Capítulo Sete: Interlúdio
Um homem de estatura imponente tropeçava enquanto corria em direção à porta, seguido de perto por alguns outros homens ágeis, vestidos como guerreiros. Cormor e Ilhot trocaram um olhar, interrompendo o passo de subir na carruagem, observando em silêncio o que acontecia diante deles.
O homem corpulento que tropeçava claramente estava ferido; do percurso que fazia, era possível ver marcas de sangue se estendendo pelo chão de pedra, e seus movimentos demonstravam que estava bastante limitado. Contudo, ao ver Cormor e os demais à frente da carruagem, o homem pareceu recobrar o ânimo e correu rapidamente naquela direção. Os guerreiros atrás dele perceberam suas intenções e avançaram com vigor, tentando detê-lo. Porém, o fugitivo não era fraco: sua espada longa executava golpes brutais e astutos, bloqueando o avanço dos perseguidores. Em seguida, com um movimento ágil, rolou pelo chão e chegou à frente de Pilo, que parecia ainda não ter reagido, pressionando a lâmina ensanguentada contra seu pescoço.
“Impertinente!” “Desrespeitoso!” gritaram os guerreiros, mas hesitavam em agir, temendo ferir seu senhor. Com a lâmina reluzente encostada ao colar impecável de Pilo, nada podiam fazer além de repreender.
“Retire sua espada.” Apesar de ser a primeira vez que enfrentava uma situação dessas, a longa experiência e o senso de dignidade impediram Pilo de demonstrar qualquer descontrole diante de estranhos e subordinados. Com a testa levemente franzida, ponderava sobre como resolver aquele dilema, enquanto sugeria com calma: “Se você é um escravo, seu objetivo foi alcançado. Posso libertá-lo de sua condição, mas manter-me como refém não lhe trará vantagem alguma. Fugir de Homero será quase impossível.”
Cormor e Ilhot assistiam com interesse à cena. O homem que mantinha Pilo sob ameaça era, por certo, um escravo: sua camisa, ainda relativamente limpa, tinha um rasgo enorme, de onde saía uma corrente de ferro atravessando a clavícula, revelando uma ferida já purulenta, com crostas de sangue e pus formando uma imagem grotesca, semelhante a uma boca monstruosa. Seu rosto pálido, de olhos fundos e cinzentos, era moldado por cabelos grisalhos e amarelados grudados pela transpiração às faces e à testa. O peito arfava como um fole, emitindo ruídos incessantes de exaustão — era evidente que aquela fuga lhe consumira muita energia.
Seus olhos afiados percorriam Cormor e Ilhot, mas a espada permanecia firme contra o pescoço de Pilo, controlando com precisão a artéria vital, demonstrando ser alguém habituado à morte.
Ilhot mostrava-se excitado, ansioso para agir, a mão já firmemente cerrada no punho da espada à cintura, apenas aguardando um sinal de Cormor para atacar. Era uma oportunidade rara; embora o adversário controlasse Pilo, Ilhot confiava em sua habilidade para resolver a situação antes que a lâmina ferisse o refém.
Cormor, porém, conteve Ilhot com um olhar. O homem robusto já mal conseguia manter o controle sobre o próprio corpo; o esforço físico o levara ao limite. Era um militar típico, e Cormor percebia que sua única esperança era o refém, cuja postura calma e resoluta o irritava profundamente. Bastaria um pouco mais de provocação para que ele explodisse ou arriscasse tudo.
O fugitivo sentiu claramente a hostilidade dos dois homens à sua frente. Apesar de Cormor não demonstrar nada, sua expressão até parecia amistosa, a experiência em batalhas e combates permitiu ao escravo perceber que aquele homem aparentemente gentil era o mais perigoso. O melhor exemplo disso era o fato de que Ilhot, tão impetuoso, interrompera seu ataque apenas por um olhar do outro.
Discretamente, concentrou sua atenção no jovem, mas não conseguia distinguir nada de especial em seu rosto. Ainda assim, a intuição adquirida no campo de batalha lhe dizia que havia algo estranho ali. Antes que pudesse pensar mais, o outro sorriu e lançou um desafio: “Solte o senhor Pilo. Ele é um homem de palavra. Já prometeu libertá-lo e conceder-lhe liberdade; você deveria estar satisfeito. Não peça mais do que isso.”
