Capítulo Oito – Estranheza

Destino Místico dos Céus Raiz da Sorte 2631 palavras 2026-02-07 12:28:30

Vendo que os guardas já haviam levantado o homem e o levavam de volta, Cormo e Ilote perceberam que havia algo nas palavras de Piro. Cormo franziu a testa e perguntou:
— Senhor Piro, parece haver algum segredo por trás da queda e destruição do Ducado de Mairen desta vez?

Piro hesitou por um instante, ponderando se valia a pena tratar daquele assunto com eles. Embora para quem estivesse bem informado o tema talvez não fosse um segredo especialmente grave, envolvia as altas esferas do reino, e ele, sendo de origem mercantil, preferia evitar o tema. Após pensar um pouco, respondeu evasivo:
— Senhor Barão, não é que eu não queira falar, mas talvez haja muitos detalhes difíceis de explicar por ora. Creio que não demorará muito para que vossa senhoria venha a saber.

Cormo deu de ombros, compreendendo a cautela do outro. No entanto, aquilo já não lhe dizia respeito: estava prestes a partir para o Cáucaso, e mesmo que a situação no norte se agravasse, não seria mais de sua conta. Contudo, aquele escravo de antes, que tivera a clavícula perfurada, parecia realmente habilidoso; e, indo para tão longe, talvez dois ajudantes fossem úteis, mesmo que fosse apenas para servirem de escudo em alguma emergência.

Sorrindo descontraído, Cormo recolheu o pé que já ia subir na carruagem e virou-se:
— Senhor Piro, gostaria de saber: quantos escravos de qualidade como aquele do momento há por aqui?

Piro, sempre astuto, logo entendeu:
— Oh, perdoe-me, mas além dele, creio que só há mais um escravo do Ducado de Mairen. Havia mais alguns, mas quase todos estavam gravemente feridos. Na viagem de retorno, sem condições médicas adequadas, acabaram morrendo, restando apenas dois com ferimentos menores. Não imaginei que ainda causariam confusão. Se vossa senhoria não se importar, permita-me oferecê-los como presente pessoal.

A perspicácia do comerciante agradou muito a Cormo. Era evidente sua origem numa família de mercadores: entendia a intenção do cliente melhor que ninguém, antecipando-se até mesmo a um simples questionamento. Nem deixava espaço para agradecimentos. Cormo assentiu e respondeu sorrindo:
— Tamanha generosidade será lembrada por mim, não direi mais nada.

Piro encolheu os ombros com elegância, abrindo as mãos e, com o mesmo tom bem-humorado, disse:
— Sempre pensamos nos nossos clientes. É o princípio comercial da família Feller há cem anos. Espero que vossa senhoria aceite nossa consideração.

Na volta, além da carruagem de Cormo e Ilote, seguia uma carroça coberta, onde estavam os quatro escravos, logo atrás deles. Cormo não se preocupava com possíveis fugas. Primeiro, a região de Roma era extremamente rigorosa no controle de escravos foragidos. Além disso, um dos escravos estava gravemente ferido e, sem tratamento imediato, provavelmente não sobreviveria mais que alguns dias. Uma simples frase de Cormo — “Se quiser viver, siga-me docilmente” — bastou para que o outrora indomável soldado do Ducado de Mairen se submetesse sem mais resistência.

De volta à mansão, Cormo chamou o mordomo Sanders, ordenando que acomodasse os dois no anexo dos fundos e lhes providenciasse roupas. Com a partida iminente de Cormo para uma missão suicida no Cáucaso, ninguém queria criar-lhe problemas, nem mesmo seu irmão, com quem nunca se deu bem, o que raramente acontecia, pedira desculpas por sua grosseria anterior. Sanders, claro, não buscaria aborrecimentos, e atendeu cortêsmente às ordens.

O homem deitado na cama era pouco mais velho que trinta anos, com corpo robusto, mas em estado febril. O ferimento de flecha no lado do tórax atingira os órgãos internos; o pus que saía sem cessar indicava fraqueza extrema, e sem tratamento logo morreria. O rosto pálido e magro denunciava falta de alimento, mas os olhos cinza-azulados, fundos, ainda reluziam, sem aquele olhar de quem está à beira da morte.

