Capítulo Doze: Isca
— É mesmo? Se nem nisso conseguimos chegar a um acordo, creio que não há mais razão para continuarmos essa conversa, senhor Kudan. Contudo, ouvi dizer que o senhor Gott sempre se empenhou em se tornar um dos grandes dominadores do Mar Mediterrâneo. Será que seus subordinados nem sequer compreendem isso, ou têm medo até mesmo de correr tal risco? — a ironia cortante entrou como um vento gélido na boca entreaberta do homem de barba encaracolada, que, constrangido, engoliu em seco várias vezes para disfarçar seu embaraço.
— Meu senhor, não é que eu, Kudan, não confie em vós, mas qualquer pessoa ao ouvir algo assim pensaria que é pura fantasia. Afinal, esses artefatos lendários existem há séculos, e ninguém jamais os viu. Não concordais? — respondeu ele, cauteloso.
— Sim, mas vocês ignorariam a lendária trajetória do Rei dos Piratas Morgan, que dominou os mares há mais de duzentos anos? Será que ninguém reconhece as poderosas armas que o sustentaram como soberano dos oceanos? — Kormer lançou um olhar de desprezo para o interlocutor.
O Espelho Milenar e o Canhão Mágico foram as preciosidades que permitiram ao Rei dos Piratas Morgan comandar sua frota e impor sua hegemonia sobre o Mediterrâneo. Com essas armas, Morgan não apenas destruiu as frotas imperiais e as coalizões navais dos países vizinhos, mas também estabeleceu uma nova ordem marítima na região. Todos os navios mercantes se curvavam diante de seu poderio, e até mesmo os piratas locais lhe prestavam vassalagem. Ninguém sabe como Morgan obteve esses artefatos, mas o Espelho Milenar permitia antever os movimentos do inimigo, enquanto o Canhão Mágico revolucionou as táticas navais, tornando inútil o combate corpo a corpo a bordo. A distância letal de trezentos a quinhentos metros era suficiente para obliterar qualquer embarcação rival. Foi graças a essa vantagem que Morgan consolidou seu domínio absoluto sobre o Mediterrâneo.
Muitos tentaram obter o Espelho e o Canhão, bem como suas tecnologias, mas ninguém teve êxito. Esses segredos estavam guardados apenas por Morgan e seus mais leais seguidores. Para preservar o mistério, inúmeros piratas corrompidos foram executados até que, com a frota perdida em uma tempestade, nunca mais se descobriu a localização ou o funcionamento dessas armas. Desde então, tornaram-se lendas impenetráveis.
— Ah, meu senhor, sois muito generoso. Embora nunca tenhamos visto tais relíquias, não significa que não saibamos avaliar sua autenticidade. Contudo, sabemos que as três embarcações com Canhões Mágicos de Morgan há muito desapareceram nas profundezas do mar. Mesmo que fossem resgatadas, após séculos submersas, não teriam mais o poder de outrora. Quanto ao que dizeis sobre possuí-las, seria correto entender que dominastes a tecnologia para fabricá-las? Se pudésseis nos mostrar um exemplar genuíno, eu poderia, em nome do líder, aceitar todas as vossas condições — disse o homem de barba encaracolada, agora mais calmo e desconfiado, ponderando as consequências de uma possível fraude. Ninguém toleraria ser enganado, e, sentindo-se traído, o grupo certamente buscaria vingança, custasse o que custasse.
— Peço desculpas, senhor Kudan, fabricar o Espelho Milenar ou o Canhão Mágico não se faz em poucos dias. No entanto, afirmo com certeza que detenho o conhecimento para criá-los. Se me concederem de três a seis meses, e fornecerem os materiais necessários, poderei apresentar um produto adequado como prova. Contudo, o problema do abastecimento de mantimentos não pode esperar tanto tempo. Se julgarem minhas palavras como arrogância, então não há motivo para prosseguirmos. Caso achem a proposta digna, poderemos avançar nas negociações — Kormer finalmente expôs suas condições, confiante de que não seriam recusadas, embora duvidasse que o homem à sua frente pudesse decidir sozinho. Ele estava disposto a esperar.
