Capítulo Dezenove: Marcas no Coração

Destino Místico dos Céus Raiz da Sorte 4252 palavras 2026-02-07 12:28:27

A cerimônia de maioridade de Cormo terminou sob uma atmosfera opressiva. A Catedral de Baltimore era uma das igrejas mais conhecidas da cidade de Séphlus e também um dos locais mais importantes da Igreja da Luz na região. Muitos fiéis escolhiam esse templo para confessar e buscar redenção. Quando o sacerdote da Luz derramou a chamada água sagrada sobre a cabeça de Cormo, significando que as impurezas haviam sido lavadas e ele se tornava um novo homem, isso marcou sua entrada oficial na vida adulta, tornando-o responsável por seus próprios atos e apto a usufruir dos direitos de um adulto.

Os familiares olhavam para Cormo, que se mostrara especialmente sereno durante a cerimônia, com olhares estranhos. Entre eles, Lamla, seu pai, observava o filho com sentimentos contraditórios. Quando anunciou a Cormo que o duque pretendia nomeá-lo barão e conceder-lhe o território do Cáucaso, surpreendeu-se ao ver que o filho não reagiu com espanto, aceitando o destino sem hesitações. Lamla não acreditava que Cormo ignorasse o que o Cáucaso representava. Embora não desejasse que o filho se tornasse senhor daquela terra, mesmo tendo causado muitos problemas à família, afinal, um tigre não devora seu filhote. Cormo era seu sangue, e enviá-lo ao Cáucaso era como assinar sua sentença de morte.

Porém, a culpa não mudava a decisão. Como chefe da família Resser, Lamla precisava pensar no destino de todos, em especial dos filhos mais velhos e mais novos, bem como nos demais membros. A voz gélida do duque ecoava constantemente em sua mente: só restava o sacrifício. Ele teve de aceitar, lamentando apenas que Cormo, por suas próprias ações, tivesse chegado àquele ponto. Ninguém mais era culpado.

Ao sair da igreja, Cormo sentiu-se surpreendentemente leve. Em suas mãos, o documento de concessão selado pelo Conselho Privado do Reino e assinado pelo próprio Arquiduque Filipe, declarava-o senhor da região do Cáucaso, no distrito de Homero, Reino de Nicósia. O documento não especificava se o Cáucaso era cidade, vila ou mesmo um ermo desabitado. Poucos em Séphlus sabiam a real extensão ou natureza daquele território. Para a maioria, era apenas um cemitério de gente comum, um refúgio para os párias. Todos sabiam que o título não passava de uma fachada, que logo poderia ser retirada. Sem herdeiros, ao morrer, o território voltaria ao doador.

Guardando cuidadosamente o documento no peito, Cormo recusou educadamente o convite de alguns jovens nobres com quem mantinha certa cordialidade. Não queria ver em seus rostos a expressão de piedade, como se fosse um condenado a caminho do cadafalso. Não eram pessoas dignas de consideração. Ilote e Pubber não compareceram; Cormo preferia não encontrá-los naquela ocasião. Esperava que ambos, tendo decidido acompanhá-lo na aventura ao Cáucaso, se preparassem devidamente.

Caminhando pela ampla avenida litorânea, Cormo sentiu-se cada vez mais à vontade. O calçamento, feito de pedras hexagonais polidas e reluzentes, resistia incólume ao tempo. Trinta anos antes, o antigo arquiduque, encantado com a paisagem, mandara buscar toneladas de pedras rubras nas serras de Hóling, que, esculpidas por artesãos, foram assentadas à beira-mar como escamas de peixe, formando um espetáculo à parte. O eficiente sistema de drenagem mantinha o piso sempre seco. Ao longo da via, árvores de bordo roxo exibiam folhas do tamanho de uma mão, que, sob o sol, dançavam ao vento, conferindo uma beleza singular ao local. A brisa marinha, perfumada com o aroma suave das folhas, fazia daquele calçadão um dos pontos turísticos mais famosos de Séphlus. A abundância de peixe-pescada, ingrediente do lendário Pescada de Lótus—um dos dez pratos mais célebres do continente—atraía incontáveis comerciantes e visitantes.

