Capítulo Quatro — Conversa Noturna
Ao adentrarem a região do Cáucaso pela passagem de Darman, ainda restavam cento e oitenta léguas até o coração da região — a Vila de Ugru. O crepúsculo já se insinuava no céu, e era evidente que não conseguiriam chegar ao destino ainda naquela noite. Por isso, Fran sugeriu que acampassem cedo para descansarem. Já haviam avançado quarenta léguas dentro do território do Cáucaso, atravessando um ermo quase intocado, onde a única estrada parecia, há dias, não ver vivalma. Mesmo que os bandoleiros de León tivessem a intenção de atacá-los novamente, dificilmente teriam meios para tanto, pois naquele desolado rincão era fácil encontrar abrigo oculto.
Quando a fogueira crepitava em chamas vivas, Fran, fiel ao hábito, dividiu os oito soldados em duas turmas, postando duplas de sentinelas — visíveis e ocultas — em direções opostas. Embora já estivessem numa zona considerada segura, Fran insistia em manter a disciplina e o estado de alerta, acreditando que a excelência não se forja da noite para o dia. Só quem passa repetidas vezes pelo crivo do sangue e do fogo pode, de fato, tornar-se um soldado digno e transformar um grupo numa verdadeira tropa. Após combates intensos, era justamente quando a vigilância mais tendia a relaxar — e esse era o momento ideal para temperar a vontade dos combatentes.
Kermo, após algum tempo de olhos cerrados em meditação, abriu-os devagar. Ilote e Pubar estavam silenciosos junto à fogueira, descansando. Os eventos do dia haviam sido tantos que ambos ainda digeriam o ocorrido; o comportamento insano de Kermo fazia com que cada vez mais se sentissem incapazes de decifrar seu amigo. Mas, tendo escolhido esse caminho, nunca cogitaram retroceder. Fran sentou-se discretamente um pouco afastado do fogo. Os quatro soldados de folga já dormiam, pois ainda teriam de montar guarda na segunda metade da noite. Paulen fora vistoriar as sentinelas. O vento das montanhas uivava pelo vale entre as árvores, e as chamas dançantes da fogueira pareciam querer hipnotizar, criando formas fantásticas e inusitadas.
— Parece que nossa jornada está longe de ser tranquila — murmurou Kermo com um sorriso enviesado, pegando um galho seco e o lançando ao fogo. — Fomos atacados por bestas mágicas, emboscados por cavaleiros caídos e, agora, embretados por bandidos. Será que sou tão fracassado assim, tão odiado pelos outros?
Ilote, com ar despreocupado, girava sua espada larga de guarda em S sobre o colo, ainda sentado na relva. — Chefe, na verdade, sabemos muito bem quem está por trás dessa última emboscada. Quem manda a gente ter feito certas coisas nada honrosas no passado? Olha só, querem nos despachar todos de uma vez. Acho que eu e Pubar fizemos bem em seguir contigo. Caso contrário, já teríamos virado cadáveres boiando ao largo do Porto de Seprús. Escapando dessa, ainda podemos sobreviver mais um pouco.
— Hmpf, será que só nos resta sobreviver como ratos? — retrucou Kermo, um sorriso frio a lhe atravessar o rosto. — Desde que Bamori se recusou a nos escoltar, eu sabia que essa viagem não seria fácil. Mas parece que o velho ainda tem escrúpulos. Se fosse a guarda dele a nos atacar, não teríamos tido chance alguma. Mas, uma vez no Cáucaso, ele não poderá mais nos alcançar. Se tivermos tempo, quem sabe não passaremos a vida toda sendo olhados de cima para baixo.
— Tomara, chefe, tomara. Mas o Cáucaso não é lá grandes coisas — ponderou Pubar, menos otimista. — Para fugir, talvez seja um bom destino, mas prosperar ali será difícil. — Do ponto de vista financeiro, sentia-se à beira da falência eterna, ainda mais depois que Fran lhes revelou que o território todo tinha menos de cinco mil habitantes, muitos deles semi-humanos.
