Capítulo Dez: Ascetismo
A pedra de cristal, escura e misteriosa, repousava sobre a mesa de madeira áspera, irradiando um brilho frio e enigmático sob a luz do sol que atravessava a janela. Cormo fitava o objeto diante de si, aquele que havia trazido tantos elementos imprevisíveis ao seu cotidiano. Sem essa pedra, talvez já tivesse sido devorado por uma besta demoníaca ou tombado sob a lança de um cavaleiro decadente. Em situações de emergência, era capaz de libertar, quase instintivamente, o poder que a pedra lhe concedia e escapar do perigo, mas nunca compreendeu de fato o significado profundo daquele cristal.
Suspirando levemente, Cormo acariciou o pergaminho de pele de carneiro ao lado. Talvez o conteúdo daquele manuscrito pudesse ajudá-lo a desvendar e dominar os mistérios do cristal. Mas as inscrições em escrita cuneiforme eram de uma língua antiga, o velho idioma de Pradex, oriundo das proximidades da Ilha Heródia, no mar de Babilônia, ao distante oeste. Tal idioma havia sido varrido pela correnteza da história e, segundo o que sabia, nenhum povo ou raça ainda o utilizava. Encontrar alguém que conhecesse aquela língua seria tarefa árdua. Além disso, Cormo não dispunha de tempo ou energia para se dedicar a essa busca; havia questões muito mais urgentes diante de si.
Apesar disso, Cormo não desanimava. Já havia percebido as peculiaridades do cristal: bastava mantê-lo consigo para que, em momentos críticos, quando suas capacidades ou magia sofressem súbita transformação, a energia mágica do cristal se fundisse naturalmente com seu corpo, como se atraídos mutuamente. Essa sensação já se mostrara eficaz diversas vezes, operando milagres em situações de perigo. Por isso, Cormo passou a deliberadamente unir essa força à sua própria, sendo sua apresentação diante de Hess um exemplo de sucesso.
Mais do que o poder mágico, o que realmente intrigava Cormo era a capacidade singular de memória contida no cristal. Sempre que sua energia se fundia com a do objeto em meio ao combate, à noite, durante o sono, ele era transportado por sonhos com paisagens e cenas totalmente inéditas, jamais vistas ou sequer imaginadas. Isso reforçava a convicção de que o cristal guardava as lembranças de algum antigo herói, conservadas de forma especial, e que ele, por sorte ou acaso, as havia adquirido. Se conseguisse explorar plenamente esse aspecto, poderia colher benefícios inimagináveis, impulsionando suas habilidades de maneira extraordinária.
Uma semana de esforços não foi em vão. Cormo ao menos já identificara que o cristal continha muitos elementos capazes de aprimorar suas aptidões: fragmentos de conhecimento e memória, além de potencial para crescimento e fusão de poderes. Aos poucos, também recordava os ensinamentos de seu mestre, que antes pareciam pouco úteis, mas agora, conectados ao que o cristal transmitia, formavam um sistema de conhecimento mágico mais consistente.
Cormo sabia que, para um mago ou mesmo um aprendiz, era impossível alcançar sucesso sem pelo menos dez anos de estudo e cultivo de uma base sólida. No exílio de três anos, recebera os ensinamentos do mestre de maneira forçada, sem tempo para absorver tudo, guardando boa parte apenas na memória. Agora, estimulado pelo cristal, essas lembranças despertavam de forma súbita e se integravam ao conteúdo do cristal, sendo lentamente assimiladas e tornando-se parte de Cormo, já não simples improviso ou reação de último momento, como durante a viagem rumo ao sul.
Após um mês inteiro de reclusão, Cormo só saía para receber as refeições, raramente deixando a cabana, e quando o fazia, era apenas para caminhar à beira da floresta de bétulas, nunca a mais de dez passos da porta. Isso preocupava Pubar e os demais, que só se tranquilizaram no dia em que Cormo finalmente deixou o abrigo. O cansaço era visível, mas a confiança em seu olhar indicava que era um homem transformado; seus olhos negros brilhavam com uma intensidade quase hipnótica. Fora isso, Pubar e os outros não conseguiam apontar outras mudanças evidentes em seu líder.
