Capítulo Dezoito: O Camponês e a Serpente
A noite transcorreu em silêncio, mas os três grupos de viajantes não conseguiram repousar suas mentes; os cavaleiros do Cavalo do Trovão ponderavam sobre os objetivos dos Cavaleiros Caídos, enquanto estes últimos arquitetavam formas de evitar ou se livrar da perseguição dos primeiros para concluir sua missão. Já o grupo de Cormo, apesar de desconhecer a origem dos Cavaleiros Caídos, também percebia o perigo representado por aqueles visitantes inesperados. Até mesmo Fran, normalmente pouco falante, advertiu Cormo sobre a necessidade de observar os movimentos dos cavaleiros mascarados. Ao romper da aurora, não se avistou mais a presença de criaturas mágicas, nem sequer sinais de animais comuns.
Ao preparar-se para retomar a jornada, Cormo percebeu que ainda se encontrava em um estado de entusiasmo peculiar. Desde o término da sangrenta batalha contra os lobos cinzentos, sentia-se como se estivesse sonhando. O uso excessivo de sua limitada energia espiritual para conjurar magia deveria tê-lo deixado exausto, talvez até vítima de um colapso mental provocado pela reação mágica, mas surpreendentemente, quando recitou com todas as forças o “Baile da Serpente Dourada” — magia que ainda não dominava de verdade —, quase teve o cérebro sugado por um violento refluxo mágico. Por um instante, Cormo acreditou que seria vítima de sua própria impulsividade. Contudo, uma onda de força espiritual irrompeu de seu peito, percorrendo rapidamente o corpo e preenchendo sua mente. Fragmentos de cenas oníricas inundaram seu pensamento, provocando uma sensação de pressão intensa na cabeça.
Guerras, massacres, magias, artes obscuras — cenas grandiosas, ao mesmo tempo desconhecidas e familiares, desfilavam em seu pensamento. Marionetes, esqueletos, monstros mágicos, zumbis, dragões — criaturas que pareciam pertencer apenas ao mundo dos sonhos dançavam em sua mente. Alegria, excitação, júbilo misturavam-se a dor, tristeza, preocupação, mas o que predominava eram sentimentos de confusão e culpa, como ondas que elevavam seu estado de espírito a picos sucessivos. Cormo percebeu que podia, como um observador externo, analisar calmamente as emoções positivas e negativas que lhe preenchiam o peito. Ora em fúria, ora em paz, esse estado de desorientação persistiu até que os lobos cinzentos se dissiparam, então foi se acalmando gradualmente. Por sorte, todos estavam concentrados na defesa contra os lobos e não perceberam que Cormo estava em transe.
Essa confusão interna o manteve em um estado semiconsciente; até durante as conversas, sua atenção parecia dispersa. Deitou-se cedo, mas ao fechar os olhos, as cenas caóticas voltaram a invadir sua mente. Atordoado, Cormo entregou-se à meditação, esperando filtrar e dissipar os pensamentos, porém, estranhamente, aquele método infalível não funcionou. As imagens sedimentaram como água em um lago profundo, tornando-se mais claras e completas em sua memória, como se sempre tivessem estado ali.
Cormo sabia que todas essas mudanças inexplicáveis vinham daquele fragmento de cristal circular. A pedra escura e fresca havia lhe proporcionado experiências inesperadas, e ele passou a questionar se era sensato mantê-la consigo. Por que um objeto obtido de um ladrão morto teria poderes tão transformadores? Não sabia a resposta, mas suspeitava que os dois cavaleiros do Cavalo do Trovão, que o acompanhavam, talvez soubessem algo. Mesmo assim, não ousava perguntar, tendo que continuar fingindo que tudo estava sob controle.
O inevitável aconteceu: quando os dois cavaleiros do Cavalo do Trovão foram atraídos pelas expressões ansiosas de um cavaleiro mascarado que explorava o caminho à frente e correram juntos, Cormo sentiu uma tênue ameaça de morte vindo por trás.
Dois cavaleiros mascarados sacaram ao mesmo tempo suas lanças negras e reluzentes, e a percepção aguda de Cormo identificou imediatamente que o alvo era ele, além de Ilote e Pubel. Era evidente que se tratava de emboscada de Ciprus; ninguém mais teria motivo para atacá-los. Cormo não teve tempo de ponderar se havia sido o príncipe ou algum comerciante insatisfeito quem planejou o atentado: as duas lanças já giravam em redemoinhos e avançavam, decididas a acabar com ele.
