Capítulo Treze: Colheita
Ao retornar ao seu pequeno pátio, Cormo não voltou para a cama. Apesar de o vinho da noite anterior ainda lhe dar uma leve dor de cabeça, sendo um feiticeiro e até mesmo um boticário versado em diversas artes, ele tinha muitos métodos para se recuperar. Uma dose de elixir refrescante foi rapidamente preparada e, ao ingeri-la, Cormo imediatamente sentiu seu corpo muito mais confortável.
Essa receita ele havia obtido trocando um pergaminho de magia ilusória intermediária da série da Luz com um herbalista itinerante. Naturalmente, a troca não lhe rendeu apenas a fórmula do elixir refrescante, mas também a de um antídoto específico contra venenos neurológicos, que era seu principal interesse na negociação. O pergaminho continha um feitiço de ilusão do tipo luz, usado para enganar e confundir adversários em combate, e era bastante eficaz por consumir pouca energia mágica. O herbalista, por sua vez, era um orc acostumado a vagar por florestas e montanhas infestadas de bestas mágicas, onde o perigo era constante. Um feitiço ilusório serviria como um substituto perfeito para si mesmo, reduzindo enormemente os riscos de ferimento ou morte. Como orcs são normalmente desprezados pelos mortais, era praticamente impossível para ele aprender magia com os orgulhosos magos humanos. Felizmente, Cormo era um homem pouco apegado a convenções, e o antídoto do orc era de fato uma atração irresistível. Assim, negociaram em segredo até chegarem a um acordo, com Cormo oferecendo três pedras de mana especiais, cada uma capaz de ativar o pergaminho uma vez. Como presente, o herbalista orc ainda lhe deu a receita do elixir refrescante.
Sentindo-se melhor, Cormo examinou cuidadosamente os arredores, certificando-se de que não havia ninguém por perto antes de arrastar para fora debaixo da cama seu baú secreto. Um pequeno e delicado cadeado de jade adornava o baú; apesar de sua aparência, não era um objeto trivial. O material era feito de jade puro, reforçado com magia de fogo e encantado com feitiços de ataque da série das Trevas. Qualquer um que ousasse forçar o cadeado seria atacado por chamas sombrias, silenciosas, invisíveis e indetectáveis. Só perceberia o dano quando os sintomas surgissem, e nesse momento a recuperação não seria fácil nem barata.
Ao abrir o cadeado, Cormo retirou com cuidado um pequeno saco que nunca deixava de carregar consigo. Após murmurar um encantamento, o saco lentamente se abriu e flutuou, inflado como se estivesse cheio de vento. Seus padrões estranhos tornavam-se ainda mais misteriosos nesse ambiente peculiar. De dentro escorregou silenciosamente um cadáver: era o corpo sem nome que ele havia obtido das mãos da Ordem dos Cavaleiros de Reima.
Desde que voltara para casa, Cormo mal tinha pensado nesse assunto. Especialmente em sua própria residência, não poderia permitir que outros soubessem que dominava magia, e menos ainda que se aventurava pela necromancia. Num momento tão delicado, ele não queria arriscar-se a problemas.
O corpo rapidamente voltou ao tamanho original. O veneno da madeira de samambaia já havia impregnado completamente, tornando a pele do cadáver dourada, com rosto e mãos reluzindo como bronze. O anel negro no dedo anular da mão esquerda chamava ainda mais atenção. Cormo observou atentamente o corpo diante de si: aquele homem tinha feições furtivas, não inspirava confiança. Se o encontrasse na rua, talvez o considerasse um ladrão comum. Mas as aparências raramente representam a realidade. Afinal, esse sujeito conseguira escapar repetidas vezes das mãos da Ordem dos Cavaleiros de Reima, e até o próprio comandante da ordem mobilizou-se para capturá-lo. Se não tivesse habilidades excepcionais, a Ordem seria feita de papel.
Cormo não podia avaliar o verdadeiro nível da Ordem, mas baseado em sua própria sobrevivência e nos acontecimentos da noite anterior, só podia descrevê-los como profundos e imprevisíveis, definitivamente não eram adversários comuns. Por isso, aquele homem morto despertava ainda mais sua curiosidade.
Vestia um traje justo de cor cinza-escura, com apenas uma discreta bolsa na cintura, típico de um agente noturno. Havia um aroma peculiar em sua roupa, talvez imperceptível para a maioria, mas Cormo, com seus anos de experiência, reconheceu: era um produto usado por ladrões para confundir o olfato de cães de caça e outros animais treinados, contendo especiarias estimulantes que distraíam e anulavam a capacidade olfativa das feras. Um item indispensável para qualquer ladrão.
