Capítulo Seis: Experiências

Destino Místico dos Céus Raiz da Sorte 2560 palavras 2026-02-07 12:28:21

Mais uma vez, o silêncio constrangedor pairou entre os três, que apenas ergueram os copos e engoliram grandes goles de bebida, como se quisessem se anestesiar com o álcool. Olhando distraidamente para os clientes embriagados que iam e vinham, um leve sorriso surgiu no rosto de Cormer, que finalmente quebrou o silêncio: “Pronto, vamos parar de fazer essas caras de sofrimento. Já estamos de volta, afinal, isso é motivo para comemoração. Ou querem que fiquemos com cara de donzelas choronas? Que piada! Melhor falarmos sobre como foram esses anos para cada um de vocês.”

Abrindo um sorriso torto, mais feio que choro, o jovem de rosto comprido deu de ombros, fazendo pouco caso: “Estou melhor que vocês. Assim que recebi a ordem de exílio, fui para o Planalto de Mogan. Lá meu pai tem um amigo, comandante de uma fortaleza, e acabei virando oficial. Passei dois anos por lá e, se não posso afirmar outras coisas, ao menos digo que minhas habilidades marciais melhoraram bastante.” Ao terminar, ele fez um movimento de abrir o peito para mostrar seu vigor físico.

“O Planalto de Mogan é o paraíso dos orcs. Não foi capturado por eles para pedir resgate?” Cormer zombou, sorrindo.

“Pois é, quanto mais perigoso, mais seguro. Nos dois primeiros anos, os orcs estavam quietos, sem grandes problemas. Mas ouvi dizer que, depois que voltei, eles começaram a se agitar de novo.” O jovem de rosto comprido assumiu uma expressão de preocupação quase patriótica.

“Hã, parece até que foi graças a você que os orcs ficaram calmos esses anos.” Cormer ironizou, rindo.

“Que nada, foi só sorte mesmo. Ainda bem que estavam quietos, porque enfrentar orc de verdade não é brincadeira. Antes, era comum a fortaleza gastar centenas de milhares de escudos de ouro só com pensões de guerra. Só fui para lá porque estava tudo mais tranquilo, do contrário não teria ido me arriscar.” O brilho de malícia familiar apareceu nos olhos do jovem de rosto comprido, um sujeito que, embora parecesse tosco, era adepto da estratégia dos cavaleiros: fingir fraqueza para dar o golpe mortal. Mas isso não enganava nem Cormer nem Prutem, seus amigos de infância. Ao que tudo indica, esses anos não foram em vão para ele; além de aperfeiçoar as técnicas, também estava pensando mais.

“E você, Publio? Onde andou nesses anos?” Cormer, já retomando o velho jeito de líder, falou agora sem o constrangimento inicial da reunião.

“Ah, minha sina não é fácil. Fui mandado direto para Fênix, com o pretexto de estudar. Mas aquilo era uma prisão. Só consegui voltar há uns dois meses, não aguentei a vida regrada de lá.” O jovem pálido respondeu num tom indiferente, claramente evitando falar sobre sua experiência dolorosa.

“Fênix, é? Parece que seu pai queria que você aprendesse sobre administração, para virar um burocrata.” Cormer semicerrava os olhos, um sorriso irônico nos lábios. Pensou, silenciosamente, que esse era o destino dos filhos ilegítimos: sem direito à herança do título, restava ingressar no exército como carne de canhão, tentar uma carreira burocrática a partir do degrau mais baixo, ou então vagar pelas ruas feito um desocupado, até ser obrigado a viver com uma herança insignificante, acabando como mendigo ou membro de uma família decadente, em suma, tornando-se lixo que ninguém nota. Fênix, a segunda maior cidade do Ducado de Nicósia, ficava nas planícies do oeste, famosa pela Academia de Elite de Fênix, uma das melhores escolas para formação de funcionários de base do ducado. Mas era só para formar funcionários de base; os altos cargos nunca saíam de lá. Ainda assim, muitos plebeus de outros países iam até lá estudar, na esperança de conseguir um bom emprego.

