Capítulo Dezessete: Inimigos e Amigos

Destino Místico dos Céus Raiz da Sorte 3281 palavras 2026-02-07 12:28:33

O homem calcula o tigre, o tigre calcula o homem; enquanto Jacques ponderava sobre como lidar primeiro com os dois Cavaleiros Relâmpago antes de tratar do alvo, os próprios Cavaleiros Relâmpago refletiam sobre seus rivais.

— Mare, você viu aqueles três? Quem serão eles? Não consigo imaginar a qual ordem cavaleiresca pertencem. O líder já atingiu um nível inicial de energia de combate, igual a nós, e os outros dois não estão muito atrás. Não faço ideia do que pretendem ao nos esperar aqui — disse o Cavaleiro Green, à frente do grupo, mas sempre atento aos três que mantinham distância.

O cavaleiro de rosto frio lançou um olhar para trás e comentou com indiferença:
— Pela aparência deles, lembram os Cavaleiros Caídos das lendas: um bando de degenerados que se entregam aos prazeres mundanos.

— Cavaleiros Caídos? Aqueles que se julgam acima de tudo, assassinos e hereges? — Green ficou surpreso. Ele já ouvira falar deles; era uma organização dispersa, com membros de origens desconhecidas e número incerto. A única regra era seguir os seus princípios, passar por seus testes e, então, tornar-se um deles. Não se importavam com o passado ou identidade de ninguém, pois apareciam sempre mascarados, falavam pouco, desapareciam após cumprir seus objetivos e, mesmo após ingressar, qualquer um podia sair sem motivo.

— Provavelmente são eles. Acho que também querem o nosso alvo. Se não fosse pelos monstros, já teriam lutado entre si. Eles nunca abandonam uma missão; logo tomarão o próximo passo, mas só depois de hoje — a voz de Mare, sempre sombria, ressoou.

Green voltou a olhar para os três, um brilho gélido nos olhos.
— Isso complica para nós. O comandante nos incumbiu de seguir aquele homem e, pelo que vimos hoje, ele surpreendeu bastante. Os poderes mágicos dele estão acima do esperado; da próxima vez, talvez revele ainda mais. Não podemos permitir que atrapalhem nosso plano, mas talvez seja uma boa ideia deixá-los testar primeiro.

Mare sempre admirou a astúcia do companheiro, cuja máxima era planejar antes de agir. Talvez em breve terminariam a missão e voltariam para casa.

Já entre o grupo de Kermo, o ambiente era constrangedor. Fran e Paulin guiavam carruagens à frente, enquanto Ilote assumira a função de cocheiro para Kermo, com Puber ao lado, deixando claro suas intenções.

Kermo sabia que, por mais que explicasse, os dois não acreditariam nele. O desempenho surpreendente dele não era esperado nem por Ilote e Puber, nem por si próprio; exibiu habilidades mágicas muito além do comum, equiparando-se a um verdadeiro mago, quando sempre afirmara saber apenas feitiços simples. Não era de admirar a irritação dos companheiros.

— Chega, vocês dois não me olhem assim. Nunca quis enganar vocês, só evitei falar de certas coisas. O que aconteceu hoje me surpreendeu tanto quanto a vocês, só posso chamar de milagre. Talvez ocorram outros milagres no futuro, mas não sei explicar — disse Kermo, encolhendo os ombros e sorrindo amargamente. Os dois continuavam o olhar penetrante, claramente insatisfeitos, mas ele não tinha resposta melhor. — Sério, amigos, posso mentir para qualquer um, menos para vocês dois.

Vendo a expressão de desdém nos rostos deles, Kermo apressou-se:
— Claro, falo das coisas sérias.

A franqueza dele finalmente calou os dois. Afinal, três anos de ausência mudam muito, e ninguém sabe ao certo quem é o amigo de infância agora. Mas uma coisa era certa: os sentimentos de outrora jamais se apagariam, marcados pelas experiências vividas juntos.

Com o cair da noite, o pequeno grupo chegou ao local de acampamento: um terreno plano coberto de grama, junto à estrada. O encontro com a horda de monstros tornara todos mais cautelosos; a presença de tantas criaturas só podia indicar mudanças profundas na floresta, algo capaz de alterar seus hábitos, o que raramente era bom para os frágeis humanos.

