Capítulo Seis: A Família Feller

Destino Místico dos Céus Raiz da Sorte 2618 palavras 2026-02-07 12:28:30

Ao perceber o olhar intenso do pai e do filho fixo em seu rosto, Cormo sabia que, caso sua resposta não os satisfizesse, as consequências poderiam ser imprevisíveis — nem ele mesmo seria capaz de antecipá-las. No entanto, à primeira vista, não parecia haver hostilidade da parte deles; afinal, até mesmo Jacques, debilitado pela doença, aproximava-se dele com tamanha naturalidade. Ainda assim, a expectativa estampada no olhar de ambos lhe causava certa pressão.

— Por que motivo o senhor Pilo e o senhor Jacques demonstram tanto interesse por este anel? — sem responder diretamente à pergunta deles, Cormo manteve-se calmo e natural, seus olhos cinzentos e serenos apenas ligeiramente tingidos de surpresa, de modo que ambos, atentos a qualquer nuance em sua expressão, não conseguiram perceber nada fora do comum.

— Hum, barão, talvez minha pergunta tenha sido um tanto indelicada. Ocorre que este anel guarda uma relação bastante íntima com a família Feller, razão pela qual tomei a liberdade de convidá-lo até aqui — Pilo reconheceu, talvez, o excesso em seu comportamento, mas a urgência em seu coração não lhe permitia agir de outra forma.

— É mesmo? — desviando o olhar dos dois, Cormo ponderou sobre como deveria responder àquela indagação. Não podia dizer que havia retirado o anel de um cadáver; a natureza de seus estudos em necromancia era um segredo que, pelo menos por ora, não poderia ser revelado a ninguém — nem mesmo a Puber e Ilote, companheiros de confiança. Mas também não podia afirmar que o anel fora comprado ou recebido de presente, pois a origem daquela joia era, sem dúvida, especial demais para uma explicação tão simplista. Era, de fato, uma situação difícil de explicar.

Percebendo o constrangimento de Cormo, pai e filho ficaram tensos. Não conseguiam entender como o anel chegara às mãos dele; pelo jeito, o jovem sequer fazia ideia do seu valor e significado — o que os deixava ainda mais intrigados.

— Senhores Jacques e Pilo, quanto às circunstâncias específicas deste anel, peço desculpas, mas antes de compreender toda a situação, não posso divulgá-las. Contudo, posso lhes dizer que pertencia a um amigo meu, que infelizmente foi assassinado. Antes de morrer, confiou-me o anel — Cormo respondeu de forma vaga, sem mentir: afinal, realmente o antigo dono fora vítima de um atentado. Quanto aos detalhes, não se atrevia a compartilhá-los, e aquele meio-termo servia, por ora, para lidar com os dois.

O idoso relaxou de imediato, recostando-se na cadeira de rodas, o olhar tornando-se opaco, enquanto murmurava de cabeça baixa:

— Então ele se foi... Eu já deveria imaginar...

Percebendo o abatimento do pai, Pilo pigarreou discretamente.

— Barão, poderia ao menos descrever as características físicas desse seu amigo? E saber quem foi o responsável pelo assassinato?

— Senhor Pilo, creio que já expliquei que meu amigo me pediu para não compartilhar detalhes. Espero que compreenda — Cormo esquivou-se com gentileza.

O ambiente mergulhou num silêncio repentino. Pilo sabia que suas perguntas haviam passado dos limites — afinal, Cormo era apenas um cliente interessado em adquirir escravos, e ele já o havia desviado do assunto principal. Era compreensível que o jovem demonstrasse certo incômodo.

— Basta, Pilo. O barão já nos concedeu o bastante, somos muito gratos. Ouvi dizer que o senhor pretende partir para o Cáucaso, e hoje veio comprar escravos para preparar essa jornada. O Cáucaso é uma terra mágica e bela; quando jovem, cheguei a passar um tempo por lá. O Castelo de Damolensko não é tão aterrorizante quanto dizem, mas guarda muitos mistérios a serem desvendados. Às vezes, os aventureiros saem frustrados ou até correm perigo. Porém, sinto que o barão encontrará lá o que procura — recobrando-se de seus pensamentos, o idoso, já com o rosto marcado pelo tempo, interrompeu o filho com um gesto e continuou: — Espero que, se puder, retorne a Saiplus outras vezes. Talvez, em nosso próximo encontro, o clima seja mais descontraído. Para me desculpar pela ousadia de hoje, Pilo, acompanhe o barão e escolha alguns escravos adequados; serão um presente da nossa família.

