Capítulo Cinco: Amigo Íntimo

Destino Místico dos Céus Raiz da Sorte 3173 palavras 2026-02-07 12:28:21

Já fazia dois dias que retornara, e todos na mansão evitavam Keomo como se ele fosse portador de uma praga. O chefe da família, o nobre senhor Ramla Reiser, após um encontro frio e breve, nunca mais quis tratar com aquele ser que parecia não ter sequer uma centelha de sua própria sabedoria. Para ele, Keomo só trazia aborrecimentos e constrangimentos. Ter um elemento tão excêntrico na linhagem dos Reiser era, segundo suas próprias reflexões, consequência de uma infeliz conjunção de circunstâncias biológicas e ambientais.

Aos olhos dos outros, Keomo parecia não ter mudado desde três anos atrás: continuava exibindo aquele ar lascivo e desdenhoso, como se a vida fosse uma grande piada. Mas só ele sabia que o verdadeiro Keomo deixara de existir após ser manipulado, traído e forçado ao exílio três anos antes. O que restava era alguém que, para sobreviver, precisara vagar pelo continente feito um cão sem dono à procura de sustento, destino que só começou a mudar há cerca de um ano.

Foi então que conheceu alguém que transformaria sua vida: um feiticeiro moribundo, um mago desconhecido, raro no continente por dominar duas artes: necromancia e magia luminosa. No instante em que viu Keomo, o feiticeiro agonizante pareceu reacender-se com um último fulgor, transmitindo-lhe todo o conhecimento acumulado ao longo da vida. Keomo nunca entendeu como um mago de aparência tão comum e sem fama podia deter tamanha vastidão de saber. E, no entanto, ele jamais ouvira falar daquele homem, num continente onde magos logo conquistavam glória e riquezas.

Três meses depois, o mestre deixou o mundo em paz, partindo com serenidade. Naquele instante final, Keomo percebeu um sorriso de satisfação nos lábios do velho, e pela primeira vez desde há muito sentiu-se realmente tocado. Até suas glândulas lacrimais, há tempos adormecidas, pareciam querer despertar.

O mestre pouco falou além do necessário para o ensino. Sua origem e identidade permaneciam envoltas em mistério, mas o empenho em transmitir habilidades e saberes nunca vacilou. Foram apenas três meses, mas para Keomo pareceram eras. O fluxo de conhecimento despertou-lhe a mente, antes obtusa, clareando-lhe tudo como um riacho de águas límpidas e constantes. O mundo, enfim, fazia sentido.

"Para dominar o destino, é preciso primeiro dominar o poder." Murmurando as últimas palavras do mestre, Keomo contemplava o céu, absorto. Havia nelas um significado tão profundo que cada reflexão trazia um sabor diferente: dominar, destino, poder. Três palavras unidas por simples preposições, mas que lhe provocavam infinitas conjecturas. O que era destino? De quem? Dele, de sua família, de todos? E poder? Seria magia, habilidade marcial, sabedoria, experiência, riqueza, influência, ou todas essas coisas? E dominar? Por quais meios? Com pressa ou paciência? Essas questões se entrelaçavam à última expressão do mestre, aqueles olhos brilhantes que não lhe saíam da memória, mergulhando-lhe o espírito em inquietação.

"Senhor Keomo, o segundo filho dos Lucs e o terceiro filho dos Modo vieram procurá-lo." Apesar de estranhar o silêncio do jovem senhor desde sua volta, o mordomo Sanders não acreditava que tivesse mudado de caráter. O hábito é difícil de mudar, pensava, e além disso, Keomo era filho de uma escrava ainda mais humilde do que ele próprio. Jamais reconhecera nele algum traço nobre dos Reiser, mas mantinha tais pensamentos bem ocultos, sem ousar expressá-los.

Keomo lançou ao mordomo um olhar de desdém. Após três anos de andanças, seus sentidos estavam mais aguçados do que nunca, e ultimamente percebia que sua sensibilidade parecia crescer dia após dia, o que o surpreendia e alegrava. Podia sentir nitidamente o desprezo e a repulsa no íntimo do mordomo, mas não se importava. Talvez o título de "três lobos de Ceplus" já fosse suficientemente odioso para todos, dentro e fora da família, e até entre os cidadãos da cidade, que evitavam sequer mencionar os três nomes. Se não fosse pelo manto da nobreza, talvez já tivessem sido despedaçados por populares furiosos.