Vendo o jovem senhor examinar atentamente seu companheiro, o outro, em pé ao lado, não conteve as lágrimas, ajoelhando-se:
— Bauren suplica ao senhor: salve-o, ele não pode morrer.

Cormo franziu a testa e disse em tom grave:
— Levante-se! Antes de tudo, não disse que não o salvaria. Agora, vocês dois são minha propriedade; não ficarei indiferente. Em segundo lugar, se poderei salvá-lo, dependerá de sua constituição. O ferimento de flecha é grave e já perdeu o melhor momento para tratamento. Farei o meu melhor.

Deitado, o homem também falou em voz firme:
— Bauren, levante-se. Não ponha o senhor em dificuldade. Vida e morte têm seus destinos, riqueza e sorte pertencem aos céus; não é algo que remédios possam decidir. Estou grato pela intenção do senhor, não tenho mais arrependimentos.

Surpreso, Cormo lançou um olhar ao homem na cama, cuja serenidade destoava totalmente da ideia que tinha sobre escravos. Refletiu: talvez ele fosse mesmo um oficial do Ducado de Mairen, o que explicaria sua postura. Ainda assim, Cormo passou a nutrir simpatia por ele.

Assentiu e, fitando aquele olhar tranquilo como a água, disse:
— Não perca as esperanças. O ferimento é grave, mas não incurável. A forte vontade de viver pode aumentar suas chances. Espero que compreenda isso e tenha sorte.

De volta ao seu gabinete escuro, Cormo sentou-se em silêncio diante da escrivaninha, refletindo. O ferimento do escravo era muito sério; com remédios comuns e métodos tradicionais, havia pouca esperança. Mas, pelo brilho fugaz nos olhos daquele homem, Cormo percebia que não era alguém comum. Sentia falta de auxiliares: Ilote e Pubar eram leais, mas inexperientes. Não sabia o que encontraria no Cáucaso e não queria enfrentar sozinho um mundo desconhecido.

Restava arriscar. Cormo nunca dominara a magia branca. Além das poucas lições do mestre, quase nunca a praticara; preferia o conhecimento de fitoterapia aprendido com curandeiros orcs, a lançar magia em si mesmo. Considerava a magia um meio de manipular a energia do mundo para alterar a matéria, mas usá-la em si próprio era quase um desafio ao destino, algo que, segundo seu mestre, era pura fantasia e delírio. Ainda assim, Cormo teimava em acreditar nisso.

Só com magia branca talvez acelerasse a recuperação da ferida, mas não resolveria o dano profundo: lesões internas afetam a essência vital, aquilo que guerreiros chamam de energia fundamental, e não pode ser restaurada apenas com poder emprestado do exterior. Era preciso combinar com remédios fortalecedores, para que o efeito fosse completo. E, claro, a vontade de sobreviver do próprio paciente era fundamental; do contrário, a cura mágica poderia coincidir com a morte.

Com um gesto, fez flutuar do ar um velho saco de couro. Com calma, tirou dele algumas ervas, separou as escolhidas e colocou-as numa taça de ônix. Logo, lançou os ingredientes no recipiente e aproveitou para praticar sua técnica de manipulação, recitando baixinho um encantamento. O pilão de ônix, como se movido por mãos invisíveis, começou a girar lentamente, triturando as ervas. Quem visse a cena pensaria estar diante de um fantasma.

O som agudo do pilão no silêncio era quase ensurdecedor. No ambiente sombrio, apenas os olhos frios de Cormo brilhavam na penumbra, e seus lábios tremiam levemente. Um murmúrio mal audível escapava de sua boca, enquanto o suor perlava sua testa.

Após algum tempo, Cormo respirou fundo. O pilão tombou, repousando de lado na taça, trazendo de volta o silêncio. Só então, descansado, ele o ergueu de novo para continuar o trabalho interrompido.