Capítulo Dois: Crescimento
— Comer, todos esses documentos não apresentam qualquer descrição sobre o real terror do Castelo Damolensk. Parece que as causas das mortes dos antigos senhores sempre diferem, mas em todas elas há, de algum modo, uma ligação com esse castelo enigmático. Com base apenas nesses registros, é difícil tirar conclusões valiosas. Creio que nossa decisão de ir até lá foi, de fato, um tanto precipitada — disse Pubar, sempre tão pragmático e ponderado. Dois anos na Academia de Elite da Fênix haviam tornado seu caráter ainda mais maduro e cauteloso; sua capacidade de análise e profundidade de pensamento superavam em muito a dos seus pares. Mesmo Comer reconhecia que seu amigo tinha um dom extraordinário para administração e finanças, tornando-se um apoio indispensável em sua jornada.
— Você não mencionou que já esteve lá antes? Qual a sua percepção, o que pensa a respeito? — Pubar, irritado por Comer desviar do assunto, insistiu, fitando-o com intensidade.
— Pubar, não te martirizes tanto. De qualquer forma, vamos ter que ir, quer queiramos, quer não. Deixa que eu cuido dos assuntos do Castelo Damolensk. Por mais que penses, não mudarás nada. É melhor refletires em como sobreviveremos no Cáucaso, como resolveremos o problema dos mantimentos, como faremos nosso território decadente prosperar. Não podemos passar a vida inteira naquele lugar maldito, entregando nossa juventude à mercê de trapaceiros, ladrões e violadores, não é? — Comer sorriu, dando-lhe uma palmada no ombro. — Tenho meus métodos, e só poderei revelá-los quando lá chegarmos.
Pubar lançou ao chefe um olhar desconfiado. Não compreendia como Comer podia tratar um problema tão sério — o mais urgente, afinal de contas — com tamanha leveza. Será que seu companheiro de infância, com quem crescera lado a lado, escondia mesmo talentos que ninguém conhecia? As mortes dos antigos senhores pareciam não abalar Comer, e onde os demais estremeciam, ele se sentia intrigado. Era incompreensível. Contudo, sabia que, embora Comer fosse indomável e irreverente desde pequeno, jamais prometera em vão; sempre cumpria o que dizia. Isso, em parte, tranquilizava-lhe o coração.
Os dias seguintes foram de espera ansiosa pelo ritual de maioridade de Pubar e Ilote. Nada mais restava a fazer; além de uma pequena quantia em ouro, Pubar recebeu do pai uma caixa de livros, enquanto Ilote foi presenteado pela família com um conjunto de armas e armaduras de aprendiz de cavaleiro, duas montarias de guerra e um servo. Tratava-se de um tratamento raro e generoso, pois entre a nobreza comum, jovens exilados de casa para buscarem a própria sorte recebiam, quando muito, recursos para um ou dois anos de sustento. Depois disso, só lhes restava contar com o próprio esforço. Era a lei da sobrevivência. Quem olhasse os cortiços e vielas da Cidade de Ceprús não imaginaria quantos entre aqueles miseráveis descendiam, de perto ou de longe, da linhagem do grão-duque que governava a cidade.
Comer, por sua vez, não perdia tempo. Com Pubar incumbido dos planos futuros no Cáucaso, pôde dedicar-se de corpo e alma ao seu treinamento. Cada avanço na arte do ioga trazia-lhe um novo despertar — fosse no aprimoramento dos sentidos, no aprofundamento da percepção ou no fortalecimento físico. Aqueles dias foram os mais tranquilos e serenos dos últimos anos, permitindo-lhe mergulhar sem reservas no estudo incessante das artes mágicas.
Embora só tivesse tido um ano de instrução, o mestre lhe ensinara tanto, em tão pouco tempo, que Comer absorvera muitos conhecimentos às pressas, sem compreender-lhes o real significado. O mestre alertara que certos saberes só fariam sentido muito depois, quando ele próprio, em sua busca pela magia, viesse a experimentá-los. Agora, enfim, Comer começava a perceber as sementes deixadas pelo mestre.
A paz interior multiplicava as oportunidades para praticar o ioga: ora ao amanhecer, ora à meia-noite, ora ao meio-dia. Comer nunca sabia qual o melhor momento, mas sentia, com acuidade, quando o corpo e o espírito clamavam por evolução — uma ânsia pelo fortalecimento da energia vital.