"O que tem de vir, virá. Talvez a vida não passe de um processo, e talvez o verdadeiro sentido dela seja saborear cada etapa." Um pensamento estranho surgiu-lhe à mente; ele mesmo se surpreendia com essas ideias e frases insólitas. Às vezes, até seus sonhos noturnos eram tomados por visões absurdas, cenas entre fantasiosas e familiares, confundindo-o a ponto de, ao despertar, não saber o que era realidade e o que era ilusão. Suspeitava que o rápido aprimoramento de seus sentidos poderia ter relação com a pedra estranha que levava sempre consigo.

Naqueles dias a bordo do navio, suas noites eram inquietas, preenchidas por sonhos sucessivos até o amanhecer. Dizem que, ao acordar, tudo se dissipa; mas, para ele, as cenas oníricas permaneciam vívidas, o que o fazia questionar sua própria sanidade.

Pensando nisso, Keomo não resistiu a tocar a pedra presa junto ao corpo. Mas não era hora para tais reflexões. Acenou com a cabeça, sinalizando que ouvira o mordomo, sem mais palavras, e seguiu para seu pequeno pátio na mansão.

Ao vê-lo sumir, Sanders não pôde evitar cuspir discretamente, tentando mascarar sua mesquinhez sob uma postura digna. Achava mesmo que aparência podia esconder o que havia por trás?

No caminho para o pátio, Keomo rememorava os acontecimentos de três anos antes. Não era tanto tempo, mas para ele parecia uma eternidade. A vida desregrada e insensata de então ainda lhe pesava no peito. No fundo, não fora mais que excesso de vinho e mulheres, nada tão grave assim... O pensamento lhe ocorreu de repente, surpreendendo-o. Mas, por mais que minimizasse, as consequências foram reais. Não fosse por elas, não teria sido forçado ao exílio.

Balançou a cabeça ao pensar nos dois amigos de má fama. Sentiu-se novamente o Keomo rebelde de três anos atrás, e um sorriso irônico surgiu-lhe nos lábios.

O contraste entre o jovem de rosto alongado e robusto como um cavalo e o magro de tez pálida era gritante. Quando viram Keomo à porta, ambos exibiram expressões complexas – mistura de dor, humilhação, revolta e lembrança. Cruzaram olhares, compreendendo-se sem palavras, e o ambiente mergulhou numa estranha tensão.

Foi o jovem de rosto cavalar quem se adiantou, desferindo um soco no peito de Keomo e soltando uma gargalhada: "Você finalmente voltou, rapaz! Achei que tinham te matado e dado de comer aos lobos no ermo."

O jovem pálido aproximou-se devagar, em tom grave: "O importante é que voltou. Só isso importa."

Vendo o amigo tentar parecer maduro e sombrio, Keomo não se conteve e lhe aplicou um pontapé: "Se eu não voltasse, pensou mesmo que passaria a vida vagando por aí? Três anos de penitência já não bastam? Se continuar me cobrando, não venha reclamar se eu perder a paciência!"

"Paciência? Você e essa palavra não combinam!" zombou o outro. "Se você fosse paciente, Ceplus já teria afundado no Mar das Sombras para encontrar o Rei dos Mortos. E se fosse um homem de bem, já teria desaparecido desta cidade. Não é assim, Pubar?"

"Deixemos as amarguras de lado. O chefe voltou, e precisamos nos divertir. Três anos de sofrimento e errância merecem alívio, não acha?" O pálido mantinha o mesmo ritmo calmo, o que irritava o amigo de rosto cavalar.

"Tem razão. Faz três anos que não nos reunimos. Aposto que Ceplus até esqueceu nossos nomes." Keomo suspirou, tocado por uma nostalgia difusa. Por um instante, pareceu-lhe ter voltado aos dias insanos de outrora, quando a imprudência era regra e os desastres, consequência. Não sentia grande arrependimento: viver sem freios era de sua natureza, proporcionar à alma enclausurada algum frescor. Não desejava mudar demais. As experiências dos anos de exílio e fuga ensinaram-lhe lições valiosas, sobretudo o encontro com seu mestre.

"Por que escolheram este lugar?" Keomo perguntou, estranhando o movimento constante de pessoas ao redor.

"Justamente porque aqui ninguém repara. Se alguém nos reconhecesse, amanhã os boatos correriam: os três se reuniram! E aí, eu e Ilote teríamos ainda menos liberdade." Resignado, o jovem pálido sorveu um gole de tequila ardente, o líquido queimando-lhe a garganta e aquecendo-lhe o peito. Percebeu, com uma onda de calor no rosto, que o amigo mudara muito em três anos. O outrora arrogante Keomo parecia agora amadurecido, ainda que, vez ou outra, aquele brilho desafiador dos olhos denunciasse o mesmo espírito indomável do passado.