Capítulo Sete: Os Bárbaros
Ao ver um grupo de indivíduos vestidos de maneira extravagante caminhar diretamente em sua direção, o robusto homem à frente ficou imediatamente alerta. Ele podia sentir claramente a aura de perigo sutil emanando do primeiro deles, embora o sorriso em seu rosto não parecesse malicioso. Contudo, naquela cidade de Ceprulos, ele não confiava em ninguém; os mortais, ávidos e gananciosos, tinham corações repletos de desejos impuros, e até o sangue lhes era impregnado de ambições. Não era preciso pensar muito para saber quais eram suas intenções; alguns dos homens ao seu lado, cautelosamente, já haviam pousado as mãos sobre as lâminas pesadas presas à cintura.
Ao se aproximar do grupo de hóspedes corpulentos, Kormer não demonstrou qualquer timidez ou constrangimento. Puxou uma cadeira, sentou-se de maneira desinibida, cruzando as pernas. “Podemos conversar?”
O perfeito domínio do idioma montanhês surpreendeu os homens de físico impressionante, principalmente o grandalhão à frente, cuja expressão era de estupor. Entre os mortais, era raro alguém falar a língua dos montanheses, e aquele sujeito de sorriso insolente parecia ter uma pronúncia impecável, indistinguível da de seus próprios companheiros. Instintivamente, o líder assentiu com a cabeça, mas manteve os olhos fixos em Kormer, como se tentasse penetrar seus pensamentos.
“Não me olhe assim, irmão, não sou má pessoa. Sou apenas alguém comum que gostaria de fazer amizade com vocês. Quem sabe tenhamos afinidade e nos tornemos bons amigos”, disse Kormer, relaxando e sorrindo despreocupadamente. “Ouvi dizer que vocês sofreram mais uma calamidade em seu território?”
Com olhar repleto de cautela, o líder franzia a testa e perguntou de forma ríspida: “Como você sabe falar montanhês?”
Kormer respondeu, rindo: “O que há de estranho nisso? Aprendi com outra pessoa. Por acaso um mortal não pode aprender montanhês?”
Ele compreendia a desconfiança do outro; era incomum um mortal estudar aquela língua, o que tornava suas intenções questionáveis.
O líder balançou a cabeça e, acariciando suavemente a bela pulseira metálica em seu pulso, respondeu com serenidade: “Por favor, não evite a resposta. Se deseja ser nosso amigo, seja honesto e diga a verdade.”
Kormer sorriu, mostrando-se aberto: “Aprendi com meu professor, que faleceu há um ano. Ele não era bárbaro nem orc, era mortal como eu. Onde ele aprendeu montanhês, não sei, nunca me contou.”
“O quê? Um mortal? Como pode um mortal falar montanhês?” murmurou o líder, trocando olhares de dúvida com seus companheiros. Sabia que não conseguiria arrancar mais informações daquele homem, mas sua expressão já era menos rígida. “O que deseja?”
“Não muito. Ouvi dizer que vieram a Ceprulos negociar, mas falta-lhes experiência e foram enganados várias vezes?”, disse Kormer, ainda com aquele ar displicente. Pegou casualmente uma garrafa de aguardente vermelha da mesa e tomou um gole; a intensidade da bebida o fez sentir o rosto aquecer. Balançou a cabeça: “Ótima bebida, mas forte demais para mim.”
O líder ficou surpreso com o comportamento ousado de Kormer; embora não demonstrasse abertamente, sentiu uma inesperada sensação de proximidade. Poucos mortais aceitavam beber junto com bárbaros, mesmo por necessidade comercial, preferiam evitar tal convivência. A atitude de Kormer, ainda que parecesse rude, aproximava-os.
“Os vinhos dos mortais são insípidos, iguais à água, nada comparáveis a uma bebida de sabor forte e alto teor”, comentou um dos homens ao lado do líder, inconformado com a opinião de Kormer.
Bastou um olhar para que o companheiro se calasse. O líder, de rosto largo e marcado, com uma postura franca, fixou os olhos em Kormer e disse diretamente: “Diga logo o que quer. Não gosto de rodeios.”
Kormer assentiu: “Minha reputação não é das melhores, mas prefiro clareza. Vocês, bárbaros, não têm talento para negócios e podem não conseguir trocar suas mercadorias por alimentos suficientes. Se confiarem em mim, posso intermediar; creio que terão uma surpresa.”