Após um silêncio ponderado, o homem de barba encaracolada hesitou em tomar uma decisão. Era um cenário hipotético, mas seu grupo teria que cumprir os termos antecipadamente, algo contrário aos princípios da organização. Ainda assim, a proposta era tentadora demais para rejeitar. Qualquer pessoa acostumada à vida marítima dificilmente recusaria tal oportunidade, e ele acreditava que o líder pensaria o mesmo.
— Meu senhor, o assunto é sério, e vossas exigências, severas. Contudo, darei uma resposta definitiva em dez dias — anunciou finalmente, ciente dos riscos de levar a proposta ao quartel-general.
— Claro, aguardarei ansiosamente — respondeu Kormer, educado e sorridente. Para ele, aquele era o prelúdio do sucesso.
Três dias depois, na Ilha de Rodas, o homem de barba encaracolada reapareceu na sala de recepção do segundo andar de um edifício de três andares. O sol poente tingia o mar calmo com reflexos dourados. Até a bandeira no mastro parecia resignada, pendendo suavemente ao toque da brisa vespertina.
Apesar de preparado, ele ficou surpreso com a energia e a autoridade que emanavam do seu líder, algo incomum para o homem envelhecido. Como um leão enfurecido, o líder andava de um lado para outro, apoiando as mãos nas costas para controlar a emoção quase desmedida.
— Espelho Milenar? Canhão Mágico? Ha! Excelente! Achei que nunca veria essas relíquias em minha vida. Parece que os céus sorriem para nós, “Crânios Cinzentos”. Este é o nosso momento para erguer a cabeça — o velho corcunda abandonara seu habitual semblante sombrio, e um sorriso de primavera iluminava seu rosto, deixando o homem de barba encaracolada nervoso.
— Chefe, isso é só a palavra deles. Não temos como garantir nada. Só saberemos a verdade daqui a seis meses. E se esse sujeito nos enganar? — perguntou Tiichi.
— Hmph, Tiichi, foste abduzido? Se ele nos enganar agora, acredita que poderá fazer isso para sempre? Fazemos negócios arriscados todos os dias, às vezes dez vezes piores que contrabando de mantimentos. Se for uma mentira, ele vai pagar caro. Por ora, podemos suportar o custo. Mesmo se o satisfizermos primeiro, enquanto obtivermos essas armas, que mal há? Quem são Katarina, Selinguer? Todos se curvarão diante dos “Crânios Cinzentos”. Jamais imaginei que, em minha velhice, teria essa chance. É a nossa oportunidade, não podemos desperdiçá-la — o velho parecia dez anos mais jovem naquele instante. — Diga a ele que aceitamos as condições. Ajudaremos com a questão dos mantimentos. Temos um porto secreto ao sul de Odessa, para onde ele pode enviar os suprimentos discretamente. De lá, ajudaremos a transportar para Martedan. Mas, no máximo em seis meses, eu quero ver o Espelho Milenar ou o Canhão Mágico!
A resposta de Kudan permitiu que Kormer respirasse aliviado. O restante caberia a Palermo e Cafri. Colocar todos os ovos em uma só cesta nunca fora seu estilo. Embora confiasse que Palermo não teria problemas com ele, e que possuía métodos especiais para garantir o transporte até Odessa, ele precisava ficar atento a Filipe, que sempre monitorava Palermo, pois era sua área de influência. Por sua vez, Cafri era mais confiável e discreto. Comerciantes da Irmandade dos Descalços podiam organizar uma rede eficiente para transportar os mantimentos em lotes, minimizando riscos.
— Chefe, aquele sujeito maltrapilho está rondando o castelo há mais de duas horas. Se não fosse por sua informação sobre sua verdadeira identidade, eu diria que ele só pode ser um vagabundo, pois sua roupa não sugere outra coisa — comentou Pubber, olhando de longe para o homem que retornara à porta principal do castelo, suspirando. Nos últimos dois anos, os tempos haviam decaído tanto que até esses tipos suspeitos são chamados de magos misteriosos. Pubber se perguntava se a reputação dos magos estava cada vez mais banalizada, ou se eles sempre foram esses indivíduos excêntricos.
