Capítulo Doze: Pai e Filho
Um esplendoroso sol rubro irrompia no horizonte oriental, derramando ondas douradas sobre o mar, enquanto o céu da manhã, com nuvens tingidas de carmim, parecia um manto de seda. Ao longe, na linha do horizonte, velas minúsculas deslizavam suavemente. Os primeiros raios de sol, delicados e cálidos, banhavam a cidade de Ceprilus, que aos poucos recobrava a vivacidade. As muralhas semicirculares, curvas e irregulares, seguiam a costa norte em direção ao leste, formando uma dobra, depois voltando-se para sudoeste até alcançar as praias ao sul, compondo um cinturão protetor que guardava zelosamente a bela e movimentada rota marítima de Stígia.
No alto, sob o céu, o estandarte púrpura com o lírio – insígnia da Casa Filipe – tremulava com imponência. Os portões da cidade já estavam abertos, e viajantes entravam e saíam em fluxo constante. Os mercenários de guarda, bocejando, aguardavam distraídos a troca de turno. Os carroções que recolhiam as impurezas haviam desaparecido antes mesmo do dia clarear por completo, serpenteando pelas ruelas. Comerciantes abriam suas portas em preparação para mais um dia de negócios; fiscais de impostos, pastas de couro sob o braço, transitavam entre portos e oficinas, contando meticulosamente as mercadorias. Marinheiros diligentes poliam os conveses sob as ordens ríspidas dos donos das embarcações; estivadores, organizados pelos capatazes, içavam cargas ao cais; escudeiros da ordem de cavaleiros já estavam ocupados nos campos de treinamento fora da cidade, praticando equitação ou esgrima, enquanto os cavaleiros, altivos, observavam e orientavam ao lado. Quanto aos nobres, depois de uma noite de festas, ainda dormiam profundamente, abraçados às coxas alvas de amantes e concubinas, permitindo que o sol radiante iluminasse sem pudor seus corpos disformes. Assim despontava mais uma manhã esplêndida em Ceprilus.
Diferente dos demais nobres, Lamra Reisser acordara cedo e encontrava-se sombrio, sentado em seu escritório, absorto em pensamentos. Seus cabelos prateados, penteados com perfeição sobre a cabeça altiva, e o semblante resoluto, de perfil, lembravam uma escultura primorosa. Aquele maldito filho rebelde, mal retornara há poucos dias e já andava envolvido com aqueles dois degenerados dos Lukos e dos Morda. Não bastasse isso, ainda arranjara confusão com a influente guilda de mercadores da cidade. Quando esse filho ingrato lhe daria sossego? Lamra pressionava as têmporas, tentando aliviar a dor causada por tantas preocupações. No fim, toda culpa recaía sobre si mesmo; um momento de impulsividade dera origem a tal desgraça. Era tarde demais para arrependimentos.
— Sanders, Kormer ainda não se levantou? — a voz fria e cortante, repleta de impaciência, acompanhada do olhar de águia que vasculhava o rosto do mordomo silencioso ao lado.
— Senhor, o jovem mestre chegou muito tarde ontem. Receio que não vá se levantar tão cedo — respondeu Sanders, cabisbaixo, num tom neutro e impassível.
Lamra soltou um longo suspiro, e ordenou, com voz gélida:
— Vá chamá-lo. Diga que o espero aqui.
Quando Kormer entrou, ainda esfregando os olhos sonolentos, o semblante glacial do pai não lhe causou o menor temor. Sentia, ao contrário, uma pontada de provocação e até prazer. Três anos de exílio haviam-no tornado imune a qualquer medo; os resquícios de temor outrora presentes haviam se dissipado completamente na vida errante.
— Ora, meu caro pai, tão cedo já acordado? Por que não dorme mais um pouco? Ou será que o Duque Filipe novamente o convocou? — O tom sarcástico de Kormer, acompanhado de um ar desdenhoso, quase fez Lamra explodir, mas este se conteve, consciente de que havia outro assunto a tratar.
— Kormer, sente-se. Precisamos conversar — disse, controlando-se após um profundo suspiro.
— E que assunto tão urgente, pai, o faz acordar-me a esta hora? — Kormer, indiferente, os olhos cinzento-azulados vagando, sentou-se de mau humor na poltrona ao lado, cruzando as pernas impacientemente.
— Kormer, você está prestes a completar dezoito anos. Gostaria de saber seus planos — perguntou Lamra, ignorando a provocação.
— Ora, pretende atribuir-me um ofício? Quer que eu sirva de escudeiro a um daqueles cavaleiros, ou que me torne sapateiro? Pois nada sei fazer! — Kormer fitou o pai, sem cerimônias.
