Capítulo Quinze: Correntes Subterrâneas

Destino Místico dos Céus Raiz da Sorte 4257 palavras 2026-02-07 12:28:25

— Por que será que Ilote ainda não apareceu hoje? Será que aconteceu alguma coisa? — Commer, ao perceber que o outro já havia cedido, apressou-se em mudar o rumo da conversa.

— O que poderia acontecer com ele? Dorme até quase a hora do almoço, à tarde fica vagando pelas ruas arrumando encrenca ou se enfia em algum bar para se embriagar. Acho que ele realmente esqueceu que está prestes a ser posto na rua assim como nós. Ou será que está pensando seriamente em voltar para as terras altas de Mogan e servir de bode expiatório? — respondeu Pubber, irritado.

— Hmpf, não é fácil sobreviver nas terras altas de Mogan. Talvez tenha sido mais tranquilo nos últimos anos, mas acha que vai continuar assim para sempre? Os orcs não são bons anfitriões, o desejo de riqueza e uma vida melhor sempre foi o maior incentivo deles. Impulsionados por essa força, sair intacto de lá é pedir pela bênção dos deuses. Basta olhar para aquela linha de defesa, quantos castelos abandonados e ossos espalhados pelas montanhas, para perceber quantos soldados do Reino de Nicosia foram consumidos por esse abismo sem fundo ao longo dos últimos cem anos. Se os orcs tomarem um dos bastiões, o fim deles será a morte. — Três anos de exílio haviam acrescentado uma certa dureza ao rosto jovem de Commer, além de lhe dar uma visão mais realista do mundo.

— E será que só nos restam essas duas opções? — Pubber, angustiado, refletiu. Sem um corpo forte nem talento para as artes da guerra, talvez passar a vida como um burocrata medíocre fosse o melhor destino possível, mas ele continuava a alimentar a esperança de que um milagre repentino pudesse mudar seu destino aparentemente predeterminado.

— Quem sabe? Às vezes, a deusa do destino olha para nós, pobres desafortunados. Eu não quero ser alvo do desprezo em Sepulus. Se houver uma chance, prefiro arriscar-me lá fora. — Commer falou em tom ambíguo, lançando um olhar complexo para o sul. O sol se punha, iluminando o mar do porto com reflexos dourados; a luz e as sombras das nuvens coloridas mudavam de forma e tom sob os raios, compondo um espetáculo grandioso.

Mas Pubber, cheio de preocupações, não captou o significado oculto das palavras; achou que Commer ainda estava fugindo daquele lugar que tanto lhe fazia mal.

— Destino? A deusa do destino vai nos favorecer? — Pubber perguntou, confuso. — Sou um homem prático. Melhor não depositar nossas esperanças em fantasias vãs.

No portal do bar, passos pesados ressoaram. Ilote apareceu, corpulento, logo avistando os dois companheiros junto à janela. Fez sinal ao barman, apontando para a garrafa de Lanfen Wodka com tequila no balcão, e então sentou-se ao lado deles.

— Cheguei tarde, mas trouxe uma novidade: nem no jornal saiu ainda. — Recebeu o copo grande do garçom, bebeu um gole forte, estalou os lábios satisfeito e só então falou com voz rouca.

— Ora, não invente desculpas. Olha teu ombro, a correia da couraça está rompida, vai querer nos enganar? Todos sabem o teu jeito, onde foi arrumar briga dessa vez? — Pubber nem deu atenção à explicação, ergueu o copo e tomou um grande gole.

Ilote, constrangido, olhou para a correia rompida do ombro esquerdo, coçou a cabeça e respondeu irritado:

— Pubber, pelo amor de Deus, me dá um pouco de crédito! Assim que o chefe chega, você expõe meus defeitos, isso não é justo.

— E ainda se acha no direito de reclamar! Se sabe que está errado, deveria corrigir-se. Essa autoindulgência só te faz mal. Está prestes a completar a cerimônia da maioridade; pretende continuar nesse estado depois de adulto? — Pubber não cedeu em nada.

