Capítulo Três: Fuga em Segredo
Todo o seu corpo estremeceu; no rosto do jovem agora se via um fervor de incredulidade e júbilo. Ele quase não podia se conter de tanto desejo, como se quisesse pular sobre o cadáver e beijá-lo ali mesmo. Meu Deus, que corpo magnífico era aquele! Do fundo do coração, o jovem sentia uma imensa gratidão pelos cavaleiros de Relâmpago que haviam surgido ali; se não fosse por eles, que por acaso perseguiram e mataram aquele homem justamente naquele lugar, aquele cadáver de qualidade excepcional teria apodrecido em vão ou, pior ainda, caído nas mãos de outra pessoa.
Ele girou algumas vezes ao redor da cova, observando atentamente cada parte do cadáver. As pernas longas eram um pouco magras, mas mesmo sob as calças, era possível perceber que eram bastante elásticas; pernas claramente feitas para correr. A cintura estreita conectava o corpo de forma compacta, enquanto as mãos, já começando a amarelecer, pareciam muito ágeis—provavelmente um requisito essencial para um ladrão profissional. O jovem não gostava de ladrões, mas sabia que, naquele continente, ser ladrão não bastava; além da habilidade de fuga e do talento para o roubo, era preciso possuir técnicas de combate superiores para sobreviver. Afinal, qualquer um poderia ser caçado ou emboscado, e isso era ainda mais verdade para ladrões excepcionais. Nessas situações, a habilidade marcial era a única garantia real de sobrevivência.
Os pulsos do cadáver eram proporcionais e fortes, os dedos delicados e precisos, as pontas dos dedos lisas, e a base do polegar apresentava calos espessos—claramente um exímio espadachim. Sim, devia ser como os cavaleiros de Relâmpago disseram: aquele sujeito morrera envenenado por madeira de samambaia, que deixava a pele amarela e impregnava o corpo inteiro com veneno mortal. O veneno matava ao menor contato com o sangue, e mesmo guerreiros orcos ou bárbaros, de constituição sobre-humana, não resistiam. Se ele pudesse transformar aquele corpo em um dos seus guerreiros necromantes, seu poder aumentaria enormemente—muito mais do que compensaria a perda dos seus antigos servos. A ideia fez o jovem sorrir abertamente, mesmo que isso fizesse sua ferida se abrir novamente, fazendo o sangue escorrer lentamente pelo canto da boca.
Pegou do bolso um par de luvas finas, já amareladas pelo tempo, e as calçou com cuidado. Abaixou-se e examinou minuciosamente cada articulação e osso do cadáver, testando sua flexibilidade. Era, de fato, um corpo notável, digno dos elogios dos cavaleiros de Relâmpago e, sem dúvida, não era um personagem qualquer. Os músculos salientes e os tendões suaves das pernas mostravam que o homem havia treinado arduamente habilidades de corrida e salto. O veneno de samambaia, além de causar morte instantânea, não danificara em nada o restante do corpo. Se conseguisse refiná-lo até transformá-lo em um cadáver dourado de cem forjas, teria um aliado formidável; mesmo diante de bestas mágicas ou criaturas fantasmagóricas, suas chances de escapar aumentariam consideravelmente.
Se era um ladrão, será que não carregava consigo algum objeto valioso ou desejado? Após checar o estado do corpo, o jovem respirou fundo algumas vezes, lembrando-se de repente dessa possibilidade, e seu coração começou a bater forte. Os cavaleiros de Relâmpago não hesitaram em matá-lo com flechas envenenadas—será que ele roubara algum artefato ou relíquia da Igreja da Luz? Contudo, apesar de estar escondido debaixo da terra, o jovem conseguira escutar parte da conversa entre os cavaleiros e o tal protetor da fé, graças ao seu dom de captar vibrações pelo solo. Não mencionaram a identidade ou os feitos do ladrão, nem pareciam tencionar revistar o corpo. Por que, então, um grupo de cavaleiros de tão alto escalão se mobilizaria para caçar um simples ladrão? Qual seria o real motivo?
Coçando a cabeça, o jovem não conseguia entender. Não parecia haver inimizade pessoal entre eles, e mesmo que houvesse, os cavaleiros de Relâmpago, conhecidos por sua integridade, não matariam alguém sem razão. Por que, então, usaram veneno mortal e flechas de samambaia? Era incompreensível. Talvez fosse melhor não saber. Certas verdades, se compreendidas, poderiam tornar sua permanência naquele mundo muito mais difícil. Isso, ao menos, ele entendia perfeitamente.
Deixando de lado esses pensamentos inúteis, o jovem voltou a se concentrar no cadáver diante de si, cujas origens eram, no mínimo, misteriosas. Suas mãos começaram a vasculhar, ágeis, cada centímetro do corpo. Logo um sorriso de satisfação aflorou em seus lábios: do lado direito do peito, encontrou uma pedra de cristal do tamanho de um pequeno espelho redondo. Era uma pedra de jade, perfeitamente polida, irradiando um anel de luz azulada e misteriosa sob o sol, de uma beleza hipnotizante. O jovem sentiu claramente a energia mágica que vibrava naquela pedra—não era uma pedra comum, mas uma pedra mágica com propriedades especiais. Ele, que não era grande conhecedor de magia, não sabia exatamente do que se tratava, mas sabia que valia uma fortuna.