O passeio relaxava Cormo. A paisagem suavizava-lhe o ânimo. O grandioso complexo de veraneio real dominava o litoral, com chalés luxuosos e uma estrada secundária levando diretamente à praia privada da família real. Cercada por troncos altos, a praia formava um recinto semicerrado, exclusivo para o rei e seus parentes. Ao lado, uma área menor era reservada à família do arquiduque.

Contemplando o mar azul ao longe, Cormo afastou os pensamentos sombrios e rendeu-se à beleza do horizonte, onde brancas velas pontilhavam a imensidão como flores de geada sobre um safira colossal. Gaivotas e garças cruzavam o céu, enquanto o vento salgado acalmava-lhe o espírito. Estava prestes a deixar aquela cidade rica e bela, que, embora não lhe fosse particularmente querida, fora cenário de sua juventude desregrada. Lembranças de caçadas, festas e amizades ressurgiam, para logo desaparecerem como sonhos sob a chuva e o vento, sem deixar vestígios.

O som de passos e vozes distantes arrancou Cormo de suas reminiscências. Olhou distraidamente para trás e avistou um grupo de jovens, homens e mulheres, saindo do complexo real. Provavelmente nobres da capital, Jazaiel—talvez até membros da família real. Cormo desgostava desse tipo de gente, arrogante graças à herança dos ancestrais. Ele mesmo fizera parte desse círculo, mas, como filho ilegítimo, logo perceberia a diferença entre si e os verdadeiros herdeiros. Justamente quando começava a encarar essa diferença, uma paixão inesperada o lançara num abismo. As memórias dolorosas faziam-lhe o coração latejar, mas o autocontrole adquirido nos anos de exílio e o vento do mar ajudavam-no a recuperar a calma.

— Cormo? — Uma voz suave, elegante, com um toque de sedução, soou atrás dele.

Foi como um golpe no coração. Cormo estremeceu, virando-se instintivamente, o olhar fixo na jovem a menos de dez metros.

O vento marinho agitava a barra do vestido branco como a neve. Sob o chapéu azul-celeste, cabelos dourados esvoaçavam; os olhos eram de um azul límpido e profundo, e as covinhas no rosto, discretas, ainda tocavam as cordas mais íntimas do seu ser. O pescoço, delicado como o de um cisne, e o gesto de morder o lábio inferior, que outrora o deixara louco de paixão, estavam ali, vivos diante dele.

O gosto de sangue nos lábios trouxe Cormo de volta à realidade. Embora tivesse imaginado incontáveis vezes esse reencontro, nunca pensara que se daria de modo tão casual. Era ela, a mulher que o enlouquecera, a primeira. Dizem que o primeiro amor é inesquecível—e, quando platônico, ainda mais marcante. Essa combinação enlouquece qualquer um. Teria ele enlouquecido? Após três anos de sofrimento, julgava-se curado, mas agora via o quanto se enganara.

— Senhorita Teresa, é um prazer revê-la. — Sua voz rouca parecia a de um moribundo, sem qualquer vestígio de sinceridade. Cormo esforçou-se por manter a compostura, mas era difícil. As cenas de outrora vinham-lhe à mente até que percebeu o olhar orgulhoso da jovem pousar sobre o rapaz elegante ao lado dela. Uma punhalada de amargor atravessou-lhe o peito, mas serviu para pôr-lhe a cabeça em ordem.

— Este é o príncipe Hofmann. Esta é a princesa Lenta — apresentou a jovem, tirando delicadamente a luva branca. — Estes são o visconde Crean e o visconde Solata.

Hofmann, quarto filho do rei de Nicósia e terceiro na linha de sucessão; Lenta, sétima filha do rei e décima na linha. Crean, único filho do duque de Windsor, da vizinha região de Nídia; Solata, primogênito do marquês Nicholas, ministro das finanças do reino.

