Capítulo Quatro: Não Vou Te Contar

Embriaguez de Tang Tang Yuan 4622 palavras 2026-02-07 15:21:22

— Ziying, você está aí dentro?

— Estou sim! — respondeu Chen Yi, de pé diante da janela, observando o templo e as montanhas intermináveis de Zhongnan. Ao ouvir o chamado de Ning Qing, correu para abrir a porta. Vestida com uma túnica limpa de taoísta e os cabelos presos num coque típico, Ning Qing estava graciosa à entrada, mas trazia no rosto certo constrangimento.

— Senhorita Qing, entre, vamos conversar dentro! — Chen Yi sorriu gentilmente, fazendo um gesto convidativo.

— Ziying, o mestre pediu para que você fosse até ele — disse Ning Qing, hesitando um instante antes de adentrar o cômodo.

— Oh? O Mestre Sun me chama? Irei imediatamente — Chen Yi, surpreso, consentiu e já preparava-se para sair.

— Ei... não precisa tanta pressa. Ainda tenho umas palavras para lhe dizer.

— Ah, é? — Chen Yi percebeu o desconforto no rosto de Ning Qing e logo se acalmou. — Está bem!

Já fazia quase dez dias que Chen Yi estava no Palácio Sagrado. Graças aos remédios fornecidos por Sun Simiao e aos cuidados que ele próprio dispensou às suas lesões, já estava praticamente recuperado; as contusões musculares cicatrizavam bem. Por conselho de Sun Simiao, ainda permanecia em repouso no quarto. Ao longo desses dias, ele e Ning Qing — a jovem noviça — haviam se tornado bem próximos. A pedido de Chen Yi, Ning Qing deixara de chamá-lo de “Senhor Chen” e passou a tratá-lo pelo nome de cortesia “Ziying”, enquanto ele a chamava de Qing’er ou Senhorita Qing. Essa mudança de tratamento aproximou-os ainda mais, e logo surgiu uma cumplicidade sutil entre eles.

Ning Qing também parecia gostar bastante da companhia de Chen Yi, frequentemente indo ao seu quarto quando não tinha tarefas. No pátio onde vivia Sun Simiao, não havia outros residentes; os dois discípulos homens, Wang Chong e Liu Hai, estavam na montanha coletando ervas e não haviam retornado. Diante do mestre, Ning Qing era sempre respeitosa, e diante dos dois irmãos, nunca ousava brincar. Somente na presença de Chen Yi, alguém de idade próxima, podia finalmente expressar a vivacidade e a leveza próprias da juventude, sem se preocupar.

No convívio diário, Chen Yi jamais era severo ou antiquado; seu modo era descontraído, bem-humorado, frequentemente fazendo-a rir com histórias interessantes ou brincadeiras. Isso conferia a Ning Qing uma sensação de novidade. Com Sun Simiao ocupado em seus afazeres e os discípulos ausentes, Ning Qing era bastante livre — terminando suas tarefas, ia logo conversar com Chen Yi.

Chen Yi, por sua vez, apreciava muito a presença dela; conversavam sobre tudo e nada, e ele lhe contava histórias e curiosidades que nunca ouvira, adaptando relatos do seu tempo para entreter a jovem. Chegou a narrar contos clássicos, arrancando-lhe risos frequentes.

Naquele mundo antigo, sem eletricidade, entretenimento ou vida noturna, a vida era, de fato, monótona. Ter ao lado uma moça encantadora tornava tudo mais suportável para Chen Yi. Ver o sorriso radiante de Ning Qing lhe alegrava o coração.

Todos os anos, na primavera, Sun Simiao preparava medicamentos e, nessa época, todos estavam ocupados. Mas como ainda não haviam coletado todas as ervas necessárias, os discípulos estavam ocupados na montanha, e Ning Qing dispunha de tempo para acompanhar Chen Yi, tanto em conversas quanto em passeios fora do templo.

Caminhar por trilhas cobertas de folhas caídas, conversando despreocupadamente com a jovem ao lado, ouvindo suas risadas cristalinas, sentindo seu amparo ao subir ou descer degraus — era uma sensação indescritível de prazer. Contudo, por mais agradável que fosse a convivência daqueles dias, Chen Yi às vezes sentia-se como se vivesse dentro de uma história, tudo lhe parecia surreal. Não compreendia por que Sun Simiao o acolhera, chegando ao ponto de designar uma discípula para cuidar dele — tratamento incomum para alguém comum.

Embora Sun Simiao lhe tivesse feito algumas perguntas, não arrancara grandes informações. Mas Chen Yi percebia, pelo olhar do velho mestre, que havia algo mais, uma curiosidade oculta, o que o levou a suspeitar que Sun Simiao talvez tivesse percebido algo de especial nele. Isso ficava evidente em certos comentários de Ning Qing.

