Capítulo Oito: Salão de Rosas (1)
Desde que passou três anos vagando pelo mundo, tudo o que viu e ouviu provocou uma grande transformação em sua mente. O que antes fazia em Citade de Sápulo parecia-lhe agora infantil e absurdo, especialmente nos últimos tempos, quando Kormo percebeu que sua cabeça era invadida por inúmeras fantasias estranhas e incompreensíveis. Muitas coisas que jamais imaginara surgiam sem razão em sua consciência, como se memórias e pensamentos de outro alguém se misturassem aos seus, formando uma nova pessoa. Mas Kormo sentia que não era bem assim; ao menos, sua mente seguia seu próprio curso habitual.
Talvez tudo esteja em constante mudança, inclusive seus pensamentos. Assim é a vida: nas pequenas transformações, formam-se as grandes; da quantidade à qualidade, assim se desenvolve a sociedade. De repente, essa máxima filosófica brotou na mente de Kormo.
Quando Kormo, acompanhado de seus dois amigos decadentes, entrou no famoso Salão da Floresta das Rosas em Citade de Sápulo para se embriagar sem limites, logo se espalhou pela cidade a notícia do retorno do trio de lobos de Sápulo. A mensagem correu de boca em boca e, em pouco tempo, toda a cidade sabia.
Enquanto isso, alguns cavaleiros robustos passavam lentamente a cavalo diante do luxuoso Salão da Floresta das Rosas. O cavaleiro de meia-idade, com o rosto exausto, parecia completamente fatigado. Dias de busca haviam exaurido seus companheiros, mas o maldito sujeito desaparecera da cidade como se tivesse ganhado asas. Segundo o dono do barco, ele deveria ter desembarcado em Sápulo, mas a cidade era imensa e eles haviam chegado dois dias atrasados. Como encontrar um desconhecido? O sujeito carregava a energia dos mortos, mas era preciso estar muito próximo para senti-la; além disso, não se sabia se ele mantinha consigo esse objeto amaldiçoado o tempo todo. Procurar assim era como buscar uma agulha no palheiro. Mas o Arcebispo insistira repetidas vezes na necessidade de recuperar o item daquele homem. O que seria esse objeto? O Arcebispo era vago em suas explicações. Pensando nisso, o cavaleiro de meia-idade sentiu-se tomado pelo desânimo.
— Senhor, que tal descansarmos um pouco lá dentro? — sugeriu o cavaleiro robusto, que seguia atrás, com o rosto marcado pela poeira das estradas. Seus olhos percorreram o grande portal do bar e ele não pôde conter a sugestão: — Os irmãos estão exaustos; deixem-nos relaxar um pouco. Não é algo que se resolva em apenas um ou dois dias.
O cavaleiro de meia-idade hesitou, mas ao ver a expressão esperançosas dos companheiros, assentiu tristemente: — Está bem, vamos entrar e tomar uma bebida, mas não podemos perder muito tempo.
Ao passar pela porta, Kormo, divertido, levantou a pesada saia da garçonete e apertou-lhe as nádegas, arrancando dela um olhar de irritação sedutora. Ele ergueu a cabeça e despejou uma taça de martini gelado. O sabor encorpado e aromático girou em sua garganta antes de deslizar para o estômago, espalhando uma onda de calor do interior para o exterior de seu corpo. Kormo sentia-se extremamente confortável e relaxado; fazia tempo que não se entregava tão livremente. A sensação de libertinagem era deliciosa, especialmente nesse estado de embriaguez, onde tudo parecia distante e ao mesmo tempo próximo, ao alcance das mãos, mas, ao tocá-lo, revelava-se apenas uma ilusão. Era algo digno de ser profundamente apreciado.
Pupér, que tinha o rosto pálido, agora estava ruborizado, já que as poucas cervejas o haviam tornado completamente bêbado, um caso perdido. Maldito Ilot ainda escolhia o whisky Royal Salute mais caro para beber sem parar; queria esvaziar o bar? Olhando casualmente para os clientes que entravam, sob a luz tênue das pérolas noturnas do bar, Kormo pareceu sentir um cheiro familiar. Franziu o nariz, intrigado — aqueles homens pareciam vindos de fora, robustos, mas ele não se recordava de tê-los visto antes. No entanto, havia uma estranha sensação de familiaridade.
— Senhor, vamos para aquele lado, é mais tranquilo.
— Hum.
