Capítulo Trinta e Sete: O Visitante Tardio

Embriaguez de Tang Tang Yuan 2182 palavras 2026-02-07 15:21:58

Na manhã seguinte, Sun Simaio deixou novamente a hospedaria, acompanhado pelos dois discípulos Wang Chong e Liu Hai. Como das outras vezes, Chen Yi e Ning Qing não receberam qualquer explicação clara sobre o destino do excêntrico velho mestre e seus pupilos, sem saber ao certo aonde iriam ou o que fariam. Antes de partir, Sun Simaio apenas lhes disse que tinha assuntos urgentes a tratar e que, caso surgisse qualquer novidade, enviaria alguém para informá-los. Pediu ainda que continuassem hospedados, aproveitando para passear pela cidade e, com alguma sorte, talvez encontrassem alguém do grupo de que haviam se separado.

Apesar de sentir-se sensibilizado pela consideração de Sun Simaio, Chen Yi não pôde evitar certo desapontamento. É algo comum: quando alguém faz questão de esconder algo de nós, sobretudo se estamos curiosos, acabamos por sentir que se trata de uma falta de confiança. Chen Yi compreendia que a relação entre eles ainda era recente e que talvez os assuntos do velho mestre não devessem ser revelados facilmente, mas ainda assim, a curiosidade e o desejo de se integrar mais à vida de Sun Simaio e seus discípulos o incomodavam.

Pensando nisso, e refletindo sobre sua própria situação, Chen Yi sentiu-se um tanto desolado. Já estava em Chang’an havia cerca de um mês e meio, sem conseguir encontrar os companheiros com quem se perdera. Começava a perder as esperanças. Talvez seus amigos já tivessem sucumbido à tragédia daquele dia fatídico, feridos e sem serem socorridos, mortos nas montanhas, ou talvez devorados por feras selvagens.

A partir desse raciocínio, Chen Yi percebeu que já não devia depositar suas esperanças em reunir-se com os antigos companheiros e, por meio deles, iniciar uma nova vida em Da Tang. Decidiu que deveria buscar outro caminho, construir sozinho o seu destino naquela terra. Com a mente mais leve e o espírito resoluto, sentiu-se finalmente em paz; qualquer resquício de tristeza se dissipou por completo depois de conversar com Ning Qing.

Com Sun Simaio, Wang Chong e Liu Hai fora, restaram apenas Chen Yi e Ning Qing na hospedaria. Os dois, no mesmo quarto, conversaram sobre o motivo do regresso súbito de Sun Simaio e sua nova partida apressada. Chen Yi tinha algumas suspeitas, especialmente após ter passado boa parte da noite anterior debatendo com o velho mestre questões de medicina, principalmente sobre doenças respiratórias e cardiovasculares. No entanto, Sun Simaio não havia lhe dito nada abertamente, e por isso não podia ter certeza.

Sem chegarem a qualquer conclusão sobre as intenções de Sun Simaio e seus discípulos, decidiram abandonar as especulações inúteis.

— Qing’er, para onde vamos passear agora? Que tal sairmos da cidade? — sugeriu Chen Yi, animado. Ele nunca tinha ido até a famosa margem da Ponte Ba, e sentia vontade de conhecer o local. Recordava-se dos versos “Ano após ano, as salgueiras enlutam a despedida na Ponte Ba”, escritos por seu pai, um apaixonado por caligrafia, em uma das poesias de Li Bai que enfeitavam o escritório que teria no futuro. Entre os muitos lugares célebres de Chang’an, já conhecera quase todos, exceto os palácios imperiais e os arredores. Por isso, ansiava por um passeio fora da cidade, para deleitar-se com as paisagens.

— Ótima ideia! Vamos hoje mesmo à beira do Rio Ba — concordou Ning Qing, prontamente.

Com a decisão tomada, ambos começaram a se preparar, trocando de roupa adequada para o passeio e pedindo ao atendente da hospedaria que lhes arranjasse cavalos.