O líder ponderou, fitando profundamente os olhos de Kormer. Para sua surpresa, o outro mantinha o sorriso irreverente, sem demonstrar grande sinceridade. Quis recusar, pois nunca confiava em mortais, nem mesmo em transações forçadas pela necessidade. Não sabia quanto lucro os mercadores gananciosos tiravam dos acordos, mas sabia que os alimentos prometidos eram insuficientes. Tentou negociar com outros comerciantes, mas em toda parte sua aparência denunciava que era bárbaro, como se tivesse estampado na testa “fácil de enganar”. Todos recusavam elevar os preços, alegando que em Ceprulos e nas terras de Homero os valores eram os mesmos, sem possibilidade de mudança. Por isso, ele e seus companheiros estavam num beco sem saída, recorrendo à bebida para aliviar o desespero.
As palavras de recusa estavam prestes a sair, mas ele as reteve. Como líder, não podia agir apenas por gosto pessoal; seria irracional. Pensou brevemente e perguntou: “Por que deveríamos confiar em você?”
Kormer balançou a cabeça, demonstrando um certo pesar: “É simples, porque não têm alternativa. O sindicato de comerciantes de Ceprulos já formou uma organização rígida; vocês não têm como romper o monopólio, pelo menos por agora. Confiar em mim pode ser uma escolha sensata. Não tenho garantias absolutas, mas o que posso oferecer é muito mais atraente do que o que conseguem atualmente. Se eu concretizar a primeira transação, o cartel dos comerciantes ficará abalado, e vocês serão os mais beneficiados. Portanto, entreguem-me o melhor que têm.”
O líder finalmente compreendeu as intenções de Kormer. Aceitou mentalmente a proposta, desde que ela fosse realmente cumprida. Havia, porém, uma questão a esclarecer: “E não teme a represália dos comerciantes?”
Interferir em um negócio tão lucrativo nunca passaria impune. Aqueles com grande poder econômico em Ceprulos poderiam se vingar, e qualquer um pensaria duas vezes. A natureza franca dos bárbaros levava o líder a considerar a situação de Kormer, mas também era uma forma de verificar a sinceridade do outro, já que, desconhecendo o território, só podia julgar por métodos simples.
Kormer sorriu de maneira astuta: “Os comerciantes realmente têm poder, mas não nos incomodarão. Ceprulos ainda faz parte do Reino de Nicósia, sob o domínio do Duque Filipe, uma terra de leis que não tolera crimes.” Sua resposta era vaga, mas a confiança transmitida tranquilizou o líder.
Após breve hesitação, o líder assentiu, aceitando a proposta. Vendo que o acordo estava feito, Kormer não perdeu tempo; pediu a Puten, que assistia perplexo à negociação, para redigir um contrato de compra e venda, levando o líder bárbaro a um local reservado para assiná-lo.
Apesar de terem o montanhês como idioma, os bárbaros não possuíam escrita própria; os contratos eram redigidos na língua comum da região do comprador. Os comerciantes exploravam o desconhecimento dos bárbaros quanto às leis e à escrita, aplicando todos os tipos de artifícios, fazendo-os sofrer muito. Em Homero, ninguém queria ajudá-los de verdade; até os juízes desprezavam sua rusticidade, e cada reclamação só resultava em punição. Ao ver Kormer explicar cuidadosamente cada cláusula, o líder bárbaro sentiu-se seguro em sua decisão; se fosse enganado, teria de aceitar, mas a seriedade do outro era suficiente para não distinguir o falso do verdadeiro.
Após acertar os detalhes, Kormer pediu ao grupo que, dali a uma semana, aguardasse uma resposta e divulgasse que as mercadorias haviam sido adquiridas pelo segundo filho da família Reiser, pelo jovem da família Lucas e pelo terceiro herdeiro da família Modo; nada mais seria necessário, apenas esperar. Originalmente, os bárbaros estavam apreensivos, mas ao perceberem que Kormer não levaria os produtos imediatamente, relaxaram e seguiram as instruções fielmente.
Concluindo tudo, Kormer sabia que, ao tomar essa iniciativa, seria impossível voltar à rotina discreta em Ceprulos, mas nunca quis passar a vida ali, pois aquele cotidiano era insípido e sem emoção.