Apesar de ser apenas um murmúrio, Kormo sentiu sua onda de calor se transformar em suor frio. Pupér, surpreso, acompanhou o olhar do chefe para trás; não entendia como o sempre audacioso Kormo podia mudar tão abruptamente, como se tivesse sofrido um choque tão grande que seu corpo quase encolheu, escondendo-se nas sombras do balcão, com os olhos fixos num canto distante, onde alguns recém-chegados se sentaram. Não se via o rosto deles, mas pareciam forasteiros, certamente não da elite de Sápulo. O que teria provocado reação tão intensa em Kormo?
Ilot, de temperamento rude, não percebeu nada estranho. Continuava a beber copos atrás de copos e a fazer piadas vulgares com as garçonetes. Não se via nele o menor traço de nobreza.
— Chefe, o que houve? — Pupér ergueu o copo e, escondendo a boca, perguntou em voz baixa.
Kormo inalou fundo, esforçando-se para manter o controle. Não esperava que aqueles homens estivessem em Sápulo; seria apenas uma passagem ou viriam intencionalmente? Teria algo a ver com o que fizera dias atrás? Seu coração, depois de estabilizar, voltou a bater acelerado. Era crucial não perder a compostura; se percebesse sua ansiedade, talvez não escapassem dali. Felizmente, os adversários não conheciam seu rosto nem sua voz. Se mantivesse a calma, talvez conseguisse livrar-se deles. Mas o instinto dos inimigos era aguçado demais, e Kormo não ousava ficar mais tempo, era arriscado. Contudo, sair abruptamente poderia levantar suspeitas. Sem tempo para pensar, bebeu o resto do álcool, inclinou a garrafa sobre si mesmo, tombou a cabeça e fez um sinal para Pupér, levantando-se cambaleante.
Embora Pupér não soubesse o que estava acontecendo, conhecia bem a astúcia do chefe e sabia que seus gestos tinham propósito. Então, bateu no ombro de Ilot, ainda embriagado: — Vamos, o chefe está bêbado. — E piscou para ele. Ilot hesitou, querendo falar, mas ao ver o olhar de Pupér, engoliu as palavras, jogou um punhado de moedas no balcão, fez um grande arrotou e fingiu estar bêbado, apoiando Kormo, que mantinha a cabeça caída, enquanto caminhavam cambaleantes em direção à porta.
Os olhos do cavaleiro de meia-idade pousaram sobre o trio, e sua sensibilidade extraordinária captou algo. Embora não houvesse vestígio de energia dos mortos, seus sentidos indicavam que algo estava errado. Levantou-se lentamente, pronto para caminhar até a porta.
— Senhor, o que foi? — ao vê-lo levantar-se, os demais ficaram intrigados.
— Nada, talvez seja impressão minha. Só acho que aqueles três têm algum problema, como se tivessem ligação com nosso alvo. — O cavaleiro também achou sua percepção estranha; aqueles eram claramente jovens nobres decadentes de Sápulo, como poderiam estar ligados à missão? Mas não descartava investigar; nunca foi de desistir facilmente.
— Senhor, deixe-me ir verificar. — O cavaleiro robusto pulou à frente, caminhando com passos firmes em direção à saída.
No instante em que o cavaleiro se levantou, Kormo soube que aquela noite não terminaria bem. O instinto do adversário era aguçado demais e, mesmo escondendo-se, não conseguiu escapar completamente da percepção deles. Ao ver o cavaleiro robusto se aproximar, relaxou um pouco: aparentemente, ainda não haviam notado seu verdadeiro problema; caso contrário, teriam avançado todos de uma vez. Era sua única chance.
Inspirando fundo, Kormo manteve a expressão de bêbado, apoiado no corpo frágil de Pupér, pressionando-o a cambalear também. Não ousava revelar sua força, mas temia que o adversário já suspeitasse. Se não tomasse precauções, talvez nem tivesse chance de revidar caso fossem atacados. Era uma escolha difícil, mas Kormo logo abandonou a ideia de se preparar: diante da força dos inimigos, mesmo tentando lutar, provavelmente acabaria morto na rua. Melhor relaxar e arriscar tudo. Com um gesto discreto da mão esquerda, sinalizou ao jovem de cara comprida, que ainda estava atordoado. Ao ver o gesto secreto do chefe, o jovem ficou alerta — era um sinal usado entre os três em situações de perigo. Seus olhos atentos logo se voltaram para uma figura que se aproximava por trás.