No entanto, antes que terminassem os preparativos, foram interrompidos por uma visita inesperada. O próprio atendente veio apressado avisar que alguém os procurava. Ao perceber que a visita era para ele, Chen Yi, intrigado, foi ao encontro do visitante.

Assim que reconheceu quem era, Chen Yi sentiu uma alegria imensa. Não era outro senão Helan Sheng, o amigo com quem, mais de um mês antes, partilhara vinho à beira do Lago Qujiang.

Naquela ocasião, Helan Sheng prometera visitá-lo na hospedaria. Chen Yi não tinha certeza se era apenas cortesia, mas guardara a esperança. Agora, vendo o amigo realmente chegar, sentiu-se até emocionado.

Ao entrar no salão principal e avistar Chen Yi, Helan Sheng — apesar de aparentar alguma ansiedade — sorriu e se adiantou, cumprimentando-o respeitosamente:

— Saúdo o senhor Chen. Venho visitá-lo hoje sem avisar, peço desculpa pela intromissão!

— Que surpresa agradável, senhor Helan! Deveria tê-lo recepcionado à altura, perdoe a falta de formalidade — respondeu Chen Yi, retribuindo o cumprimento. — Por favor, venha até meu quarto.

— O senhor Chen é quem é gentil. O atrevimento foi meu — replicou Helan Sheng, curvando-se com elegância. — Por favor, permita-me acompanhá-lo.

Guiando o caminho, Chen Yi adiantou-se, enquanto Helan Sheng e seus dois acompanhantes, que carregavam caixas de presentes, os seguiam.

Já no quarto, os auxiliares de Helan Sheng depositaram os presentes sobre a mesa, cumprimentaram e se retiraram, fechando a porta. Chen Yi, curioso, olhou para os objetos nas caixas, interrogando Helan Sheng com o olhar.

O amigo, percebendo a dúvida, forçou um sorriso para disfarçar a preocupação e explicou:

— Senhor Chen, estes são apenas pequenos presentes. Na verdade, vim hoje até aqui porque tenho um pedido importante a lhe fazer. Preciso muito de sua ajuda, peço encarecidamente que me atenda!

— Ora, não precisa de tanta formalidade, senhor Helan. Sou muito grato pelo apoio que me deu naquela discussão e pelo auxílio que me evitou problemas. Se precisar de algo, basta pedir, não se acanhe! — disse Chen Yi, embora uma curiosidade intensa o tomasse. Afinal, depois de tão poucos encontros, o que Helan Sheng poderia querer de sua ajuda?

— Já que o senhor Chen fala assim, serei franco — prosseguiu Helan Sheng. — Ocorre que minha mãe está doente. Procuramos diversos médicos, mas nenhum tratamento surtiu efeito. Inicialmente, gostaria de pedir ao Mestre Sun que a atendesse, mas ele anda muito atarefado. — O tom de decepção era claro, acompanhado de um suspiro, mas logo Helan Sheng retomou o vigor e, com os olhos brilhando, continuou: — Contudo, Mestre Sun recomendou vivamente o senhor Chen, dizendo que sua medicina é extraordinária, comparável à dele, e que o senhor é um verdadeiro prodígio. Ele me orientou a procurá-lo para que examinasse minha mãe. — Fez novamente uma reverência, suplicando: — Por favor, senhor Chen, peço que aceite este pedido e examine minha mãe. Ficarei eternamente grato!

Ao ouvir tais palavras, Chen Yi estremeceu, desconfiando que estivesse tendo uma alucinação. Afinal, estava na era da Grande Tang, onde ninguém sabia que ele era alguém vindo de outro tempo, um médico formado, com sete anos de estudos universitários, mais sete anos trabalhando em hospital, respeitado e competente como vice-diretor clínico. E agora, ali estava alguém suplicando que ele atendesse uma dama ilustre, recomendado pelo lendário Mestre Sun. Não era simplesmente inacreditável?