Capítulo Quatorze – Alianças
Como era de se esperar, quando Ramla Recer apareceu para explicar a situação diante da guilda, os comerciantes cederam. Sendo o chefe das finanças mais confiável diante do Duque Filipe, a posição peculiar de Ramla Recer era bem compreendida pelos comerciantes. Um negócio, mesmo sendo grande, não significava muito para aqueles cuja riqueza rivalizava com a de um reino. Além disso, a explicação do chefe das finanças era, no mínimo, aceitável: ajudava um amigo, ainda que esse amigo fosse um bárbaro desprezível.
Ao pronunciar essa justificativa apertando os dentes, Ramla Recer imaginou o quanto seriam embaraçosos os olhares misturados de surpresa e desdém dos comerciantes. Como nobre, mesmo sem direito à herança, sua posição era muito distinta da de um plebeu. No entanto, chamar de amigo um bárbaro, desprezado inclusive pelos plebeus, era algo impensável; afinal, o termo "amigo" não era usado de qualquer maneira. Poderia se referir a um parceiro comercial ou a um vizinho de infância, mas jamais deveria designar alguém de posição tão discrepante. Tal declaração era inédita e, provavelmente, no dia seguinte, correria por toda a cidade de Ceplus. Assim que as palavras escaparam, Ramla arrependeu-se, mas já não havia volta: só lhe restava enfrentar a situação com coragem. Começou a considerar se, talvez, seu filho rebelde tivesse razão ao dizer que, se não encontrasse um modo de expulsá-lo da cidade, acabaria por trazer mais problemas e vergonha.
No Bar Céu da Noite, Kormer, aborrecido, ergueu um grande copo de cerveja de centeio e bebeu de um só gole. O rosto pálido ganhou um leve rubor de sangue, e o sabor amargo da cerveja trouxe-lhe certa sensação de frescor, aliviando parte de seu aborrecimento.
Na verdade, não havia motivo para preocupação. Pelo contrário, Kormer havia fechado um excelente negócio de minério com um comerciante itinerante vindo da Cidade da Fênix, no oeste, e por um preço ainda maior do que previra. Isso lhe permitiu compreender profundamente por que o Duque Filipe lutava tanto para manter a liberdade de Ceplus e por que os comerciantes locais eram tão ricos quanto soberanos.
Kormer reservou apenas algumas pedras especiais para futuras criações e, sem hesitar, vendeu todo o restante ao comerciante da Cidade da Fênix. Para evitar problemas oriundos de ressentimento e hostilidade dos comerciantes, Kormer fez com que os bárbaros transferissem a mercadoria durante a noite para o navio do comerciante. O empenho foi tal que o comprador chegou a suspeitar da origem dos bens, mas, ao descobrir a verdadeira identidade de Kormer, compreendeu as dificuldades de um nobre não primogênito prestes a atingir a maioridade. Generosamente, entregou-lhe um grande saco de moedas de ouro e deixou um endereço de contato, gesto que deixou Kormer envolto na sensação de amizade por muito tempo.
O negócio estava encerrado. Kormer não lucrou nada, entregou tudo ao chefe dos bárbaros e o apresentou a um comerciante honesto de alimentos, pois era impossível reunir mantimentos de imediato. Fez o que podia, e o comerciante, reconhecendo sua identidade, não dificultou para os bárbaros.
Os bárbaros não pareciam sentir grande gratidão; ao partir, o líder deu a Kormer uma simples pulseira de contas de madeira, sem sequer agradecer. Após examinar várias vezes e confirmar que era apenas uma pulseira comum, Kormer sentiu-se profundamente frustrado. Esperava, através desse contato, estabelecer uma via de ganhos, mas os bárbaros não se interessaram, mesmo após suas tentativas de convencimento. Era claro que ouviram apenas por gratidão, sem real entusiasmo.
Decadência, decadência... ou explodimos nela, ou morremos nela. Quem teria dito isso? De fato, a decadência tem seu encanto: permite viver em um estado de semi-flutuação, sem objetivos, sem buscas, sem nada, apenas anestesia, tanto do álcool quanto da mente. Mas seria possível viver assim para sempre? Se existisse tal benção, talvez realmente se apaixonasse por esse estilo de vida dissoluto, de luzes e excessos.
“Chefe, por que resolveu vir aqui de repente?” A voz elegante que veio de trás era inconfundível; Kormer sabia ser seu velho amigo Pubber.
“Pubber, lembra como costumávamos adorar este lugar? As ruas movimentadas, as sensações maravilhosas... Nada mudou aqui, mas nós mudamos.” Kormer não se virou; sua voz era baixa, repleta de emoção sincera. “Os dias felizes se foram, não voltarão. E agora, para onde devemos ir?”