— E o que posso fazer? Pubber, não sou como você. Esses relatórios financeiros e tarefas administrativas me dão dor de cabeça. Minha única saída é a rua ou o campo de batalha: ou viro mendigo, ou acabo virando esqueleto nas fronteiras. — Ilote estava abatido, suas palavras cheias de amargura e sarcasmo.

— Ué, Ilote, o que houve? Hoje você está estranho... — Commer logo percebeu algo errado.

— Jogando cartas com o filho do mordomo do Palácio Ducal, ouvi dizer que o norte do reino está em guerra novamente. Os orcs romperam o bastião mais ao norte: três castelos tomados, mais de oitocentos soldados mortos, inclusive um visconde e dois barões. Entre eles, o castelo onde servi. Parece que todos meus antigos companheiros deram a vida pelo reino. — No rosto de Ilote apareceu uma expressão rara de sofrimento, sua voz tornou-se triste. Pensar nos amigos de outrora, agora transformados em pó em poucos meses, separando-os para sempre, doía ainda mais ao lembrar do comandante que tanto respeitava.

— O quê? — Commer e Pubber se entreolharam, surpresos. O norte estava tranquilo há anos; embora soubessem que não duraria, todo o reino desejava manter a paz com os orcs das terras altas de Mogan. Mas tudo indicava o contrário: nunca conseguiam entender por que aqueles orcs, aparentemente ingênuos, recusavam-se a manter a paz, promovendo tempestades a cada poucos anos em direção ao sul. Para manter a dignidade do reino, cada guerra custava inúmeras vidas de bravos guerreiros.

— Qual foi a causa desta vez? — Commer e Pubber perguntaram juntos.

— Não se sabe. Dizem que os orcs não deram motivo algum, nem sinal de aviso. Só depois de dois castelos caírem e todos os soldados morrerem é que chegou a notícia. Agora, em Jazael, a capital, a Ordem Real dos Cavaleiros da Sombra e o Regimento Real dos Soldados do Carvalho Dourado já estão em alerta, e o rei publicou um edital convocando um grande grupo de mercenários, além de ordenar que tropas de todas as regiões reforcem o norte, preparados para enfrentar a provocação dos orcs. — Nos olhos de Ilote brilhou entusiasmo, claramente atraído por uma guerra que envolvia o reino inteiro. A guerra era perigosa, mas também o palco ideal para que um guerreiro mostrasse seu valor. Quem aceitaria abandonar toda honra e recuar? Mesmo em desvantagem, era preciso lutar para cumprir a missão.

— Os orcs finalmente não aguentaram mais esperar. Esse é o ponto fraco do reino: só com castelos não dá para segurar a fúria dos orcs, o norte está condenado. — Commer falou friamente. Naqueles anos de exílio, já havia passado pelas terras altas de Mogan; embora não tivesse ido muito longe, conhecia os orcs, com seus corpos impressionantes e força descomunal, além da agilidade quase selvagem. Via claramente a diferença entre guerreiros orcs e humanos; não era algo que o treinamento pudesse superar. Diante do ataque dos orcs, o reino só podia defender-se de forma passiva, e tal defesa parecia cada vez mais frágil diante das investidas provocadoras dos orcs.

— Ouvi dizer que desta vez os orcs até usaram um aríete de cerco. Como será que conseguiram esse tipo de arma? Quem teria dado isso a eles? — Ilote baixou a voz, com os olhos sondando o entorno. Ao redor, só bêbados distraídos, ninguém prestava atenção aos três. Ele sabia que essa notícia seria um choque explosivo.

— O quê?! — Tanto Commer quanto Pubber ficaram boquiabertos. Orcs usando aríetes? Como poderiam ter acesso a isso? E como saberiam usar tal engenho?

— Pouca gente sabe disso ainda. Aquele sujeito, bêbado, me contou sem querer. Ele me recomendou não me alistar no exército real; parece que o Segundo Regimento de Infantaria — o Regimento da Cruz de Ferro — está sendo reestruturado e recrutando de novo. Ele achou que, prestes a alcançar a maioridade e sem perspectiva, eu iria me juntar. — Ilote falou com orgulho. — Mas não sou tão ingênuo, preciso analisar a situação. Os orcs já eram ferozes; agora têm aríetes. Ir pra lá sem preparação é ir direto para a morte.