— Ouvi dizer que ontem você adquiriu uma remessa de minério dos bárbaros. Por acaso se interessa por negócios? — insistiu Lamra, paciente.
— Pai, como disse, logo completo dezoito anos e serei posto para fora de casa. Quanto pretende me dar para me despedir? Ou me dará uma horta para eu sobreviver? O senhor me conhece: sou gastador, e o que me der não durará. Se eu mendigar, também não será bom para sua reputação. Se me der terras, talvez eu venda os camponeses como escravos em poucos dias. — Sem a menor preocupação com as consequências de suas palavras, Kormer balançava o pé cruzado, irritando ainda mais Lamra.
— Insolente! Kormer, é ultrajante! Olhe-se no espelho e veja se tem algo de um verdadeiro Reisser. Sinto vergonha de você! — Lamra não aguentou mais; bateu com força na mesa, fazendo as porcelanas exóticas tilintarem freneticamente.
— Ora, pai, e quando foi que me considerou realmente um Reisser? Se eu fosse mesmo, não precisaria ter fugido de Ceprilus à noite por causa de uma simples declaração de amor. A lei do Reino de Nicósia pune assim um homem? E agora quer falar de família? Não lhe parece absurdo? — Os olhos de Kormer brilhavam com loucura, e suas palavras feriam como lâminas: — Falar de família só agora é hipocrisia, não acha?
— Você... você... se não fosse pelo Duque, que valoriza nossa família há gerações, já teria ido para a forca! Não se arrepende? Quer mesmo arruinar por completo o nome dos Reisser? — Lamra, rubro de raiva, apontava para o filho, trêmulo e sem conseguir articular as palavras.
— Basta, pai. Imagino que não me chamou para relembrar desgraças. Já paguei caro pelo que fiz. Não seria perda de tempo insistir nesses assuntos? Seja direto, por favor. — Kormer interrompeu asperamente, o rosto transtornado, tocando numa ferida que ainda sangrava. Respirou fundo para controlar a voz: — Quanto à questão do negócio com os bárbaros, só ajudei um amigo. Ele é bárbaro, sim, mas é meu amigo. Apenas não pude tolerar a mesquinhez daqueles mercadores e dei uma mão. Se puder explicar isso à guilda, creio que entenderão, não acha?
Lamra fitava o filho com tristeza e resignação. Percebia agora que aquele jovem, de temperamento tão próximo ao seu em tempos idos, era muito mais complexo do que imaginara. Kormer sabia como afastar o foco dos problemas, sinal de uma astúcia já madura.
— Kormer, lembre-se: a força da guilda de mercadores não é trivial. Se pretende mesmo entrar nos negócios, evite hostilidades. Isso não será bom para a família, nem para seu futuro — aconselhou Lamra, esforçando-se por soar calmo.
— Agradeço a preocupação, pai, mas não tenho intenção de negociar. Falta-me experiência, capital, mercado, tudo. Aprender agora seria tarde. Foi apenas um favor. Não quero inimizades, mas também não deixaria meu amigo ser prejudicado. Com essa explicação, acho que tudo se resolve, concorda? — respondeu Kormer, suas palavras desmentindo o olhar.
Lamra olhou profundamente para o filho, tentando decifrar o que se ocultava por trás daqueles olhos incertos. Concordou com gravidade:
— Muito bem. Espero que seja a primeira e última vez.
— Também espero, pai. Não quero lhe causar problemas, mas preciso viver com dignidade, como qualquer pessoa de bem. Se puder me despachar de Ceprilus, sem que eu seja motivo de vergonha, aceito de bom grado. — Kormer sorriu polidamente, já plenamente recuperado, embora o brilho venenoso em seus olhos não se dissipasse.
Lamra, intrigado, percebeu um subtexto nas palavras do filho, mas não conseguiu decifrá-lo. Quis perguntar mais, mas, ao notar a impaciência de Kormer, desistiu. Como pai, não se rebaixaria diante do filho, mesmo sentindo culpa no íntimo.
Kormer ergueu-se de súbito, sem mais palavras, e saiu do escritório. Restavam-lhe dois meses até sua cerimônia de maioridade, quando seria, enfim, expulso de casa. Talvez todos naquela família aguardassem ansiosamente por esse dia, pois seus olhares estavam voltados para o irmão mais velho, o verdadeiro herdeiro. Ninguém queria dedicar-lhe um pensamento. Só, Kormer caminhava pela alameda do jardim, sua silhueta um retrato de solidão.