— Pubber, não julgue pela aparência. O mar não se mede com um balde. Esse sujeito pode nos surpreender. Em Gutenburg, ele me causou dores de cabeça e me ajudou muito — respondeu Kormer, sorrindo levemente, com os braços cruzados, observando o visitante que vasculhava a entrada do castelo.
— Ah, o Anel Essencial, um dos sete anéis espirituais da Deusa da Natureza. Tal relíquia, e o chefe a entregou despreocupadamente a uma mulher que acabara de conhecer. Chefe, não está sendo injusto? Eu sigo você em tempestades e batalhas, e nunca ganhei nem um escudo dourado — reclamou Pubber, como uma esposa ressentida. Mais do que uma queixa, parecia lamentar que um tesouro tão valioso tivesse passado para outras mãos. Para ele, o chefe era um verdadeiro gastador, e dar-lhe um escudo dourado já era muita generosidade.
— Hehe, Pubber, não fique preso ao passado. Muitas coisas só se compreendem depois. Além disso, enquanto o anel estivesse conosco, talvez não o tivéssemos valorizado como deveria. Sem uma ocasião para revelar seu verdadeiro poder, nunca saberíamos de sua importância — disse Kormer, que já tinha os ouvidos calejados de ouvir as queixas de Pubber. Apesar disso, sentia uma pontada de pesar por ter deixado escapar uma relíquia capaz de abalar o mundo da magia. Mas o passado não pode ser mudado.
— Bem, chefe, mas pelo menos tivemos ganhos. Primeiro, deixamos uma boa impressão na princesa Vilo, que pode ajudar em seus planos futuros. Segundo, sem aquele anel, esse sujeito jamais teria vindo até aqui. Se conseguirmos mantê-lo sob nosso controle, e ele for realmente tão capaz quanto dizes, então o anel não terá sido perdido em vão — refletiu Pubber, sempre calculando custos e benefícios, uma qualidade que Kormer admirava. Afinal, passar dois anos na Escola Elite Fênix faz de alguém um verdadeiro formador de oficiais.
Kormer deu de ombros, sem saber exatamente os motivos da visita daquele homem, mas sentia que havia algo incomum nele, um tipo de afinidade que não conseguia explicar, um sentimento de pertença.
Leebry já circulava pelo exterior do castelo há algum tempo, observando o terreno. Estava, como esperava, sobre o Olho das Trevas, uma área amaldiçoada. Ele sentia claramente os clamores insanos vindos do subterrâneo do castelo — uma turba arrogante e rebelde. Entre eles, um vulto etéreo surgia e desaparecia, desafiando-o com insolência. Como poderia essa criatura se manter livre ali? Seria o Olho das Trevas capaz de resistir à Sagrada Luz Celestial, preservando essas almas condenadas? Não por acaso, todo senhor do Cáucaso que se instalava ali terminava tragicamente. Até ele próprio duvidava de sua capacidade para subjugar os fantasmas que rondavam o castelo.
Caminhando pela desolada área ao redor do castelo, Kormer sabia que num raio de mil metros não havia moradores. Não era medo, mas sim a fama terrível do Castelo Damarensk, que ameaçava apenas senhores e aventureiros em busca de tesouros. Para os camponeses, sua reputação não os afetava, e durante todos esses anos não se ouviu falar de inocentes prejudicados por ali.
— Garoto, esse castelo é realmente um lugar curioso. O lendário Olho das Trevas, terra da maldição do Deus Demônio. Hehe, gostaria de sentir o que é estar lá dentro o quanto antes — disse o estranho, com um sorriso de expectativa sincera. Se não fosse pela clareza de sua fala, Kormer poderia pensar que ele estava delirando. O Olho das Trevas, a terra da maldição do Deus Demônio — qualquer pessoa sensata entenderia o significado disso, mas aquele homem parecia encarar o lugar como um paraíso.