Sem cerimônia, guardou a pedra no bolso, e continuou vasculhando o corpo. Novamente sorriu, ao encontrar uma pequena besta de bolso, elegante e delicada, presa discretamente à cintura do cadáver. Era uma caixa de besta padrão, fina e alongada, com arestas arredondadas e lisas, evidentemente fruto de um trabalho artesanal excepcional. Em ambos os lados da caixa estavam gravados, em letras prateadas e antigas, dois feitiços, sóbrios e austeros. Havia um compartimento secreto na extremidade traseira; bastou um leve pressionar com o dedo para que a tampa deslizasse, revelando nove flechas douradas repousando tranquilamente lá dentro. Com as três que já estavam carregadas, formavam exatamente uma dúzia—doze dardos letais.
O jovem prendeu a respiração. Se ainda não sabia o valor da pedra, a besta, sem dúvida, o deixou verdadeiramente impressionado. Era uma arma extraordinária; pela beleza do trabalho, era certo que só poderia ter sido feita por um mestre anão das fronteiras ocidentais ou por um artesão élfico de renome das florestas distantes. Humanos jamais conseguiriam criar uma arma que unisse arte e funcionalidade de forma tão perfeita. O mecanismo mágico negro, que exalava um brilho sombrio, era feito de algum metal mágico raro; ao tocá-lo, o jovem sentiu a energia vibrar intensamente sob seus dedos. Não sabia a que tipo pertencia tal metal, pois era raríssimo. A caixa, de estilo antigo, fora feita de madeira de acácia, ideal para conservar elementos mágicos. Os dardos brilhavam com um dourado intenso, parecendo chamas dançantes—eram feitos de madeira solar, uma rara fusão de elementos de fogo e madeira, dos melhores materiais para esse fim. As pontas das flechas, feitas de ouro de fogo, valiam uma fortuna; só o custo desse metal seria suficiente para falir uma família comum.
O jovem sentiu um arrepio. Como podia alguém que possuía semelhante tesouro ser abandonado morto em um campo deserto? E seus assassinos, ninguém menos que os célebres cavaleiros de Relâmpago? Que mistério era aquele? Inquieto, levantou-se e olhou em volta, temendo que alguém o visse naquela cena, principalmente os próprios cavaleiros. Se soubessem que ele presenciara o ocorrido, certamente não o deixariam sair vivo dali.
Aterrorizado, concluiu que não era nada sensato permanecer ali por mais tempo. Se os cavaleiros de Relâmpago voltassem, teria o mesmo fim que o cadáver. Sem hesitar, escondeu a besta no bolso, vasculhou uma última vez a cintura do morto e encontrou um anel cinzento, sem brilho, e um velho pergaminho de couro. Sem tempo para examinar, enfiou ambos às pressas no bolso, levantou-se e murmurou um feitiço. O cadáver se dissolveu numa névoa esbranquiçada, entrando no saco especial que ele já havia preparado. Após arrumar a terra da cova para que ninguém percebesse a diferença, olhou em volta, certificou-se de que tudo estava calmo e sumiu silencioso na floresta, aproveitando a sombra densa para desaparecer.
Pouco depois de sua partida, no horizonte começaram a surgir inúmeras silhuetas; o estrondo de cascos de cavalos ecoava como trovão. Os cavaleiros de Relâmpago estavam de volta. O cavaleiro de meia-idade vinha à frente, galopando direto para a cova. Ao chegarem ao local, bastou uma rápida inspeção para perceberem a mudança na situação.
Com o rosto carregado, o cavaleiro de meia-idade e o mais jovem desmontaram de um salto para examinar minuciosamente cada detalhe da cova, mas os métodos do jovem haviam sido tão cuidadosos que praticamente não deixara vestígios, o que só piorou o humor dos cavaleiros.
Após vasculhar tudo, o cavaleiro jovem se ergueu e balançou a cabeça com desalento:
— Comandante, quem levou o corpo é um especialista. Não deixou qualquer pista, nem mesmo cheiro; usou folhas voláteis para mascarar o odor.
O cavaleiro de meia-idade, embora tenso, manteve a compostura e assentiu:
— Hum, não imaginei que um descuido nosso causaria tamanha confusão. Suspeito que tenha relação com aquele morto-vivo que o Protetor da Fé tentou eliminar com o feitiço sagrado. Quem levou este corpo só pode ser alguém das forças das trevas ou dos mortos. Não é um grupo muito grande.
— Sim, comandante, esse sujeito não deve ter ido longe. Podemos localizá-lo! — disse o cavaleiro, lançando um olhar à floresta próxima. — O que há atrás dessa mata?
Um dos cavaleiros respondeu de pronto:
— Senhor, atrás está o rio Moray. Não longe daqui há um movimentado cais, onde muitos barcos param para abastecer.
— Vamos, depressa! — ordenou o comandante, montando e partindo à frente sem hesitação.