Capítulo XXI — Aliança Sombria

Destino Místico dos Céus Raiz da Sorte 3859 palavras 2026-02-07 12:28:28

— Eles estão chegando — disse, acompanhando o olhar de Kermor, enquanto uma carruagem simples de quatro rodas aproximava-se vagarosamente da mansão do conde. O emblema do cavalo alado em voo, nítido na porta do veículo, era a marca exclusiva da realeza de Rosenburg. Com passos firmes, Kermor avançou para recebê-los.

Thomas estava de mau humor; até sua própria irmã percebia que o irmão parecia ter sido derrotado na disputa com Hofmann, e Tracy demonstrava preferência pelo príncipe de Hofmann. O desânimo afetava diretamente a disposição de Thomas: ele não pretendia participar daquele baile sem importância, mas ao saber que Tracy estaria presente e considerando que no dia seguinte teria de partir de Jazair para retornar ao seu país, acabou cedendo à emoção e aceitou o convite. Sabia que Hofmann também estaria ao lado de Tracy, mas queria ao menos ver sua angelical amada mais uma vez.

— Príncipe Thomas, Princesa Dou Vert, é uma alegria encontrá-los — saudou Kermor, sorrindo, ao ver os criados abrirem a porta da carruagem, de onde desceram um homem e uma mulher.

— Você? Barão Kermor? Também veio ao baile hoje? — O príncipe, com expressão sombria, ergueu as sobrancelhas com desdém. Será que até nobres de menor estirpe estavam convidados? Se soubesse, teria mesmo desistido de vir.

— Não, não, há um engano. Festas de alta sociedade não são para alguém como eu. Soube apenas que Vossa Alteza partirá amanhã para casa e gostaria de lhe oferecer um pequeno presente — explicou Kermor, percebendo o desprezo nos olhos do príncipe, enquanto a princesa Dou Vert e um homem de aparência austera, provavelmente um mordomo, voltavam suas atenções para ele pela primeira vez.

— Um presente? — Thomas ficou surpreso e finalmente olhou Kermor com seriedade, sem esconder a dúvida. — Barão Kermor, creio que se enganou. Não sou o príncipe Hofmann. Penso que deveria procurar por ele — disse, intrigado pelo fato de um barão das terras remotas de Nicósia querer presenteá-lo, e não ao representante do rei, Hofmann. Não conseguia compreender.

— Alteza, acha que eu poderia confundir o destinatário de meu próprio presente? — Kermor sorriu, negando com a cabeça. — O presente é para quem sabe apreciá-lo.

Sem mais palavras, Kermor entregou com ambas as mãos ao príncipe Thomas, ainda perplexo, uma pequena caixa de madeira, que o criado Pubber lhe passara.

Thomas hesitou, mas, vendo que o barão insistia, não quis recusar. Não imaginava que tipo de presente poderia receber, mas ao pegar a caixa, percebeu imediatamente sua excelência. Era feita de madeira de areia negra, com inscrições em prata, uma língua arcana gravada com runas mágicas. Thomas não era mago, mas como membro da família real de Rosenburg, tinha considerável conhecimento sobre magia, julgando-se já um estudioso. Reconheceu de pronto a beleza e o requinte do artefato.

A madeira não era das mais preciosas, mas servia como excelente condutor de elementos mágicos, indicando que seu conteúdo seria algo relacionado à magia. As inscrições em prata pareciam feitiços de proteção, capazes de resguardar o objeto de influências externas. Na parte frontal, um pequeno orifício sugeria tratar-se de uma besta, uma arma oculta.

Ao tocar a caixa, Thomas foi imediatamente absorvido pela análise da peça. O formato antigo e as bordas suavizadas indicavam que era um objeto de longa data, provavelmente uma arma secreta. Apertando delicadamente o botão na lateral, a caixa abriu-se sozinha, revelando um intrincado mecanismo de mola e flechas de reserva.

Thomas quase tremeu ao examinar a engenhosidade da peça; seus olhos brilhavam diante daquela obra-prima. Em seu coração, só havia espaço para a harmonia e a perfeição ao descrever o artefato. Não era apenas uma arma, era uma verdadeira obra de arte, e chamá-la de arma seria profaná-la, ainda que possuísse funções bélicas.

A mola, negra e reluzente, cintilava dentro da caixa, irradiando uma aura mágica. Era evidentemente feita de metal encantado; ao toque dos dedos, podia-se sentir a energia pulsante. Só aquela mola custaria uma fortuna, não apenas pela dificuldade de extrair e fundir o metal mágico, mas por sua complexidade de fabricação. Poucos mestres artesãos, sobretudo entre os anões, conseguiam tal façanha, e persuadir um anão a dedicar-se a um trabalho desses era tarefa mais difícil que adquirir um tesouro em leilão.

O corpo da flecha era de madeira solar, algo raro — mas possível de conseguir —, enquanto a ponta era de ouro ígneo, uma novidade. Combinar ouro ígneo com madeira solar exigia grande habilidade. As penas vinham do pássaro Ventaro, considerado divino e raríssimo, encontrado apenas em florestas primordiais do sul. Suas plumas garantiam velocidade fenomenal à flecha, mas era quase um desperdício, dada a raridade da ave.

