Capítulo Três: Retaliação
Os guerreiros escravos, espantados a ponto de ficarem boquiabertos, chegaram a esquecer que a batalha ainda não havia terminado; estavam paralisados, de olhos arregalados, fitando incrédulos tudo aquilo que se desenrolava diante deles. Deixaram que os bandidos sobreviventes, ensandecidos após escaparem da morte, corressem e uivassem em desespero. O choque avassalador daquele evento repentino, como se o próprio céu tivesse mudado, quase levou suas mentes à beira do colapso. Os orcs, que jamais testemunharam tamanho poder mágico, sentiam o corpo inteiro enfraquecer, sem a menor força para perseguir os inimigos fugitivos. Mesmo Franc e Paulin, que já haviam visto Comer demonstrar sua força, ficaram completamente petrificados diante da última variação do “Dança da Serpente Dourada” de Comer. Em menos de dez dias, a mesma magia revelava agora um poder muito mais formidável; até mesmo Ilot e Pubber olhavam Comer com espanto, parado ali, pálido como a morte.
Comer não fazia ideia do quão perigoso fora aquele último feitiço, controlado por sua força mental. O enorme contragolpe mágico irrompia como uma maré furiosa, ameaçando romper a frágil barreira de sua mente. Só então ele compreendeu por que seu mestre sempre o advertira contra o uso imprudente de magias avançadas, sobretudo quando sua força espiritual era insuficiente para controlar encantamentos de tal magnitude.
No rosto de Comer alternavam-se expressões de dor, desespero e alegria. Ele percebeu que não conseguiria mais resistir àquela onda crescente de retaliação mágica, mas não podia se render; se o fizesse, sabia que acabaria reduzido a um idiota ou enlouqueceria, pois a força do contragolpe dilaceraria sua mente em pedaços. Em meio ao desespero, um frio sombrio e úmido emanou da pedra misteriosa que carregava junto ao corpo, espalhando-se do peito ao topo da cabeça. Um vapor azul, subindo do pescoço até o rosto inteiro, tornou sua expressão assustadora; o suor grosso escorria pela testa, peito e costas. Contudo, Comer sentiu a fortaleza de sua mente se consolidar pouco a pouco, resistindo às investidas do contragolpe mágico. Ele concentrou-se em fundir aquela energia sombria com sua própria força espiritual.
A tormenta do contragolpe finalmente acalmou-se. Exausto, Comer não saberia dizer quanto tempo passou antes que tombasse, mergulhando num sono profundo.
Apenas quando o vapor azulado se dissipou de seu rosto, os que o rodeavam puderam respirar aliviados. Com a experiência anterior, Ilot e os outros sabiam que esse era o momento mais perigoso para um mago: ao lançar magias além de suas capacidades, era inevitável enfrentar o contragolpe mágico, que podia transformar o feiticeiro em um louco ou em um cadáver.
Enquanto Comer lutava para conter o contragolpe, Pubber, incapaz de ajudar, já comandava os poucos guerreiros orcs sobreviventes a limpar o campo de batalha. Dos mais de trinta bandidos queimados vivos, outros vinte foram mortos em combate; apenas uma dezena, mais ágeis e espertos, conseguiu escapar.
Resmungando sobre a falta de habilidade mágica de Comer, que destruíra junto com os bandidos toda a riqueza que carregavam — uma verdadeira heresia para um intendente —, Pubber não deixou de vasculhar os cadáveres em busca de algo de valor. No entanto, percebeu logo que eram, em sua maioria, miseráveis; salvo alguns escudos de ouro em alguns bolsos, a maior parte não portava nada. Pelo menos, havia ainda armaduras e armas em bom estado. Criterioso, o futuro intendente do feudo já começava a economizar desde cedo, ordenando que os soldados orcs retirassem todas as armaduras aproveitáveis dos mortos, empacotassem as armas e flechas, carregando tudo nas carroças. Munido de seu pequeno ábaco, Pubber já calculava quanto poderiam recuperar com aquele saque.
O que mais o alegrava, porém, eram alguns cavalos de guerra abandonados durante a fuga, um tesouro raro. Só as selas já valiam trinta escudos de ouro cada, e cada cavalo, pelo menos duzentos. Como nenhum dos guerreiros restantes sabia cavalgar, esse excedente poderia ser convertido facilmente em dinheiro. Satisfeito, Pubber fez questão de registrar aquele ganho em sua contabilidade.