— Ilote, cuidado! Esse sujeito domina energia de combate e magia negra; são Cavaleiros Caídos! — Cormo avisou, reconhecendo o inimigo pela intuição. Embora não soubesse como seus adversários haviam contratado esses mercenários, a fama sinistra dos Cavaleiros Caídos era conhecida em todo o continente. Inicialmente, Cormo não pensou que eles poderiam estar atrás dele, mas quando viu a lança envolta em magia negra, compreendeu que pretendiam matar a todos.
Ilote, já preparado, sacou sua espada de lâmina espessa e enfrentou com determinação a ponta da lança que brilhava em negro. A espada, reforçada com magia, cortou o ar reluzindo em cristal azul — fruto de anos de treinamento arduo. Embora ainda não tivesse alcançado o caminho marcial, para um lutador comum era uma conquista admirável.
Ondas de luz escura emanaram da ponta da lança, gerando uma força de sucção que parecia drenar todo o ar, fazendo até as folhas caídas das árvores girarem no vento. Aquilo era o verdadeiro poder dos Cavaleiros Caídos; nem mesmo durante os combates com criaturas mágicas Jacques havia usado a técnica de magia negra "Espectro Ascendente".
Quando Jacques lançou a magia negra combinada com a lança, Cormo percebeu que Ilote não teria condições de enfrentá-lo. O adversário iniciava o embate com sua melhor técnica, com intenção mortal. Sem tempo para hesitar, o encantamento brotou em sua mente e, instintivamente, recitou: "Fogo dos Nove Abismos, mil pontos e mil corações, vá!"
No instante do choque, Ilote perdeu toda sua força. A magia negra sugou toda a energia investida na espada, fazendo-a pender como uma cobra extenuada. A espada caiu mole, mas desviou a ponta da lança, cujo impacto o lançou vários metros à distância. Apesar da armadura mágica de proteção criada por Cormo, as múltiplas quedas fizeram com que Ilote cuspisse sangue em névoa. Uma bola de fogo, surgida repentinamente, explodiu em uma rede flamejante, mas logo foi consumida pela magia negra, permitindo a Ilote escapar.
Cormo, de olhos vermelhos, só tinha um objetivo: matar o homem que ferira seu amigo. O desejo de vingança encheu sua mente, e antes que o fogo explodisse, ele se lançou com um movimento estranho, acelerando até ficar a dois metros do cavaleiro mascarado. Então bradou uma maldição em fúria: "Ó Deus da Escuridão, juro pela dragoa abissal, empreste-me seu poder! O Troca do Rei Demônio oferece sua promessa de luz em troca!"
Diante dos olhos atônitos de Pubel e dos demais, Cormo parecia estar no centro de um furacão. Ao longo da lança, a energia de combate explodiu em lâminas de vento capazes de dilacerar qualquer criatura. O vento feroz fez suas vestes girarem e se despedaçarem como borboletas, e seu cabelo negro se elevou ao céu. Movendo-se lentamente, como se o tempo estivesse paralisado, Cormo abriu as mãos e agarrou a lança que vibrava em ondas negras. As duas energias negras colidiram como redemoinhos opostos, distorcendo o ar e produzindo uivos fantasmagóricos. Uma névoa sombria se espalhou, e um sorriso envelhecido apareceu no rosto jovem de Cormo. Os olhos do cavaleiro mascarado se contraíram, seu corpo tremeu intensamente e, antes que pudesse emitir qualquer som, foi lançado para longe, dobrando-se de forma antinatural e voando dez metros.
— Vamos! — gritou ele, e o outro cavaleiro mascarado, recém preparado, não hesitou. Usando uma bomba de fumaça mágica, desapareceu, enquanto Fran e Paulin mal conseguiram detê-lo. Naquele momento, o som de cascos relampejantes ecoou pela trilha, e os cavaleiros do Cavalo do Trovão, percebendo o perigo, se desvencilharam do outro mascarado e voltaram a tempo de ver apenas as silhuetas fugindo.
O uso da magia negra deixou Cormo em estado de delírio. Ele teve que recorrer à meditação para controlar a onda de fúria que ameaçava explodir de seu peito. A sucessão de impulsos violentos o fez vomitar seco, com sangue nos olhos, e a fúria o forçou a sentar-se de olhos fechados, concentrando toda sua energia para suprimir aquilo. Caso entrasse em estado de descontrole, temia nunca mais recuperar o equilíbrio mental. Até o som dos cascos trovejantes não o fez perder a concentração.