Encantado com a peça, Thomas quase esqueceu do propósito da noite, absorto em apreciar o presente. Só quando a jovem ao seu lado o tocou suavemente, voltou da contemplação.

Recobrando o controle, Thomas retomou a postura fria de príncipe, mas não pôde negar que o artefato lhe agradava. Devolveu-o calmamente a Kermor, que, no entanto, percebeu a hesitação nos olhos de Thomas.

— Reconheço, é um excelente objeto, mas não posso aceitá-lo — declarou, recuperando seu habitual tom. — Se o senhor estiver disposto a negociar, pode ser que eu me interesse.

— Alteza parece duvidar de minhas intenções? Kermor não é mercador, apenas deseja, como um amigo, demonstrar alguma consideração — respondeu Kermor, com uma sobrancelha arqueada e tom frio. — Se nem isso pode acreditar, nada mais tenho a dizer.

Recebendo de volta a caixa, Kermor fez uma leve reverência e disse educadamente:

— Não quero perturbá-los mais, Vossa Alteza.

— Barão Kermor, espere um instante — o homem maduro, conhecedor dos gostos de seu senhor, sorriu, detendo os três que se preparavam para partir. — Peço que nos explique, barão, por que oferece um presente tão valioso ao meu príncipe?

Antes que Kermor respondesse, a jovem de olhos límpidos falou friamente:

— Barão, não vou esconder: meu irmão gostou muito do presente, mas nunca aceitamos dádivas sem motivo. Se puder nos explicar o porquê, ficaremos agradecidos.

Thomas e os outros não desconfiavam da origem da besta, pois Kermor era nobre, recém-empossado com terras, ainda que situadas em região remota e árida. O que lhes preocupava era se haveria alguma intenção oculta por trás do presente.

Kermor compreendia bem a cautela deles. Como figura importante no reino, era natural que pensassem primeiro nos interesses do país. Mesmo que gostasse do objeto, Thomas não ultrapassaria a razão por algo sem valor real. Se não lhes desse um motivo plausível, sua visita seria um fracasso.

— Compreendo, alteza. Kermor, ainda que humilde, não faria nada imprudente só por causa de um presente — começou, esperando que todos os olhares se voltassem para ele antes de continuar com um sorriso resignado. — Vossa Alteza deve saber que fui agraciado pelo duque com terras no Cáucaso, região difícil, com dois ou três mil habitantes, onde a sobrevivência é árdua. O maior problema é o alimento; as rotas do norte e do sul são complicadas, só o rio Catânia atravessa a região. Os piratas a leste são perigosos, tornando a via marítima arriscada. A melhor rota de transporte passa pelo vosso país. Por isso, venho humildemente pedir que, se possível, facilitem esse acesso.

Kermor falou com naturalidade, sem esconder seus propósitos. Diante de pessoas honestas, não há espaço para mentiras; era a melhor forma de conquistar confiança.

Antes que Thomas respondesse, a jovem reagiu com surpresa:

— Barão, parece que esqueceu o que existe na região central do rio Catânia, não?

— Não, alteza, sei muito bem. Mas acredito que não seja obstáculo intransponível. Quero dizer: se eu conseguir solucionar esse problema, Vossa Alteza aceitaria meu pedido? — Kermor manteve a serenidade, sem revelar emoções.

Trocando olhares, Thomas e Dou Vert ficaram impressionados com a ideia de Kermor. Aquela zona pantanosa era território dos Medusianos, povo alheio ao mundo humano, adaptado à vida aquática, com habilidades singulares. O grande pântano, incluindo o trecho central do rio Catânia, era seu domínio, e detestavam intrusos. Por séculos, o ducado de Rosenburg tentou abrir a rota, buscando uma via estratégica de transporte, mas nunca conseguiu. Os Medusianos, hostis, nem sequer recebiam emissários, e as embarcações de guerra de Rosenburg enviadas à força tornaram-se destroços no rio. Enfrentar os Medusianos em seu habitat era impossível para a marinha de Rosenburg.

Thomas, que há pouco estava fascinado pela besta, agora voltava sua atenção à proposta de Kermor:

— Barão, disse que pode resolver o problema dos Medusianos e tornar o rio Catânia navegável?

— Não, alteza, não é tão simples resolver os Medusianos — Kermor negou, sorrindo. — Vosso país tentou de tudo e não conseguiu. Tenho apenas um projeto; se conseguir obter o consentimento deles, Vossa Alteza aceitaria meu pedido?

Desiludido, Thomas retirou o olhar, achando improvável, e voltou a atenção à caixa nas mãos de Kermor.

— Se de fato conseguir resolver isso, não apenas importaremos alimentos de Rosenburg, mas qualquer condição poderá ser negociada. Só temo que ninguém consiga tal façanha.

— Então, alteza, fica combinado: caso esse dia realmente chegue, espero apenas que guarde sua palavra. Nada mais desejo. Esta besta encantada é um tesouro desperdiçado em minhas mãos; não tenho grande interesse por esse tipo de coisa. Ouvi dizer que Vossa Alteza aprecia objetos assim, então quis lhe oferecer como lembrança de sua passagem por Seplous. Nada mais.

Com um sorriso, Kermor entregou novamente a caixa.