Surpresa com o gesto formal, Ning Qing desviou-se rapidamente, abanando as mãos: “Por favor, não faça isso! Não foi nada, meu mestre ajuda as pessoas com frequência!” Após escapar do cumprimento, lançou-lhe um olhar curioso e, sorrindo com as faces coradas, comentou: “Pensávamos que fosse apenas um caçador que caiu da montanha, mas veja só, era um jovem tão bonito!”

Chen Yi, notando o rubor de Ning Qing, sorriu: “A senhorita que está a brincar comigo… Feio sou eu; quem é realmente uma beleza rara é você! Uma visão de tirar o fôlego!”

Aquelas palavras deixaram Ning Qing ainda mais corada, mas, no fundo, estava satisfeita e lisonjeada. Quem não se alegraria ao ser elogiada por um jovem bonito? Apenas não sabia como reagir, sentindo-se envergonhada.

Vendo o constrangimento de Ning Qing, Chen Yi também relaxou, sorrindo gentilmente e adotando um tom mais descontraído: “Tem razão, grandes favores dispensam agradecimentos. Fui formal demais, não falarei mais disso.”

Segundo os registros históricos, na dinastia Tang, chamava-se as jovens de “donzela” ou “senhora”, e Chen Yi passou a usar esses termos, percebendo que Ning Qing e os demais não estranhavam. Ainda assim, achava a expressão um pouco estranha.

“Pois é!”, respondeu Ning Qing, finalmente recuperando a compostura. Olhou para Chen Yi e, após hesitar, perguntou: “Senhor, você realmente esqueceu muitas coisas… ou não quer me contar?” Nos últimos dias, Ning Qing tentara descobrir mais sobre ele, mas Chen Yi nunca esclarecera nada, o que a deixava frustrada.

Surpreso, Chen Yi fitou a jovem, que, nervosa, brincava com a ponta das vestes, e apressou-se em explicar: “Ning Qing, há muitas coisas que realmente não consigo lembrar. Não é por querer esconder nada, é porque não sei! Se pudesse, já teria pedido para minha família vir me buscar!”

“É mesmo? Faz sentido…”, suspirou Ning Qing, não conseguindo esconder a decepção. “É que você me parece tão familiar, como se já nos tivéssemos encontrado antes. Queria mesmo saber quem você é.”

“Será que já nos encontramos antes?”, exclamou Chen Yi, surpreso.

Ning Qing balançou a cabeça: “Vivo neste templo desde pequena, quase não saio. Não poderia ter te visto antes… Só acho seu rosto familiar, talvez tenha me enganado. Por isso, queria perguntar quem você é.”

“Entendo…”, respondeu Chen Yi, levemente desapontado. Suspirou e disse: “Se algum dia eu me lembrar, prometo contar tudo a você. Quem sabe não nos cruzamos quando éramos crianças?”

“Combinado! Quero ver se cumpre a palavra!”, respondeu Ning Qing, abrindo um sorriso radiante.

O sorriso de Ning Qing deixou Chen Yi à vontade, e ele, aproveitando a boa disposição, resolveu tirar uma dúvida: “Ning Qing, posso lhe perguntar algo? Quantos anos tem seu mestre, Sun Simiao?”

Tinha curiosidade, pois, segundo lembrava, Sun Simiao nascera na época das dinastias do Norte e do Sul, e quando Li Shimin subiu ao trono, ele já tinha mais de cinquenta anos. Agora, com Li Zhi no poder e Li Shimin morto há muitos anos, Sun Simiao deveria estar com setenta ou oitenta anos. Contudo, sua aparência era jovem, com poucos sinais de idade, parecendo ter no máximo quarenta ou cinquenta anos. Chamá-lo de “velho mestre” parecia até exagero.

Era um mistério intrigante, e Chen Yi queria confirmar.

“Meu mestre já tem setenta e cinco anos!”, respondeu Ning Qing, orgulhosa. “Ele cuida muito bem da saúde, ninguém imagina quantos anos tem…”

“Uau, seu mestre realmente domina as artes da longevidade. Incrível!”, exclamou Chen Yi, surpreso. Suas suspeitas estavam corretas: Sun Simiao era mesmo um ancião, mas conservava uma aparência jovem. Não era à toa que os registros diziam que ele era quase imortal. Conhecer alguém assim era uma oportunidade rara, e Chen Yi pensou que poderia aprender muito sobre saúde e longevidade com ele.

“Claro! Meu mestre é famoso por seus segredos intransmissíveis!”, disse Ning Qing, olhando divertida para Chen Yi. “Mas não adianta perguntar, porque nem eu sei quais são esses segredos!”

“Entendo!”, lamentou Chen Yi, mas logo lembrou de outra curiosidade. Fitou a jovem, hesitante, e perguntou: “E você… quantos anos tem?”

A pergunta era ousada, pois ele temia que, assim como o mestre, a jovem fosse muito mais velha do que parecia — quem sabe uma espécie de ‘anciã de aparência infantil’. Isso seria, para ele, uma decepção.

Ning Qing percebeu a dúvida e, levemente envergonhada, respondeu: “Tenho apenas quatorze anos. Sou a mais jovem discípula do mestre… Achou que eu também fosse velha como ele? Enganou-se!”

Dizendo isso, sorriu vaidosa, revelando covinhas encantadoras e olhos brilhantes, tão cativantes que Chen Yi ficou momentaneamente sem reação, encantado com sua pureza.

Talvez fosse isso o significado da expressão “beleza de encher os olhos”, pensou Chen Yi, diante de Ning Qing.

“Desculpe a indiscrição, donzela Ning Qing…”, balbuciou ele, fingindo-se embaraçado e coçando a cabeça.

“Sabia que ia pensar bobagem!”, respondeu Ning Qing, rindo e lançando-lhe um olhar vivo e divertido, deixando Chen Yi ainda mais impressionado com sua vivacidade. Demorou um pouco até que ele recuperasse o fôlego.

“Ning Qing, há algo que não entendo… Por que você…”, começou Chen Yi, querendo perguntar por que ela havia se tornado noviça, mas achou desrespeitoso e engoliu as palavras. Era uma dúvida que o acompanhava desde o dia anterior: como podia uma jovem tão encantadora tornar-se monja? Era quase um desperdício da natureza!

“Quer saber por que estou no Templo Zongsheng, não é?”, adivinhou Ning Qing, com um leve tom de tristeza. “Fiquei órfã muito cedo, e meu mestre me acolheu. Já faz mais de dez anos que ele cuida de mim. Por isso, visto o hábito de noviça.”

“Entendi… Perdão por trazer lembranças tristes…”, desculpou-se Chen Yi, sentindo-se constrangido.

“Não faz mal, sabia que perguntaria!”, respondeu Ning Qing, voltando a sorrir. “Vamos falar de outra coisa!”

“Claro, vamos nos sentar e conversar!”, concordou Chen Yi.