Capítulo Nove: Apoio
A atmosfera na sala exterior estava carregada de tensão; o jovem escravo robusto e nervoso permanecia de pé, sem saber ao certo onde colocar as mãos. O tratamento no interior do quarto havia chegado ao momento mais crítico, e qualquer interrupção poderia arruinar todo o esforço. Sob o cuidado com medicamentos de Cormo, o ferido deitado na cama parecia ter melhorado consideravelmente, até sua temperatura havia diminuído, mas Cormo sabia que era apenas uma aparência; sem tratamentos subsequentes, esses sinais de melhora não passariam de uma ilusão efêmera.
A magia branca, ao ser lançada, não exigia muito do espírito, mas isso não significava que era fácil de dominar. Para os sacerdotes ou cavaleiros da Ordem da Luz, a magia branca era considerada simples de aprender, mas difícil de aprimorar. Contudo, Cormo parecia contradizer essa ideia. O tom esverdeado que emanava de seu rosto tornava impossível acreditar que era um mago de magia branca salvando vidas; parecia mais um necromante ou um feiticeiro das trevas buscando força nos demônios. Estranhos cânticos graves e misteriosos fluíam de seus lábios.
O homem maduro deitado na cama observava o jovem de semblante sombrio com um olhar peculiar. Este, seu “dono” apenas nominal, não lhe causara impressões profundas no início. Não havia dor maior que a morte do espírito. Desde que Missene foi tomada, ele nunca mais desejou viver; tudo se perdera no vento. O que antes possuíra tornara-se sem valor: a honra de guerreiro, o sentido da existência, tudo se esvaiu quando a cidade de Missene caiu e sua família foi massacrada pelos cruéis orcs. De que adiantava matar mais orcs? Poderia trazer de volta seus pais, esposa e filhos? Poderia recuperar tudo o que um dia teve?
Só o cuidado dedicado de Paulin o impedia de entregar-se à morte de imediato. Apesar da aparência forte e imponente, Paulin era apenas um jovem de dezessete anos, seguiu-o por alguns anos e era quase como pai e filho, mestre e discípulo. Lutava com bravura, mas nada entendia das sutilezas da vida. Para sobreviver neste mundo, o homem não sabia se Paulin seria capaz de se adaptar.
Quando o jovem de aparência fria lhe deu uma poção desconhecida, o homem robusto se surpreendeu com sua habilidade. Jamais vira um nobre jovem capaz de preparar tal medicamento; pelo aroma que emanava do outro, sabia que era uma fórmula própria, algo difícil de imaginar entre os mortais do continente. Ser alquimista era geralmente uma profissão exclusiva das classes mais baixas ou de certos grupos especiais.
Mas aquilo era só o começo. Quando o jovem melancólico pressionou com força estranha as vísceras do homem robusto, este percebeu que o outro era mais parecido com um cavaleiro dotado de poderes especiais. Uma sensação indescritível de conforto tomou conta de seu coração, até que o outro o repreendeu, despertando-o daquele prazer quase extático: magia branca!
A energia mágica, preguiçosa e cálida como um banho de luz sagrada, fluía incessantemente do outro enquanto entoava os encantamentos. O homem robusto ficou completamente atônito! Não era um simples camponês ignorante; apesar de o Ducado de Marlon não ter magos renomados, como comandante militar, já presenciara muitos magos e feiticeiros. Nenhum lhe causara tamanha impressão. O poder mágico era tão intenso que, além do espanto, sentia uma reverência quase temerosa. Tão jovem e com tal domínio da magia, era assustador! Nunca ouvira falar de um mago tão jovem no Ducado de Nicósia.
Quando notou o tom esverdeado e as sombras no rosto de Cormo, de olhos fechados, entendeu por que um mago tão excepcional era desconhecido em Nicósia, e até mesmo na região de Homero e entre os que conviviam com ele. Todos os mistérios pareciam resolvidos!
Recuperando-se lentamente do cansaço, Cormo percebeu a razão da surpresa no rosto do homem robusto deitado na cama, mas não se importou. Se ousara salvá-lo sem temer ser descoberto, não se preocuparia com possíveis revelações. Do exterior austero e dos olhos em brasa do homem, Cormo via um reflexo de si mesmo, apesar de o outro ser mais velho.
— Pronto. Você ainda precisa de algum tempo de descanso. Aproveite para refletir. Às vezes, o tempo apaga tudo; outras vezes, aprofunda a compreensão dos mistérios do mundo. Não se apresse em concluir as coisas — disse Cormo, levantando-se e alongando-se, antes de sair, instruindo calmamente o jovem robusto, cujo olhar estava fixo no homem da cama: — Não o deixe se movimentar à vontade. Ele precisa de repouso.
Quando Cormo desapareceu pela porta, ouviu claramente uma voz grave e decidida às suas costas: — De agora em diante, não há mais Fran e Paulin do Ducado de Marlon. Somos apenas servos sob as ordens do senhor.