O escravo, de feições marcadas pela bravura, demonstrou cautela. Não sabia explicar o motivo da sensação de perigo, como um sapo diante de uma serpente, sentindo um frio na espinha. “Tenho um companheiro. Quero ir embora com ele. Esse é meu único pedido.”
“Pedido? Você realmente acha que está em posição de exigir algo?” Cormor sorriu, balançando a cabeça — parecia que o homem se iludia, acreditando controlar a situação. “Aqui é Homero, em Saiplus. Você acha que pode escapar?”
“Se não tentar, como vou saber?” O escravo já sentia o perigo se aproximando, e a lâmina quase penetrava na carne inclinada do pescoço de Pilo. Cormor sabia que não podia esperar mais. Murmurou baixinho, estalou os dedos, e o espaço entre eles ondulou de forma estranha: um feitiço de paralisia elétrica foi lançado silenciosamente.
O homem robusto estremeceu por inteiro, tentando com todas as forças controlar o pulso, mas seu corpo já estava completamente dominado pela magia. Nem os dedos dos pés obedeciam. Cambaleou e caiu mole ao chão, incapaz de pronunciar sequer um grito final, tombando com uma sensação de profunda frustração e arrependimento.
Pilo e Ilhot olharam surpresos para Cormor, cuja postura permanecia inalterada. Embora não tivessem visto o gesto, ambos suspeitavam que ele resolvera a crise utilizando algum tipo de magia. Pilo já sabia que o recém-nomeado senhor da Cália não era alguém comum — seu pai, de olhar exigente, não o teria considerado tão importante à toa. Porém, jamais imaginara que Cormor fosse um mago, talvez até um feiticeiro. Não sabia em que nível estavam suas habilidades, mas vê-lo neutralizar um homem forte e habilidoso, um militar, com apenas um gesto, despertava ainda mais curiosidade a seu respeito.
“Bem, senhor Pilo, quem é esse homem? Parece bem habilidoso, conseguiu escapar de seus guardas.” Cormor sorriu, recusando com um aceno a gratidão de Pilo, e perguntou com interesse.
“Ah, esse sujeito deve ser do Ducado de Malen. Pelo aspecto, ele lembra os guerreiros de lá. Mas, infelizmente, a capital do Ducado, Miceno, foi tomada pelos orcs. A cidade virou ruínas e o castelo foi saqueado e demolido. Uma joia perdida à beira do lago Anlon. O Ducado de Malen não existe mais, esses homens devem ser soldados derrotados ou prisioneiros vendidos como escravos.” Pilo indicou aos guardas que amarrassem firmemente o homem caído, cujo olhar transbordava ódio e frustração, e deu de ombros: “Fomos descuidados, não imaginávamos que ele conseguiria escapar mesmo com a corrente atravessando a clavícula. Os guerreiros do Ducado de Malen realmente fazem jus à fama.”
“O quê? O Ducado de Malen foi tomado pelos orcs? Quando foi isso?” Antes que Cormor pudesse responder, Ilhot exclamou, surpreso. O Ducado de Malen era um pequeno país a oeste do Reino de Nicósia, além de ser um aliado importante contra a invasão dos orcs pelo sul. Agora, caído, era uma notícia terrível — e o que dizer do norte? Ambos trocavam olhares de espanto.
“Faz mais de três meses,” respondeu Pilo, notando o choque nos rostos dos dois. “O norte do reino também está em alerta, mas as forças lá têm uma defesa robusta. Os orcs são ferozes, mas agora estão exaustos, incapazes de avançar. Ainda assim, a situação atual é inédita em décadas. Sua Majestade está furioso, ordenou a formação da Brigada da Cruz de Ferro. Imagino que os impostos de passagem e de terras vão aumentar.”
“Mas com a queda do Ducado de Malen, o noroeste do reino ficou vulnerável. Mesmo que agora não seja possível, na próxima vez os orcs invadirão por esse ponto.” Ilhot, que passara dois anos nos fortes fronteiriços do norte, compreendia bem a gravidade. Sem o Ducado de Malen como apoio, a linha de defesa do norte do império estava comprometida, colocando o reino em uma posição perigosa.
“Isso já não está ao nosso alcance. Os nobres de Jazair certamente estão mais preocupados que nós,” comentou Pilo, lançando um olhar de pena ao homem ainda lutando no chão. O efeito do feitiço logo se dissipou, indicando a força daquele sujeito. Fez sinal para que os guardas o levassem, e prosseguiu: “O exército de Malen era valente, mas pequeno demais. Sem apoio do império, sua queda era inevitável.”