Cormo percebeu que, ao emergir de sua reclusão, seu espírito estava mais amplo e livre. A antiga ousadia e o caráter indomável, perdidos antes do exílio, pareciam ter retornado, e até o céu azul e os ramos dançantes ao vento pareciam mais vivos. Era uma sensação inédita para ele, sem saber que, graças à fusão da energia do cristal com sua própria magia, havia atingido um novo estágio, diferente de tudo que conhecera. Tudo ao seu redor tornava-se mais acessível e utilizável; era o que os mestres do mundo mágico chamavam de "estado de total liberdade". Contudo, com o conhecimento que possuía, Cormo ainda não compreendia a essência desse estágio.
Sob os olhares surpresos dos companheiros, Cormo não percebeu nada de estranho, exceto que seus passos vacilantes chamaram a atenção de Ilote, que percebeu que o chefe parecia pouco acostumado à luz e ao ar livre, talvez resultado da longa reclusão e escuridão, afetando momentaneamente sua visão.
Absorvendo o ar com avidez, como um prisioneiro recém-liberto do porão, Cormo sentiu que aquele mês na cabana fora mais longo que seus três anos de exílio. Seria essa a sensação de perder a liberdade? Mesmo quando era ele quem controlava a própria vontade?
— Ora, meus amigos, por que me olham desse jeito? Ilote, teu olhar parece o de um lobo; por acaso sou uma bela orc? Pubar, não me encare como um comerciante ganancioso diante do ouro: não tenho nem meio escudo dourado comigo! — Cormo riu e brincou. — Frano, parece que estás com ótima aparência. Imagino que sob teu comando e o de Bolen, meu esquadrão deve ter evoluído muito. Espero não me decepcionar.
Trocando olhares de espanto com Pubar, Ilote sentiu o velho líder exuberante de outrora retornar, e ambos se emocionaram. Nos últimos tempos, embora estivessem contentes com as mudanças de Cormo, principalmente seu desempenho mágico, havia uma preocupação: sua personalidade tornara-se cada vez mais sombria e fria, cada palavra parecia cuidadosamente pesada, sem traço de emoção. Mesmo Pubar, que se considerava bastante pragmático, achava que o chefe o superava nesse aspecto. Agora, bastaram algumas frases para perceberem que o Cormo de antes estava de volta.
Quanto a Frano, não tinha tantas impressões; apenas percebeu que o senhor parecia mais extrovertido e afável, e até a atmosfera das palavras era mais leve.
— Chefe, não teve nenhum problema nesse tempo? — Ilote se aproximou sorrindo e deu um soco em Cormo, demonstrando sua preocupação, e o olhar atento de Pubar transmitiu o mesmo calor.
— Hehe, que problemas poderia ter? Ficar trancado na cabana, sem mulheres nem vinho, é entediante demais. Nunca experimentei a vida de um asceta, não sei como esses monges conseguem persistir por toda a vida. É quase uma auto-tortura. Se fosse para tanto, seria melhor se matar logo — disse Cormo, notando que até seu humor e discurso haviam mudado, falando de forma mais solta, sem pensar nas possíveis interpretações.
— Haha, o chefe também sentiu falta de mulheres. Pena que em Ugrol não há oferta, e isso é tua responsabilidade como senhor. Tantos homens solteiros neste fim de mundo, nem uma fêmea de macaco. Na taverna, além das duas garçonetes, não há outras mulheres. Entre os aventureiros, até há algumas, mas todas são flores com espinhos e já têm dono, é complicado. Tu vive nos alertando para não arranjar problemas, então todos só podem ficar escondidos no vilarejo, sem diversão. Se não saísse logo, alguém ia acabar enlouquecendo. Se soubesse, teria comprado uma escrava feminina em Ceprulus, só para aliviar um pouco — Ilote resmungou, engolindo o saliva.
— Chega, seu desgraçado, és um homem, não um animal! Não consegue controlar o que tem entre as pernas? Esqueceu porque viemos aqui? Se quisesse desfrutar, voltava logo para Ceprulus. Quem foi que jurou acompanhar o chefe até a morte? Agora vem reclamar — Pubar interrompeu irritado.
Ilote, ofendido, retrucou: — Ei, Pubar, por que sempre implicas comigo? Só estou reclamando, nunca disse que queria voltar pra Ceprulus. Se fosse para voltar, nem teria vindo!
— Chega, vocês dois não podem se acalmar um pouco? Pubar, aconteceu algo importante nesse tempo? — Cormo repreendeu, desviando o assunto para questões sérias.