— O reino está em apuros. Se os orcs realmente conseguirem inventar e fabricar essas coisas, que antes eram exclusivas dos humanos, o reino terá de considerar mudar a capital. Se romperem a linha de defesa e marcharem para o sul, será uma catástrofe sem precedentes. — Pubber estava apreensivo.

— Não, não é possível. Em mil anos, nunca se ouviu falar de orcs fabricando engenhos. Até as armas e ferramentas mais simples são contrabandeadas das terras dos anões. Se tivessem essa capacidade, já estariam usando há muito tempo, não teriam esperado até agora. — Commer negou categoricamente.

— Mas e se os orcs desenvolveram isso recentemente? — Pubber rebateu, discordando.

— Mesmo assim, não é provável. Se fossem capazes de fabricar aríetes, não usariam só um: poderiam produzir dezenas nos últimos anos! — Commer fez sinal ao barman para mais bebida, balançando a cabeça. — Tudo na natureza tem suas características e fraquezas, por isso o mundo é tão diverso. Isso vale tanto para a natureza quanto para a sociedade humana. Se uma raça tivesse todas as vantagens, não haveria espaço para as outras. Nós, humanos, somos equilibrados em capacidades, mas frágeis em vitalidade. Os orcs sobrevivem melhor, são mais fortes e resistentes, mas ao longo dos séculos continuam presos ao norte. Por quê? Porque lhes falta disciplina e a inteligência para desenvolver tecnologia. Essa é sua deficiência inata. Além disso, nós ainda temos a magia, que eles temem. Guerra não é um ato individual, depende de força coletiva. Não têm muita chance de vencer.

— Então o aríete foi fornecido pelos anões? — Ilote interveio. A presença de um aríete entre os orcs era algo chocante para ele: se começassem a usar tal arma em larga escala, os bastiões do reino no norte seriam destruídos e o fim estaria próximo. Ele já experimentara a brutalidade dos orcs, e só de lembrar das batalhas, por mais confiante que fosse, sentia um calafrio.

— Não parece provável. — Só depois que o barman se afastou, Commer respondeu em tom incerto, claramente perplexo. — Os anões são habilidosos, mas não têm interesse em grandes engenhos de guerra; o que buscam são armas e peças de arte. Não acredito que tenham capacidade para fabricar esse tipo de coisa. Só nós, humanos — ou melhor, os reinos e poderes humanos do continente — nos interessamos por isso. Construir um aríete exige técnicas complexas e materiais caros.

— O chefe está certo. Mesmo se os anões fossem capazes, não arriscariam a ira de todos os humanos do continente fornecendo isso aos orcs. Não ignorariam esse risco. — Pubber concordou.

— Os anões são tímidos e teimosos. Apesar de alguns serem capazes de tudo por lucro, os anões dificilmente fariam isso. São cautelosos e fiéis às suas regras. Se quebrassem esse tabu, causariam um grande tumulto no continente. Eu sinto que está tudo calmo demais; excesso de calmaria costuma preceder grandes tempestades. Talvez uma turbulência maior seja até benéfica para nós, que somos insignificantes. — Commer ergueu o copo, saboreando a cerveja amarga, cuja frescura estimulava sua mente.

Ilote e Pubber trocaram olhares, ambos surpresos. Perceberam que, após três anos de exílio, Commer parecia uma pessoa diferente. Seu antigo espírito rebelde e desinibido aparecia apenas em raros momentos; agora, transmitia mais sobriedade e estabilidade. As mudanças eram tantas que ambos já não sabiam decifrar os pensamentos do antigo líder.

Ao notar o olhar admirado dos amigos, Commer entendeu que suas palavras chamaram atenção. Talvez fossem as novidades absorvidas ao longo desses anos, transformando-o silenciosamente. Até ele sentia que já não era o mesmo jovem despreocupado, filho menor da Casa Reiser, que só pensava em prazeres. Se essas mudanças eram boas ou ruins, Commer não sabia, apenas tinha certeza de que não podia mais voltar a ser quem fora, nem ao velho modo de vida. Desde o dia em que deixou Sepulus cheio de indignação, nunca mais foi o mesmo Commer.