Restavam apenas dois dias para a partida. Cormo, Pubber, Ilote e os outros estavam ocupados. Quando Ilote viu Paulin, o jovem alto já recuperado e vestido em trajes de guerreiro, junto ao robusto Fran, ambos revigorados, sua boca se abriu mais que a de um hipopótamo.
Apenas dois dias antes, ambos estavam debilitados; Paulin, ferido na clavícula, já tinha a cicatriz formada, e, exceto por certa limitação de movimentos, seu desempenho era praticamente normal. Ao ver o jovem exercitar-se com leveza no pátio de Cormo, manejando com destreza uma espada curta e pesada, Ilote, que acabara de entrar, não pôde evitar esfregar os olhos.
O homem robusto ao lado, embora ainda pálido, já não exibia o desânimo e abatimento de quando voltara no dia anterior, nem o ar de morte visto na carruagem. O traço de melancolia persistia entre as sobrancelhas, mas seu estado de espírito era outro.
Ilote observou o jovem alto treinando por um bom tempo e teve de admitir que, embora sua técnica de espada não fosse excepcional, era bastante sólida. Era uma técnica simples, nada refinada, talvez pouco eficaz no combate individual, mas ideal para batalhas em grupo. O tórax largo e os membros longos, apesar dos sofrimentos no campo de escravos, não conseguiam ocultar o vigor juvenil. Ilote avaliou-o como um soldado exemplar, e cogitou pedir a Cormo para tê-lo como pupilo, satisfazendo seu desejo de ser mestre; aquele jovem tinha potencial para ser treinado!
Ao perceber que Ilote o fitava intensamente, como alguém com um estranho fetiche admirando sua presa, Paulin, simples e honesto, ficou rubro e parou, lançando um olhar ao homem robusto ao lado.
Fran esboçou um leve sorriso. Reconhecia que o outro admirava o talento marcial do jovem que partilhava sua desventura. E também percebia que Paulin, o grandalhão que fora ao campo de escravos com o senhor, possuía notável habilidade. A espada de cinta à cintura era uma arma rara, exigindo grande controle interno; um descuido poderia ferir o próprio usuário.
— Paulin, continue seu treino. O senhor Ilote quer lhe dar algumas dicas! — disse Fran, tranquilizando o jovem. Soldado de origem, já estava acostumado a obedecer rigorosamente aos superiores. Paulin então retomou os movimentos: ataques, fintas, empurrões, bloqueios, uma sequência de ações simples, acompanhadas pelo som do vento. Sem o escudo de águia, sua consciência defensiva ainda impressionava Ilote, confirmando que os soldados do Ducado de Marlon eram realmente excepcionais.
Ilote já sabia, por Cormo, quem era o homem robusto: Fran Misch, antigo vice-comandante do Segundo Batalhão de Infantaria de Missene, guerreiro de alta reputação no Ducado de Marlon. Mas o ducado não existia mais, Missene era ruína, seus habitantes, ou escravizados pelos orcs, ou fugitivos pelo continente. Nas terras devastadas, só os comboios dos mercadores de escravos enfrentavam os orcs; ninguém mais ousava viver ali sem proteção militar.
Apesar de Ilote considerar-se hábil e já ter enfrentado orcs no Planalto de Dekan, não se achava à altura do ex-vice-comandante do batalhão. Ainda assim, notava que o jovem era excessivamente formal nos golpes, adequados para batalhas regulares, mas insuficientes para o que enfrentariam: uma jornada aos Cáucasos, por regiões selvagens, onde não só humanos comuns seriam obstáculos, mas também feras, bandidos, e, sem previsão, criaturas mágicas poderiam surgir. Como dissera Cormo, precisavam de guerreiros prontos para o uso imediato.
Vendo a expressão preocupada de Ilote, Fran percebeu seus pensamentos e disse calmamente: — Paulin, execute uma simulação de combate individual.
Pauline, obedecendo, ajustou a postura para defensiva, seus olhos atentos ao redor, a técnica de espada tornou-se agressiva e feroz. Só então Ilote se tranquilizou; discípulos treinados por um vice-comandante realmente eram diferentes. Sua vontade de ser mestre teria de esperar outra oportunidade.
Quando soube que seu novo senhor era um jovem recém-adulto, já um nobre investido, Fran, preparado para surpresas, ainda ficou espantado. Mas ao ouvir que o domínio de Cormo era nos Cáucasos, o homem, sempre elegante, permaneceu em silêncio.
Só então compreendeu por que aquele senhor, autoproclamado abandonado pelos deuses, dizia isso. Mas a ânsia que transparecia na voz do jovem senhor ainda intrigava Fran. Será que aquele senhor era realmente um ignorante e destemido, incapaz de perceber o perigo aterrador dos Cáucasos?