Além dos objetos que encontrou no corpo, Cormo não percebeu nada extraordinário. Não entendia porque a Ordem dos Cavaleiros de Reima valorizava tanto aquele homem. Se ele tivesse roubado algo importante da ordem ou da Igreja da Luz, por que, ao eliminá-lo, não revistaram seu corpo antes de partir apressadamente? Evidentemente, só queriam livrar-se dele. Mas por que depois vieram até Sepulus, seguindo o rio Moray? Quando Cormo desembarcou, viu claramente o navio dos cavaleiros chegando ao porto. Embora não tivessem cruzado olhares, Cormo, sempre atento, deixou imediatamente aquele lugar perigoso.
Apesar de os acontecimentos da noite anterior não terem levantado suspeitas externas, Cormo, guiado pela intuição e crescente sensibilidade, estava certo de que estavam à sua procura. Embora não soubessem que ele era o fugitivo do bosque de carvalhos, o olhar desconfiado do homem robusto ainda lhe causava calafrios. Estavam procurando por ele, ou mais precisamente, pelo portador do cadáver.
Retirou do bolso uma pequena marreta e começou a examinar o corpo já impregnado pelo veneno da madeira de samambaia, do crânio aos ombros, braços, cintura, pernas, músculos, articulações e ossos, tudo com extrema atenção. Aquele cadáver lhe trazia muitas dúvidas, mas ninguém podia respondê-las. O homem parecia ter praticado artes marciais por um bom tempo, embora Cormo não soubesse o nível que alcançara. Corpo equilibrado, pernas longas e firmes, músculos elásticos na cintura e quadris, tudo indicava anos de treinamento em técnicas superiores. Ao examinar os olhos, percebeu as pupilas dilatadas de cor castanho-acinzentada, sem vestígios de sangue, sinal de que treinara visão noturna. Tudo isso tornava sua identidade ainda mais misteriosa. Por que um homem assim se tornaria ladrão? Os objetos que portava eram todos de alta qualidade, alguns impossíveis de comprar. Isso intrigava Cormo, pois, embora valiosos, não justificavam a perseguição implacável da Ordem dos Cavaleiros de Reima. Ele também reconhecia que a Igreja da Luz prezava muito sua reputação, raramente exterminando alguém a menos que fosse um criminoso imperdoável.
Além disso, pelo que presenciou, os cavaleiros pareciam estar agindo sob ordens do tal arcebispo, sem mencionar o motivo da execução. Os próprios cavaleiros pareciam alheios às razões, e ao concluir a missão, enterraram o corpo e partiram sem sequer revistá-lo. Talvez vasculhar um cadáver não combinasse com o orgulho da ordem, mas por que vieram a Sepulus em busca de Cormo? Ele suspeitava de um erro em seu julgamento, mas sua intuição era certeira, e preferia ser cauteloso a arriscar expor sua identidade.
Pegou um par de luvas de seda branca e, cuidadosamente, vestiu-as. Com o polegar e o indicador, ergueu a roupa preta do cadáver. O tecido era macio e sedoso, claramente caro, e impregnado de energia mágica. Evidentemente, fora encantado com magia avançada de vento, reduzindo a resistência ao movimento e eliminando o ruído de fricção, algo sem valor para a maioria, mas indispensável para um ladrão de elite ao infiltrar-se em áreas protegidas, enfrentando guardas de sentidos aguçados.
Cormo respirou fundo e assentiu: era um ladrão extremamente profissional. O traje de seda ocultava uma armadura leve, mas muito resistente. Após examinar com atenção, não conseguiu identificar o material, mas supôs que fosse couro de algum animal especial ou besta mágica, dotado de resistência extraordinária, talvez até de propriedades especiais. Testou com uma agulha dourada de seu kit, mas, apesar de toda sua força, encontrou grande resistência. A armadura era imune a metais, mas a madeira de samambaia a perfurara facilmente, confirmando que aquele homem teve o azar de cruzar o caminho de um inimigo armado com flechas desse material.
Já cansado, tirou as luvas e sentou-se em sua cadeira circular que o acompanhava há mais de dez anos, olhando fixamente para o corpo à sua frente. Era de fato um material raríssimo; se investisse tempo e esforço, talvez conseguisse criar um cadáver dourado, ou até divino. Contudo, a elaboração de tais artefatos exigia recursos preciosos, para os quais não tinha meios. Mas desperdiçar tal oportunidade seria lamentável. Cormo suspirou, murmurou um comando, e o cadáver encolheu obediente, retornando ao saco flutuante.
Melhor esperar mais um pouco, pensou Cormo. Talvez só depois de seu rito de passagem pensaria em outras coisas. Por ora, tudo era incerto; quem sabe ao completar a maioridade teria de arrumar suas coisas e partir, mas talvez ainda houvesse espaço para algum tipo de acordo. Um sorriso sombrio apareceu em seu rosto.