Refletindo sobre isso, Chen Yi pensou no pingente de jade que carregava consigo. Sabia que Sun Simiao e seus discípulos certamente já o haviam visto. Seria aquele jade um objeto especial? Como nada foi dito, ele também não se sentiu à vontade para perguntar.

Ning Qing, olhando para ele, perguntou com expectativa:

— Ziying, quando vai me contar mais daquelas histórias divertidas? Adoro ouvir suas novidades!

Nesses dias, Chen Yi a encantara com relatos que jamais ouvira antes, despertando-lhe uma curiosidade insaciável.

— Claro! Sempre que a senhorita quiser ouvir, terei prazer em contar! — respondeu Chen Yi, sorrindo. Ele adorava o olhar atento de Ning Qing enquanto ouvia suas histórias. Uma jovem tão pura e graciosa era uma raridade no seu tempo; ele nunca tivera oportunidade de conhecer alguém assim. Sentia-se de certa forma afortunado por encontrá-la logo após sua chegada àquele tempo, e sabia que gostava dela desde o primeiro olhar.

Naturalmente, era apenas uma afeição, o apreço instintivo de um homem por uma bela moça; por ora, nenhum sentimento mais profundo estava envolvido. Uma jovem como Ning Qing agradaria a qualquer homem!

— Pois bem, vamos? — disse Ning Qing, dirigindo-se à porta, mas aproveitou para perguntar, expressando uma dúvida:

— Ziying, você... esqueceu tantas coisas do passado, mas por que lembra dessas histórias?

— Não sei explicar ao certo. Talvez porque lia muitos livros antes e essas histórias ficaram gravadas, não as esqueci — respondeu Chen Yi, apontando para a própria cabeça com seriedade. — Já ouvi dizer que nosso cérebro tem áreas diferentes para a memória. Talvez a parte que guarda fatos do dia a dia tenha sido afetada, mas a parte dos livros não sofreu dano. Por isso, o que estudei ficou na mente...

— Será mesmo? Nunca ouvi meu mestre falar disso — Ning Qing olhou de lado para Chen Yi, ainda desconfiada. — Além disso, essas histórias que você conta, nunca ouvi falar. Onde você leu tudo isso?

— Justamente para contar-lhe o que nunca ouviu! Se já conhecesse, não teria graça — respondeu Chen Yi, rindo.

— Você sempre me enrola... — Ning Qing fez pouco caso, torcendo os lábios.

— Jamais ousaria enganar a senhorita Qing! — apressou-se Chen Yi a assegurar, sorrindo.

— Hm! — Ning Qing revirou os olhos, divertida, e não insistiu, levando Chen Yi para o prédio onde vivia Sun Simiao.

***

— Mestre Sun, minhas saudações! — Chen Yi, ao ver Sun Simiao sentado, adiantou-se para cumprimentá-lo.

— Ziying, já está recuperado? — Sun Simiao levantou-se, retribuindo o cumprimento e indicando que se sentasse.

— Agradeço pelos cuidados do mestre Sun e da senhorita Ning Qing. Estou completamente bem! — Chen Yi sentou-se conforme instruído, enquanto Ning Qing ficou em pé ao lado.

— Não precisa de tantas formalidades, não gosto dessas etiquetas — comentou Sun Simiao, franzindo levemente as sobrancelhas.

— Tem razão, mestre. Grandes favores não se agradecem em palavras; não voltarei a insistir nisso! — Chen Yi fez nova reverência, demonstrando respeito. — Mas gostaria de saber, o que deseja de mim nesta visita?

— Sentemo-nos para conversar — Sun Simiao sorriu, voltando-se para Ning Qing. — Qing’er, vá, prepare o remédio que acabei de misturar hoje. Daqui a pouco, Ziying deve tomá-lo...

— Sim, mestre! — Ning Qing curvou-se, lançou um olhar a Chen Yi e, contrariada, saiu.

— Ziying, já recuperou suas lembranças?

— Mestre, algumas sim, outras não consigo recordar de jeito nenhum — respondeu Chen Yi, respeitoso.

Nos últimos dias, estranhas imagens vinham-lhe à mente; ele as tomava por memórias de uma vida anterior, mas eram fragmentadas, sem conexão, deixando-o ainda mais confuso.

Sun Simiao fitou Chen Yi atentamente, acariciando a barba, e disse, com significado oculto:

— Parece que a lesão na cabeça deixou algumas sequelas. Precisa de mais tempo para se recuperar e recordar. Com o passar dos dias, talvez tudo volte à memória.

— Tenho tentado lembrar, mestre, mas quanto mais penso, mais confuso fico...

— É mesmo? — o olhar de Sun Simiao mudou levemente, depois voltou a perguntar: — Sabe para onde estava indo, e se havia acompanhantes?

— Mestre, creio que estávamos indo para Chang’an, eu e meus criados. Mas não sei o que foi feito deles — essas visões recentes confirmavam isso: seu eu anterior seguia para Chang’an com alguns acompanhantes, mas nada mais conseguia recordar, então respondeu de modo vago.