— Estes são o príncipe Tomás e a princesa Dulcinea, do Reino de Rosenbourg — continuou, sorrindo. Todos acenaram com cortesia, as princesas limitaram-se a um leve aceno de cabeça.

— Este é o barão Cormo, meu amigo. Seu pai é o principal tesoureiro de meu pai — finalizou.

— É uma honra conhecê-los — disse Cormo, já completamente recuperado. Se estivesse a sós com ela, talvez perdesse o controle; mas, diante de estranhos, forçou-se a manter-se calmo.

Trocaram cumprimentos, beijos nas mãos. As duas damas, porém, sequer retiraram as luvas, acenando friamente.

— Cormo, ouvi dizer que hoje você celebrou sua maioridade e que meu pai lhe concedeu o Cáucaso? — A expressão inocente da jovem sugeria ignorância quanto ao verdadeiro significado daquele território, mas Cormo sabia muito bem que, sob o ar angelical, escondia-se um coração impiedoso que destruíra o seu há três anos.

— Sim, senhorita Teresa. O arquiduque generosamente concedeu-me o título de barão e o Cáucaso, como reconhecimento à lealdade de minha família à sua casa. Meu pai, ao receber o feudo, pediu ao arquiduque que o transferisse diretamente a mim — respondeu, demonstrando entusiasmo e gratidão.

Seus companheiros mostraram-se visivelmente incomodados. Não entendiam por que Teresa se interessava por um nobre de tão pouca expressão, alguém que, em Jazaiel ou Séphlus, seria apenas mais um entre tantos outros arruinados. Nobres empobrecidos, ali, eram mais numerosos e miseráveis que mendigos; muitos de seus filhos caíam na prostituição ou no crime.

Percebendo o desconforto, Teresa sorriu e pediu educadamente que os demais seguissem adiante; logo os alcançaria. Eles hesitaram, mas concordaram em esperá-la mais adiante, sem interesse em confraternizar com um desconhecido, o que consideravam indigno de sua linhagem.

Assim que se afastaram, Teresa voltou a olhar para Cormo, com um brilho gélido nos olhos.

— O Cáucaso é um lugar famoso, barão Cormo. Aproveite bem a dádiva de meu pai. Não decepcione as expectativas dele — disse, tranquila.

Erguendo a cabeça, Cormo captou, por um instante, a frieza fulgurando nos olhos límpidos da jovem. Palavras como aquela já não o abalavam. Respondeu, plácido, como se não percebesse o verdadeiro significado:

— Agradeço ao arquiduque e à senhorita pela generosidade. Jamais esquecerei.

No sorriso radiante da jovem, percebeu-se uma ponta de desprezo. As faces ruborizadas realçavam-lhe a pureza, enquanto fingia indiferença:

— O príncipe Hofmann, a propósito, talvez peça minha mão a meu pai; o príncipe Tomás tem o mesmo propósito. Meu pai está indeciso. Não desejo que acontecimentos do passado interfiram no meu casamento. Por isso, peço que você e seus amigos tomem cuidado.

Era esse o motivo, pensou Cormo com frieza. Exibição e ameaça, nada mais. Não surpreendia que viesse falar com ele num momento tão inadequado.

— Desculpe-me, senhorita Teresa, mas não sei ao que se refere. Sou um homem sem importância, incapaz de influenciar seu casamento. Não me superestime — respondeu, impassível.

— Espero que sim, barão Cormo. — Ela já retomara a expressão pura de antes. Acenou para os amigos, que a chamavam, e afastou-se com passos leves. — Boa sorte!

— Igualmente, senhorita Teresa — murmurou Cormo, vendo a silhueta elegante desaparecer no grupo. Uma angústia profunda o sufocava. Seria essa, afinal, a diferença entre eles? Três anos de provações o haviam preparado para tudo, pensava ele, mas agora percebia que as perdas do passado, mesmo irrecuperáveis, estavam gravadas em sua alma. Talvez jamais conseguisse encará-las com indiferença.