Visivelmente sem graça, Publio desviou o olhar para o lado — as palavras de Cormer eram sempre cortantes. Ele baixou a cabeça e passou a mão no rosto, seu gesto habitual para evitar o assunto. “É, chefe, não tinha outro jeito. Estamos todos no mesmo barco, você sabe, ninguém sabe o que nos espera no futuro, mas precisamos continuar vivendo.”

Cormer suspirou fundo, acenando em silêncio com a cabeça, e virou de uma só vez o copo de bebida. “Não desanime. O céu nunca fecha todas as portas. Já que o destino permitiu que eu, Cormer, nascesse, não vai nos abandonar. Pão não vai faltar, tudo vai dar certo.”

“Chefe, desde quando você aprendeu a falar como aqueles clérigos que acalmam os ignorantes?” O jovem de rosto comprido brincou, sorrindo. Ele nunca foi um devoto, e as bobagens que às vezes soltava poderiam lhe render anos de prisão ou até a fogueira, caso fossem ouvidas pelos inquisidores da igreja. Por sorte, em Saiprus, as restrições não eram tão severas, o que fazia a região ser mais vibrante e diferente de outras.

“E você, chefe, como sobreviveu nesses três anos?” Perguntou Publio, dando um pequeno gole na bebida. O rubor já dominava seu rosto, sinal de que não aguentava muito álcool, mas os olhos brilhantes e profundos mostravam que a mente continuava alerta.

“Melhor nem falar. Perto de vocês, é como se um estivesse no paraíso e o outro no inferno. Foi exílio atrás de exílio, e ainda aconteceram coisas que vocês nem imaginam. Um dia conto com calma.” Cormer balançou a cabeça, levando o copo à boca e saboreando a bebida, como se analisasse cada detalhe. Suas experiências dos últimos três anos iam muito além do que qualquer um poderia supor. Ele mesmo evitava lembrar daqueles dias — provações podem fortalecer, mas as que beiram a morte e o sofrimento extremo não são assunto agradável para relembrar.

“Chefe, dá pra ver que aconteceu algo especial com você, aposto.” O jovem de rosto comprido olhou com convicção e entusiasmo. “Dá pra sentir que você tem aquele cheiro típico dos magos da nossa fortaleza. Não me diga que aprendeu magia?”

Cormer se surpreendeu e observou o amigo por alguns instantes. Não esperava que o rapaz tivesse o faro tão aguçado. Só havia tentado usar um feitiço de escuta para bisbilhotar a conversa de um sujeito estranho ali perto, e mesmo assim foi percebido.

“Surgiu uma chance de aprender algumas coisas, mas nada de mais. Não é nada digno de nota.” Cormer não negou, mas também não se explicou. “Estão vendo aquele grupo ali? O que acham que fazem?”

Seguindo o olhar de Cormer, o jovem de rosto comprido logo desviou a atenção. Eram homens de porte impressionante, cabeças enormes enfeitadas com belas penas, feições de bronze marcadas como rochas. Bebiam grandes doses de aguardente de capim vermelho, algo que poucos ousavam experimentar, e ainda pareciam se divertir.

Com um leve encolher de ombros, o jovem de rosto comprido avaliou: “Ah, são bárbaros. Ultimamente têm aparecido bastante por aqui. Parece que do lado deles houve nova calamidade, então vieram comprar comida e mantimentos.”

“É, provavelmente. Dias atrás, vi alguns deles no mercado trocando muito minério por comida. Devem estar em apuros, porque raramente aparecem em Saiprus. E os minérios que vi valiam bastante, eram ótimos para forjar armas de qualidade. Pena que os mercadores gananciosos daqui baixaram demais o preço, e os bárbaros, sem entender nada, devem ter vendido por um décimo do valor.” O jovem pálido lamentou, batendo a língua.

“É mesmo?” Cormer ficou pensativo. Nos últimos três anos, aprendera muito sobre a arte de forjar objetos — não era especialista, mas sabia que certos materiais especiais podiam multiplicar o valor de uma peça, desde que o artesão tivesse habilidade e conhecimento das propriedades do material.

“Vamos lá dar uma olhada. Quem sabe não damos sorte e encontramos algo interessante.” Cormer arqueou as sobrancelhas, ergueu a cabeça e se levantou.

Seus dois amigos não sabiam por que Cormer subitamente se interessara pelos bárbaros, mas, sem pensar muito, levantaram-se também, cambaleando atrás dele.