— Entendo! Como sua saúde já está quase restabelecida, daqui a alguns dias também viajarei para Chang’an. Você pode ir comigo — disse Sun Simiao, acariciando a barba. — Desta vez, ficarei lá por um período longo; quem sabe encontre as pessoas que procura.

Havia algo de enigmático nos olhos de Sun Simiao ao dizer isso, o que deixou Chen Yi um tanto tenso. Mas tais palavras iam ao encontro de seus desejos, então concordou imediatamente:

— Ficarei inteiramente às ordens do mestre!

— Ótimo. Prepare-se; avisarei quando partirmos.

— Sim, mestre!

***

Após conversar um pouco com Sun Simiao, Chen Yi deixou a sala. Assim que saiu do prédio, Ning Qing se aproximou.

— Ziying, o que o mestre lhe disse?

Chen Yi sorriu para a curiosa Ning Qing e respondeu em voz baixa:

— Seu mestre disse que irá para Chang’an daqui a alguns dias e vai me levar junto.

— Sério?! Ele vai mesmo? — Ning Qing, surpresa, corou sob o olhar de Chen Yi e, mexendo no canto da túnica, disse baixinho: — Vou pedir ao mestre para me levar também! Da última vez, insisti várias vezes até ele aceitar...

— E o que o mestre Sun vai fazer em Chang’an? Vai assumir algum cargo? — Chen Yi estranhou; Sun Simiao dissera que ficaria em Chang’an por muito tempo. Será que atendera ao chamado do governo?

— Ele não gosta de ser oficial, já recusou cargos oferecidos pelo governo várias vezes, nem cuida dos assuntos internos do Palácio Sagrado... — explicou Ning Qing, baixando a voz. — Ele deve ir a Chang’an para atender doentes... Vamos conversar no seu quarto.

Ning Qing estava animada, e enquanto caminhavam, foi contando mais sobre seu mestre.

Após ouvir tudo, Chen Yi compreendeu: embora fosse chamado de sacerdote, Sun Simiao era diferente dos demais taoístas do Palácio Sagrado. Não se envolvia na administração, nem realizava ritos com frequência; ele e seus discípulos ocupavam um prédio próprio, dedicando-se à medicina, à preparação de remédios e elixires. Os demais assuntos eram administrados por outros.

Chen Yi também se deu conta de que, em todos aqueles dias, pouco contato tivera com os outros taoístas do templo.

Pelas palavras de Ning Qing, soube que a família imperial Tang venerava Laozi como seu ancestral, razão pela qual o taoismo era amplamente promovido e os templos restaurados. O Palácio Sagrado, em particular, fora favorecido por causa do apoio de Qi Hui ao imperador fundador, Li Yuan, que após subir ao trono ampliou o templo e aumentou o número de monges, somando centenas.

Sun Simiao já estava ali havia muito tempo. Sua fama era tamanha que vários imperadores, inclusive Li Yuan e Li Shimin, convidaram-no para assumir cargos oficiais, sempre recusados. Antes disso, já rejeitara convites dos imperadores da dinastia Sui e do imperador Xuan de Zhou. Mesmo quando o governo lhe ofereceu a administração do Palácio Sagrado, recusou. Desde então, dedicava-se apenas ao estudo da medicina, à preparação de remédios e elixires, quase não participando de rituais, o mesmo ocorrendo com seus discípulos.

— Então é assim... — murmurou Chen Yi, um pouco desapontado. Se Sun Simiao não gostava de política nem de cargos, sua esperança de conhecer figuras famosas daquela época por meio do mestre estava fadada ao fracasso.

— Ziying, agora que está curado, vai embora? — perguntou Ning Qing, preocupada, ao entrarem no quarto de Chen Yi. — Se for com o mestre para Chang’an, não voltará mais? Não voltará ao Monte Zhongnan?

— Não sei. O mestre disse que talvez encontre em Chang’an quem procuro — respondeu Chen Yi, sentindo certa nostalgia.

Ning Qing também parecia triste, permanecendo em silêncio por um tempo.

— Ziying, o mestre disse que sua origem não é comum; só de ver o jade que carrega já se percebe isso! Aquilo é um símbolo impe... — ela parou de repente, percebendo ter dito demais, desviou o olhar e murmurou: — Preciso ir, o mestre pode me chamar a qualquer momento. Depois voltamos a conversar...

— Certo — Chen Yi assentiu, mas lembrou-se de algo e perguntou, ao vê-la se afastar: — Como você soube que eu portava um pingente de jade? Ah, senhorita Qing, quem trocou minhas roupas rasgadas naquele dia? Quem limpou meu corpo?

— Não vou lhe contar... — Chen Yi só queria provocá-la, mas Ning Qing reagiu como se tivesse sido picada por algo, estremecendo e fugindo apressada.

Chen Yi pôde ver claramente que, ao sair, o rosto de Ning Qing estava inteiramente ruborizado...