Além do próprio aprimoramento, Comer se comprazia em estudar o precioso cadáver que obtivera. Cada análise lhe trazia novas descobertas. Examinou-o inteiramente, retirando as vestes permeadas de magia do vento, e ainda uma armadura de couro de besta mágica, cuja origem permanecia um mistério, embora sua resistência a ataques físicos de metal fosse indiscutível. Chegou a encontrar, entre os cabelos do morto, uma agulha dupla, fina e letal, de ponta azulada e veneno tão corrosivo que, segundo testes, poderia reduzir uma vaca a ossos em menos de uma refeição.
Apesar do tempo à disposição, Comer sentia que jamais teria o suficiente para absorver todo o conhecimento transmitido pelo mestre: da magia à técnica marcial, do refinamento do espírito à compreensão das leis do destino, da ética à estratégia, todos os saberes, por paradoxal que pareça, convergiam naquele homem enigmático. Comer se perguntava por que alguém tão sapiente vivera e morrera anônimo no campo — se por desilusão, se por um desapego absoluto à glória. Em apenas um ano, não foi capaz de decifrar o mestre, e este, por sua vez, nunca revelara seu passado.
Quis organizar sistematicamente tudo o que aprendera, mas logo percebeu que era impossível. Os ensinamentos eram múltiplos e intrincados, misturando conceitos que não podiam ser separados. Restava-lhe apenas gravar tudo na memória, digerir aos poucos e esperar que, com o tempo e a prática, viessem os verdadeiros avanços.
O espelho de pedra, de um verde profundo, emanava uma brisa fresca; suas bordas arredondadas eram de uma suavidade inigualável. Comer sentia que aquele objeto guardava infinitos segredos — segredos ainda inacessíveis para ele. Já habituado, mantinha o espelho junto ao peito, e aquela sensação gélida clareava-lhe a mente e a alma, tornando palpável um sentido obscuro que crescia em seu interior.
O domínio da magia sempre fora o seu objetivo maior. Recordava-se das advertências do mestre sobre todas as possibilidades relativas ao Castelo Damolensk, e, apesar da confiança que demonstrava diante de Pubar e Ilote, só ele sabia o quanto se inquietava. O verdadeiro segredo do castelo só era conhecido por quem lá entrara; e esses, ou estavam mortos, ou haviam enlouquecido. Ainda assim, Comer e o mestre compartilhavam uma suspeita: havia algo estranho em Damolensk — talvez uma presença não humana, ou algo fora do comum. Não era possível afirmar sem testemunhar.
A única saída era aproveitar cada instante para se fortalecer. Sendo apenas um jovem barão, a única forma de conquistar respeito no Cáucaso seria ocupar o Castelo Damolensk — e, mais do que isso, permanecer lá em segurança. Só assim poderia subjugar os habitantes do território, descendentes de bandidos, ladrões, trapaceiros e exilados. Do contrário, mesmo que conquistasse espaço, acabaria cedo ou tarde vencido pela turba indomável.
Evitar o destino trágico dos antigos senhores dependia, primordialmente, de resolver o mistério do castelo, o que, por sua vez, exigia força. Comer analisara os casos anteriores: excetuando o primeiro senhor, cuja história se perdeu no tempo, todos os demais haviam sido arrogantes e despreparados. O visconde Burke, mesmo acompanhado de cavaleiros e magos, não possuía méritos próprios. Levou sua comitiva apenas para impressionar os nativos; não acreditava realmente no perigo do castelo e morreu, apavorado, em seus próprios aposentos. Ninguém soube explicar a razão de sua morte, e as investigações posteriores, conduzidas por magos e cavaleiros enviados pelo grão-duque, tampouco revelaram qualquer pista. Esses investigadores ainda permaneceram no castelo por um tempo, sem sofrer dano algum. O motivo disso era um enigma.
O que parecia certo, porém, era que quem se apresentasse despreparado estava fadado à desgraça. Por isso, Comer dedicava-se com afinco à própria evolução. O resultado, contudo, não dependia só dele: há coisas para as quais é preciso contar com a sorte. Se o destino estiver do seu lado, até as deficiências podem ser superadas; se não, restará apenas lamentar a má sorte dos antepassados. O importante, pensava Comer, era dar o melhor de si — sem arrependimentos.