Capítulo Oito: Coação e Persuasão (2)

Destino Místico dos Céus Raiz da Sorte 2408 palavras 2026-02-07 12:28:38

A franqueza e sinceridade de Hess fizeram com que Komer mudasse consideravelmente sua impressão sobre ele. Talvez sua própria opinião fosse um tanto subjetiva; o Cáucaso não era uma terra próspera, todos precisavam sobreviver, e escolher um lugar mais adequado para si era, afinal, parte da natureza humana de buscar o melhor e evitar o pior. Lutar por um ambiente de vida melhor também era uma atitude perfeitamente natural.

— Agradeço, senhor Hess, por sua sinceridade. Gostaria ainda de lhe fazer uma pergunta: na sua opinião, comparado com as regiões ao redor, o que pensa do nosso Cáucaso? Estamos em melhor ou pior situação? — O olhar de Komer cravou-se diretamente nos olhos do outro.

— Ora, senhor feudal, creio que nem seria necessário eu responder a essa questão. O Cáucaso está muito tranquilo agora, todos valorizamos essa paz, mas isso é coisa da nossa geração mais velha; já a juventude talvez não pense assim. Para eles, o Cáucaso é isolado e desolado demais. Num raio de centenas de quilômetros, não há cidades ou vilarejos decentes, tampouco ruas movimentadas ou negócios prósperos. Estamos ultrapassados pelo tempo. Em comparação com as regiões bárbaras ao redor, talvez ainda sejamos suportáveis, mas se nos medirmos pelos outros domínios na região de Homero, estamos muito atrás. Até mesmo a desordenada Lyon nos supera, ao menos lá há muita gente e um porto que os liga ao mundo pelas águas. E aqui? Fora alguns aventureiros, quase ninguém de fora vem para cá — respondeu Hess após breve reflexão, com certo tom de resignação.

Antes que Komer pudesse replicar, o jovem calado até então ao lado deles interveio abruptamente:

— O Cáucaso é como uma lagoa estagnada, sem vento, sem tempestade, sem vitalidade, nada além de apatia. É só uma questão de tempo até ser abandonado. Dizem que os antigos senhores eram loucos ou inúteis que só sabiam desfrutar a vida, nunca houve plano ou iniciativa para salvar o Cáucaso. Ano após ano, dia após dia, e basta olhar para as outras terras do continente, todas vibram de energia e vigor, enquanto aqui tudo permanece estagnado. Senhor barão, sendo o novo senhor, nunca pensou em como tornar o Cáucaso mais belo e próspero?

— Neptuno, por que essa falta de respeito? — Hess apressou-se em repreender o filho. No entanto, Komer não pareceu se incomodar; ao contrário, demonstrou interesse pelas palavras do jovem:

— Ora, senhor Hess, o que Neptuno disse não está de todo errado. Com a situação do Cáucaso, não é de se admirar que alguém prefira viver como um vagabundo em Céfalo do que vir para cá e ser um senhor aparentemente elevado. Agora entendo melhor as razões. Senhor Hess, o senhor já viajou muito, viu o mundo. O que temos aqui? Apenas desolação. Falta gente, falta vida. Para um idoso, talvez seja um bom lugar para passar os dias, mas e os jovens? O que será da próxima geração? Vão mesmo passar os dias vendo o nascer e o pôr do sol? Jamais aceitarei que meu domínio se torne um asilo!

— Pois é, pai. Não importa o quanto a situação em Lyon seja complicada, lá há vida, sempre há algo que vale a visita. Seja por terra ou por mar, as mercadorias de Lyon circulam sem parar. Bruce, à margem do porto de Nicea, evoluiu de uma fortaleza isolada para uma cidade vibrante. Sem a prosperidade de Lyon, isso seria possível? Aposto que o senhor testemunhou essa cena invejável ao vir do sul, não foi? — O jovem, embora um tanto impulsivo no tom, foi direto ao ponto, sugerindo sem rodeios a incompetência dos antigos senhores.

Percebendo o descontentamento do filho quanto à situação do Cáucaso e, embora houvesse certo desrespeito pelos antigos senhores em suas palavras, Hess notou também uma afinidade com o novo senhor diante dele. Sentiu-se inquieto. O filho não era tolo, mas em astúcia e experiência com o mundo jamais poderia se comparar a esse senhor, cuja juventude era enganadora. Hess sabia que jovens nobres como este cresciam imersos em intrigas e vilezas, para eles toda sorte de artifício e manobra era natural. Quem lidasse com gente assim, precisava de cautela redobrada.

— Ora, senhor Neptuno, tem razão quanto à prosperidade de Bruce; vi com meus próprios olhos. Mas para o Cáucaso alcançar tal desenvolvimento, não basta falar, é preciso agir. E, pelo que vi em Ugrú, estamos longe do que eu esperava. Isso me desaponta — Komer deu de ombros, lamentando —. Minha intenção era, junto do povo do Cáucaso, transformar estas terras num paraíso ao sul do Reino de Nicósia; mas, ao que parece, fui otimista demais.

— Pois eu digo, senhor, que talvez sua falta de virtudes seja o que impede o povo de confiar em você. Com todo respeito, não vejo nesses nobres mimados qualquer capacidade de mudar o Cáucaso. Se mudarem, será para pior! — O jovem também deu de ombros, respondendo com desprezo e um olhar de profundo desdém.

Interessante, pensou Komer, percebendo o preconceito do rapaz contra nobres como ele. Era um misto de ódio e desprezo pelo mau comportamento dos nobres e de inveja e ciúmes de seus privilégios, sentimentos que juntos criavam esse estranho estado de espírito.

Furioso, Hess conteve a provocação do filho, fazendo sinal para que se retirasse. O jovem lançou a Komer um olhar de desprezo, montou em seu cavalo e partiu a galope. Notando que Komer ainda observava, interessado, a silhueta que se afastava, Hess sentiu-se ainda mais inquieto. Não queria que o filho se envolvesse com aquele homem, cujos olhos frios às vezes pareciam dois abismos insondáveis, impossíveis de decifrar. Nem mesmo um velho aventureiro calejado como ele se sentia à vontade diante daquele olhar.

— Senhor barão, imagino o que deseja conversar comigo hoje, e posso supor o conteúdo. Não tenho muito a acrescentar, mas digo que o Cáucaso pode parecer calmo à superfície, mas por dentro não é tão simples quanto parece. Peço que me perdoe por não poder detalhar mais. Se eu fosse o senhor, delegaria o poder a alguém de confiança e voltaria para Céfalo ou Bruce, levando uma vida tranquila, o que talvez fosse melhor — disse o velho aventureiro, caminhando ao lado de Komer, hesitando antes de expor, finalmente, essa advertência velada, que o senhor compreendeu sem dificuldade.

— Senhor Hess, acha mesmo que posso delegar o poder de senhor a alguém assim tão facilmente? Ora, mesmo que quisesse, não creio que houvesse quem pudesse assumir esse fardo. Entendo o que diz, e agradeço sua intenção. O caminho do senhor feudal não se anuncia fácil, mas creio que posso segui-lo. Quanto ao resto, não já tive provas suficientes? Os ataques dos lobos cinzentos, o atentado do cavaleiro caído, a emboscada dos bandidos de Lyon... e, no entanto, aqui estou, de pé em terras do Cáucaso — disse Komer, endurecendo o semblante, o olhar gélido varrendo o rosto do velho aventureiro, uma frieza que nem mesmo diante de um urso polar se fazia tão cortante.

Sem saber o que responder, Hess limitou-se a permanecer em silêncio.