As palavras do idoso não admitiam recusa. Cormo, surpreso, mal podia acreditar: ganharia escravos apenas por ter comparecido àquele encontro? Sentiu-se lisonjeado, mas os anos de exílio e adversidades haviam-lhe conferido uma maturidade incomum para sua idade. Levantou-se, fez uma reverência cortês e agradeceu:

— Um presente digno de respeito não deve ser recusado. Agradeço imensamente pela generosidade, senhor Jacques. Se houver oportunidade, virei visitá-lo novamente.

O passeio subsequente deixou Cormo verdadeiramente impressionado. O imenso solar era formado por alas e alas de residências, quase sem espaços vazios. Na verdade, a família Feller tratava seus escravos, considerados propriedades privadas, de maneira razoável, oferecendo-lhes condições de vida muito melhores do que as propagandeadas pelos abolicionistas mais radicais. Como o próprio Pilo explicava, “qual comerciante desejaria que suas mercadorias fossem danificadas ou sujas antes mesmo de serem vendidas? Isso seria prejuízo certo”.

Cormo calculou por alto: o solar abrigava mais de trezentos escravos de diferentes etnias — inclusive vários meio-orcs e até raros elfos. Pelo preço de mercado, todos aqueles escravos valiam, juntos, mais de cento e cinquenta mil moedas de ouro; e isso era apenas o valor do estoque, o que lhe deu uma nova compreensão do poder dos clãs mercantis de Saiplus.

Pilo rapidamente escolheu para Cormo dois criados: ambos vindos das colinas da fronteira ocidental de Andés. Essa região, situada na divisa do Reino de Nicósia, era palco de conflitos constantes com o Ducado de Sevilha, seu inimigo histórico. Pequenas guerras irrompiam sem cessar, e os habitantes das zonas fronteiriças eram frequentemente capturados e vendidos como escravos por ambos os exércitos. Esses dois jovens, provavelmente, haviam sido levados pelas tropas de Sevilha e, por meio de intermediários, vendidos na região de Homero.

Cormo examinou cuidadosamente a documentação dos rapazes — algo indispensável para a compra e venda de escravos. Ali constavam nomes, origem e o selo oficial de exportação. Com esse documento, a transação era perfeitamente legal, sem receio de complicações futuras.

— Senhor Pilo, agradeço de coração a hospitalidade sua e de seu pai. Foi uma honra conhecê-los — o coche que trouxera Cormo e seus acompanhantes já estava à espera. Pilo, no entanto, não pretendia acompanhá-los de volta à cidade; com um sorriso respondeu:

— Barão, quem deve agradecer sou eu. Vossa senhoria recebeu um feudo ainda tão jovem; acredite, o julgamento de meu pai é sempre justo — não são palavras de mera polidez. Tenho certeza de que encontrará no Cáucaso amplo espaço para prosperar e espero sinceramente revê-lo em breve. Se precisar de algo, basta me avisar.

Cormo recebeu das mãos de Pilo um pesado selo de ferro negro. Ao tocá-lo, percebeu que se tratava do sinete da família Feller — algo raramente concedido a pessoas de fora, exceto em casos de relações extremamente próximas. Isso o surpreendeu ainda mais: embora houvesse recebido dois escravos, o presente de um sinete familiar era sinal de aliança ou parceria, algo muito além do comum. Por mais que tentasse, não conseguia ver em si mesmo alguém merecedor desse privilégio; mesmo sendo, formalmente, senhor do Cáucaso, sabia que essas informações não escapavam àqueles comerciantes bem informados.

Mas, se o gesto possuía uma razão, não cabia a ele recusar. Na situação em que se encontrava, aceitar tal presente era o mais prudente. Assim, aceitou-o com satisfação e preparava-se para agradecer quando, de repente, gritos de combate e o tilintar claro de armas se fizeram ouvir ao longe.