Pensando no desempenho surpreendente de Kermo nos últimos tempos, Pubar lançou um olhar astuto e um sorriso maroto: — Mas, chefe, se nos brindar mais vezes com façanhas como as de hoje, talvez tenhamos alguma sorte por lá. Dizem que há muitos aventureiros no Cáucaso e lugares repletos de tesouros a descobrir. Se estiver disposto, quem sabe não nos arriscamos como caçadores de tesouros? Vai que achamos algum tesouro ancestral. O Forte de Damolensk também não é famoso? Quem sabe não guarda segredos enterrados?
Ao ouvir tais devaneios, Ilote bufou, desdenhoso: — Ah, Pubar, se todos depositassem esperanças nessas caçadas mirabolantes, o mundo seria só de aventureiros. Melhor te dedicares ao teu ofício. No mínimo, temos ainda alguns milhares de súditos; com boa administração ainda sobrevivemos. Se não der, fazemos uns bicos: guarda-costas, mercadores, caçadores de bestas de baixo nível para vender, por exemplo. E ao sul há bárbaros, com seus minérios raros; dá para negociar com eles, isso sim é um caminho viável.
Enquanto os dois discutiam, Kermo também se sentia incomodado. O Cáucaso era uma terra árida e esquecida, difícil de vislumbrar qualquer futuro. Suas palavras tinham sido para animar o grupo, mas se lhe pedissem um plano concreto, não saberia o que responder.
— Quando a carruagem chega ao pé da montanha, sempre se acha um caminho — disse, tentando soar confiante. — Não acredito que num território tão vasto não haja espaço para meia dúzia de pessoas como nós. O Cáucaso tem fama — deve haver um motivo. Já que estamos aqui, só nos resta lutar. Seja o Forte de Damolensk ou qualquer outro lugar digno de aventura, só saberemos tentando.
Kermo sacudiu a cabeça e falou com firmeza, a voz transbordando confiança: — Antes de agir, nunca se sabe o resultado. Mas se não tentar, nem a menor chance terá. Confesso: até eu me surpreendi com meu desempenho recente. Talvez seja o potencial que só aflora quando estamos encurralados. O Cáucaso será nossa terra de oportunidades. Lá, mostraremos quem somos. Tenho certeza de que vamos nos superar!
As palavras de Kermo tinham uma estranha força magnética, tão intensa que não só Ilote e Pubar ficaram tomados de entusiasmo, mas até mesmo Fran, sentado mais afastado, se viu momentaneamente enfeitiçado. Kermo controlava habilmente sua energia mental, mantendo-a estável até o fim da fala. Só então, ao ver a expressão dos três, soltou um suspiro discreto: sabia que havia conseguido.
Ele lançara sobre os companheiros um feitiço — não um feitiço comum, mas uma arte oculta. Essa arte consistia em manipular o poder mental para conjurar magias de afinidade sombria, raríssimas no continente. Em primeiro lugar, por se aproximar das magias das trevas e necromancia, práticas desprezadas pelos magos ortodoxos; em segundo, porque sua compreensão e domínio exigiam um talento especial, além de profundo conhecimento tanto das magias negras e necromânticas quanto das convencionais. Para um mago, isso era quase impossível, pois magias brancas e elementais raramente se harmonizam com as das trevas, e quem tenta dominar ambas acaba louco ou morto. Diz-se que, ao longo dos séculos, apenas há quinhentos anos, quando as bestas mágicas devastaram o continente, surgiu como um meteoro o lendário Franz Gurych, chamado de “Mestre Sagrado”, que teria atingido o ápice da união entre magias divinas e profanas — mas são só lendas, pois nenhuma crônica oficial traz menção a Franz Gurych; só os bardos transmitem sua história oralmente, geração após geração, e a verdade jamais foi apurada.
Kermo também não sabia por que dominava tal arte oculta. Mas, instintivamente, julgou que seria o melhor meio de insuflar coragem e confiança nos companheiros. A persistência desse efeito era muito superior a qualquer feitiço mental comum — era algo que seu instinto lhe dizia. Isso o entusiasmava e preocupava ao mesmo tempo, pois não sabia quanto tempo tal poder, vindo sabe-se lá de onde, permaneceria consigo. Talvez, ao acordar, ele já não estivesse mais em sua mente. Mas, por ora, não havia outra escolha.