A fogueira vermelha logo ardia. Para evitar surpresas, os experientes Cavaleiros Relâmpago montaram pilhas de lenha a dez metros das tendas, preparadas para serem acesas caso houvesse necessidade de vigília noturna. O fogo não resolvia todos os problemas, mas servia para afastar monstros de gelo e água, além de criaturas das trevas ou mortos-vivos, garantindo ao menos alguns minutos de segurança aos que dormiam.

Todos se reuniram silenciosamente ao redor do fogo. O jantar era simples: carne seca e pão, indispensáveis para quem aventura-se pela floresta de Greenland.

O crepitar das chamas intensificava o aroma de pinho, e os rostos, iluminados pela luz instável, mostravam uma gama de emoções. As máscaras dos três cavaleiros destacavam-se sob o céu escuro e o fundo da floresta, dançando à luz do fogo, com três pares de olhos negros fixos em algo, observando os galhos vermelhos, sem expressão.

— Senhor Barão, parece que nossa jornada ao Cáucaso não será fácil. Mal chegamos à floresta de Greenland e já fomos atacados por monstros. Sem sua atuação, teríamos morrido aqui. Jamais imaginei que o senhor fosse um mago; tão jovem, é algo inédito no continente — Green fixou o olhar em Kermo, que meditava de olhos semicerrados, deixando claro que, por trás da aparente indiferença, havia vigilância.

O cavaleiro mascarado, sentado ao centro, amaldiçoou a indiscrição do colega, lembrando-o sutilmente do perigo. Se não precisasse de mais uma noite para se curar e terminar a missão, já teria desafiado aqueles orgulhosos.

— O senhor exagera, Green. Foi apenas sorte; aprendi alguns truques com um feiticeiro moribundo e nunca pratiquei. Devo parecer inexperiente — Kermo percebeu a intenção do outro, que tentava encontrar algo suspeito nele, mas não se preocupava: o cadáver estava bem escondido e, com as habilidades deles, jamais o encontrariam.

— Ah, Barão, fala com facilidade. Se magia fosse tão fácil, haveria mais magos que camponeses no continente. A menos que seja um prodígio nato, um mestre desde o berço — Green sorriu frio.

— Se não acredita, não posso fazer nada. Talvez eu seja mesmo um prodígio: aprendo rápido e treino a mente dormindo. Só assim para agradar o senhor — respondeu Kermo, com um sorriso meio verdadeiro, meio falso. Não conseguiria convencer ninguém, então preferia inventar, acreditassem ou não.

— Um prodígio? Dizem que há muitos no continente Azul, mas nenhum teve um destino feliz: morrem jovens ou desaparecem. Melhor não ser um prodígio, Barão, para não viver sempre em medo — comentou o cavaleiro mascarado, com um sorriso distorcido nos lábios.

— Ei, rapaz, não pense que usar uma máscara estranha te dá licença para falar besteira. Se ele não fosse um prodígio, você já estaria deitado numa cova! — Ilote rebateu imediatamente, irritado com o comportamento dos mascarados, incapaz de tolerar ingratidão e sarcasmo. O olhar desafiador fixou-se no cavaleiro, provocando-lhe raiva.

— Senhores, passamos juntos por dificuldades. Ainda não sei de onde vêm e para onde vão — Mare desviou habilmente o assunto para o outro grupo.

— Somos apenas aventureiros errantes, não precisamos preocupar os senhores cavaleiros. Nos despediremos em Lion, mas atravessaremos juntos a floresta de Greenland — respondeu Jacques, despreocupado, evitando prolongar o contato com aqueles dois astutos. Era evidente que ambos eram veteranos, com sentidos aguçados, e, embora não soubesse a relação deles com Kermo e os outros, estava certo de que jamais tolerariam que ele atacasse o trio. Precisaria planejar melhor para resolver a situação.

Aventureiros eram o grupo errante mais comum do continente: três ou cinco juntos, buscavam tesouros e emoções, muitos faziam disso profissão, formando um grande coletivo e até guildas. Sua presença não era surpreendente em lugar algum. O visual dos três era estranho, mas Kermo, Ilote e Puber, pouco viajados, não sabiam ao certo o que representava. Quanto a Fran e Paulin, sempre no exército do Ducado de Malen, menos ainda conheciam a identidade dos três.