Quando Comer despertou do desmaio, o grupo já havia ultrapassado o desfiladeiro de Darman, entrando oficialmente em território do Cáucaso. Para conter o contragolpe mágico, Comer esgotara toda a sua energia mental, sendo salvo apenas pelo poder da misteriosa pedra que carregava; mas o esforço o deixara tão exaurido que mal conseguia mover um dedo.
Percorreram mais de trinta quilômetros em apenas três horas, impelidos pela pressa de Franc e Paulin. Embora soubessem que era pouco provável uma reorganização rápida dos inimigos, por precaução, todos desejavam cruzar logo para o próprio território. Apesar de o feudo ser ainda mais árido e remoto que a região de Lyon, ao menos já estavam em solo caucasiano — e para os bandidos de Lyon, esta era uma terra estranha.
Deitado entre as mercadorias na carroça, Comer sentia o estômago revirar: o excesso de esforço mental lhe causava náuseas, uma sensação já familiar dos dias anteriores, mas agora muito mais intensa.
O entardecer escurecia aos poucos, e a carroça balançava cada vez mais. No Cáucaso, as estradas eram péssimas, sem valor comercial e há muito esquecidas pelos senhores locais. Transformavam-se, assim, em típicas regiões semisselvagens, entregues ao abandono. Continuando nesse ritmo, talvez em dez anos tudo aquilo se tornasse refúgio de bárbaros, orcs ou mesmo bestas mágicas.
Montado num dos cavalos capturados, Pubber observava o terreno em volta, suspirando. Em lugar tão ermo, não era de se admirar que ninguém quisesse viver ali. Ser senhor dessas terras perdidas era pior do que ser um pobretão na cidade de Ceprús, onde ao menos havia sinais de vida. Aqui, além de matagais e gramíneas, só se viam alguns bosques dispersos, ora de folhas perenes, ora caducifólias. De vez em quando, Pubber examinava com interesse as rochas vermelhas expostas, na esperança de descobrir algum grande veio mineral, mas suas expectativas eram sempre frustradas. Além de pedras verdes, úteis para construção, só encontrava vulcânicas, sem valor comercial; e o custo do transporte superaria de longe o dos próprios materiais, especialmente naquelas terras inóspitas.
Dos doze soldados escravos, quatro morreram em combate. Felizmente, os outros oito não sofreram ferimentos graves. Dois lanceiros e um espadachim tombaram, comprovando que, em confrontos diretos de pequena escala, a sobrevivência dos espadachins era muito superior à dos lanceiros. O último a cair foi um arqueiro humano, atingido na cabeça por um machado arremessado por um bandido a cavalo logo no início da luta. Franc lamentou a perda, pois, ainda que aquele arqueiro não fosse exímio, formar um era tarefa difícil, a menos que se tratasse de alguém talentoso como o arqueiro meio-elfo do grupo.
Seguindo sugestão de Franc, Pubber, a contragosto, concedeu dois escudos de ouro a cada um dos oito soldados sobreviventes. Aqueles homens e orcs jamais haviam recebido tal recompensa e ficaram eufóricos. Só o arqueiro meio-elfo, contido, agradeceu com uma reverência; os demais ajoelharam-se diante de Pubber, jurando-lhe lealdade, deixando-o tão satisfeito que sentiu as pernas mais leves. Comer, claro, já figurava na mente de todos como uma espécie de divindade. Ao olharem para a carroça que o transportava, seus olhos brilhavam de admiração e reverência, incapazes de compreender como alguém poderia causar tamanha destruição. Para eles, só o deus da guerra Ares ou seu arauto seriam capazes de tais prodígios.
O despertar de Comer trouxe alívio ao grupo. Embora confiassem que ele não era tão frágil, lançar magia de tal magnitude era algo raramente visto, mesmo pelos veteranos Franc e Ilot, acostumados a enfrentamentos com povos estrangeiros e a presenciar magos em ação. E tudo aquilo fora feito por um jovem recém-saído da cerimônia de maioridade, o que tornava a façanha ainda mais extraordinária.