Pubber permaneceu calado. Desde o retorno de Kormer do exílio, notou que o antigo chefe, antes audacioso e irreverente, havia mudado, tornando-se mais sensível e frio. Contudo, ao observar atentamente, percebia que o espírito selvagem ainda corria em seu sangue, apenas melhor disfarçado.
“Chefe, está preocupado com o que será de nós após a cerimônia de maioridade?” Só depois de muito tempo Pubber perguntou, com voz fraca.
“Não exatamente. Apenas fiquei nostálgico ao ver este velho cenário. E você, sua família já falou sobre seu futuro?” Kormer balançou a cabeça e indagou.
“Ah, sempre as mesmas duas opções: ou me dão dinheiro para ir embora, ou me concedem um pequeno feudo para me virar sozinho. Com nossa capacidade de sobrevivência, não levaria muitos dias para acabarmos como aqueles malucos ali.” Pubber falou baixo, apontando para uma rua distante do bairro pobre, onde alguns vagabundos perambulavam. “Eles eram como nós, mas em poucos anos se tornaram aquilo. Talvez esse seja nosso futuro.”
Pubber exagerava, mas Kormer não podia negar que havia verdade em suas palavras. Acostumados com a vida luxuosa, seria difícil adaptar-se repentinamente a uma existência de preocupações com agulha e linha. Talvez Kormer tolerasse melhor, mas Pubber e Ilote provavelmente sofreriam ainda mais. Diante de apenas duas opções, um pequeno feudo em uma aldeia remota poderia sustentar alguém? O pensamento trouxe novo desânimo a Kormer.
“Pubber, você estudou alguns anos na Cidade da Fênix, não poderia arranjar um emprego em algum departamento da cidade? Pelo menos garantiria o sustento. Ilote também pode voltar ao ofício de soldado; parece que sua família o trata melhor.”
“Isso é graças à mãe dele, que é esposa legítima, diferente de nós. Mas acho que os dias dele estão contados. Ao atingir a maioridade, a mãe pouco poderá ajudá-lo, no máximo, enganá-la para conseguir algum dinheiro.”
“O mundo é tão vasto, será que não há uma forma de sobrevivermos?” Kormer animou-se, talvez estimulado pela prostituta voluptuosa que flertava com o garçom do outro lado. Sentiu uma inquietação inexplicável, querendo extravasar, porém os anos de exílio lhe ensinaram a maturidade; evitava cometer erros tolos, reprimia os desejos e afogava-os em cerveja.
“Formas de ganhar a vida há muitas, mas viver como hoje, despreocupado, será difícil.” Pubber analisou friamente. “Especialmente porque nossa reputação em Ceplus é péssima, e você ainda irritou a guilda. Aproveitou o nome de seu pai, mas, ao sair, não terá essa proteção. Aliás, por que deu todo o dinheiro aos bárbaros? Não pretendia lucrar?”
“Não vale a pena se apegar a pequenos lucros; é preciso pensar a longo prazo. Talvez no futuro eles nos tragam mais benefícios.” Kormer já sentia remorso por sua generosidade, mal sabia por que fora tão impulsivo. Agora, prestes a deixar o lar, sem reservas, era compreensível que os amigos não entendessem, mas só podia defender sua postura de cavaleiro.
“Pequenos lucros?” Até Pubber, normalmente calmo, não pôde deixar de protestar. “Chefe, você fala como se fosse fácil. Nenhum de nós é rico; não digo para ficarmos com tudo, mas ao menos deveríamos pegar uma boa parte. Arriscamos muito, sabemos o que significa enfrentar a guilda; dividir o lucro não era demais. E você, com um gesto, perdeu pelo menos trinta mil moedas de ouro.”
“Já foi, não adianta lamentar. Hoje não viemos discutir isso, certo?” Kormer sabia que estava errado, pois o plano inicial era aproveitar a oportunidade para garantir algum fundo para os dias difíceis que viriam, mas sua impulsividade destruiu tudo.
Pubber se enfurecia só de lembrar, mas a iniciativa fora de Kormer, ele e Ilote apenas seguiram. Não podia cobrar demais, mas ver tanto dinheiro escapar era difícil de aceitar.
Após alguns suspiros, Pubber calou-se, e Kormer também sentiu que agira contra o propósito do trio. Ilote nunca ligou para dinheiro, mas Pubber, sempre meticuloso, era o mais astuto dos três, e não podia aceitar perder uma soma assim. Não era culpa dele.
“Pubber, realmente fui precipitado. Já passou, não insista mais nisso, está bem?”
Percebendo que Kormer falava com mais humildade, Pubber finalmente resmungou, sinalizando que o perdoava.