Capítulo Quatro: Escravos

Destino Místico dos Céus Raiz da Sorte 2750 palavras 2026-02-07 12:28:29

Faltavam apenas alguns dias para deixar Séprulos, e tanto Cormo quanto Pubério estavam apressados nos preparativos. Os cinco mil escudos de ouro que Sir Lamla dera a Cormo foram prontamente confiscados por Pubério, que, mesmo antes de assumir oficialmente algum cargo, já tramava diversas maneiras de ganhar dinheiro.

Para ir de Séprulos ao Cáucaso, havia dois caminhos. Um deles era pelo mar: partia-se do porto de Séprulos, contornava-se o farol da ponta do Cabo do Mar Sombrio e, após cerca de trezentas milhas náuticas, chegava-se ao segundo porto mais importante da região de Homero, depois da capital Séprulos — o porto de Natévia. Embora não fosse uma cidade grande, era o porto mais meridional do Reino de Nicósia. Ao sul da foz do rio Niséia, entrava-se no chamado Triângulo do Diabo, o Arquipélago das Bermudas, uma região traiçoeira, repleta de recifes e correntes traiçoeiras, pontilhada por dezenas de ilhas que serviam de refúgio para piratas. Diz-se que a maior organização pirata do Mar Sombrio, os Caveiras Cinzentas, tinha sua sede em uma dessas ilhas.

Se conseguissem cruzar ilesos a área dominada pelos piratas, chegariam à foz do rio Catalenia e, subindo o rio, adentrariam o coração do Cáucaso. Passando pelas Bermudas, era possível continuar navegando rumo ao sul, entrando no Oceano das Tempestades; costeando suas margens, alcançava-se as terras ao sul das estepes dos bárbaros, uma região mais quente, exótica, o sul próspero e belo do Continente Azul.

Claro, esse caminho era extremamente perigoso. A qualquer momento poderiam sofrer ataques de piratas, e os recifes ocultos e correntes traiçoeiras frequentemente levavam embarcações à destruição. O surgimento das Caveiras Cinzentas tornara a rota ainda mais arriscada, de modo que muitas caravanas do norte preferiam desembarcar em Natévia, atravessar o sul da região de Homero por terra e só então adentrar o interior do continente.

O outro caminho era por terra: de Séprulos, seguia-se para o sudoeste cruzando a fértil planície de Busen, depois pela grande Floresta de Grenlândia, atravessava-se o rio Niséia e, então, entrava-se nas terras áridas do conde Boninski, a região de Leão. Por fim, cruzando o desfiladeiro de Dálman, chegava-se ao Cáucaso. Apesar de à primeira vista parecer menos perigoso, as terras de Boninski eram pobres e atrasadas, habitadas por um povo rude, tradicional foco de rebeliões. Mais de oitenta por cento da população era composta por escravos — nativos conquistados, mestiços de meio-orc e indígenas. A ordem pública era caótica, e as estradas, péssimas. Na última vez, até mesmo os bárbaros preferiram dar a volta pelo Reino de Rosenburg a passar por ali para negociar em Séprulos.

Cormo não tinha escolha senão seguir por terra, embora também estivesse preocupado, pois até o próprio conde Boninski evitava viver em suas terras, o que dizia muito sobre a situação local. Felizmente, ao norte do Niséia havia um importante posto de passagem, guarnecido por soldados do duque, que impediam que tumultos vindos do sul ameaçassem toda a região de Homero.

— Chefe, você vai mesmo comprar dois servos? Mais valia esperar para comprar em Leão, dizem que lá os preços são bem mais baixos — comentou Ilhot, mascando despreocupadamente uma erva aromática. Essa erva refrescante estava em voga entre a nobreza da cidade, um costume popular entre os frequentadores assíduos de bailes e festas.

— Sim, meu pai me deu cinco mil escudos de ouro, dos quais Pubério ficou com quatro mil, dizendo que compraria mercadorias para negociar em Leão e lucrar um pouco. Com os mil que restaram, pretendo comprar um criado. Pubério também precisa de um, então compraremos dois, os mil escudos serão suficientes — assentiu Cormo. A família de Ilhot já lhe dera dois cavalos e um escravo, dispensando-o dessa busca, mas Cormo e Pubério precisavam procurar no mercado de pessoas.

— Mil escudos? Que desperdício. Em Leão, daria para comprar três escravos, talvez até quatro, dependendo da sorte — disse Ilhot, demonstrando conhecer bem os preços do mercado, especialmente o de Leão, o que deixou Cormo intrigado.

O olhar curioso de Cormo deixou Ilhot visivelmente constrangido. Após algum embaraço, Ilhot revelou que sua mãe lhe dera secretamente mais dois mil escudos de ouro. Tomado pelo desejo de sentir-se oficial, planejava usar o dinheiro para adquirir alguns escravos robustos e formar um pequeno pelotão de infantaria para treinar.

Cormo, meio divertido, meio tocado, decidiu provocá-lo: — Mas, Ilhot, mesmo que compre alguns escravos em Leão, ser guerreiro não é só questão de número. E as armas? As armaduras? E o sustento deles? Você aguenta carregar tudo isso?

Ilhot, vermelho de raiva, explodiu: — Ora, Cormo! Com o pouco que tenho, compro escravos para te servirem, e ainda quer que eu banque armas e armaduras? Não é abuso demais?

Cormo caiu na gargalhada: — Ilhot, aposto que sua mãe te deu mais do que dois mil escudos. Por que não usa o que sobrar em armas, assim eles já podem começar o treinamento e você satisfaz logo esse seu desejo de comandar um exército. Acertei, não foi?

De boca aberta, Ilhot ficou atordoado. Não podia acreditar que Cormo adivinhara não só seus planos, mas até seu segredo mais íntimo, como se estivesse nu diante de uma multidão e sentisse a necessidade de se cobrir.

— Desejo estranho, é? Só porque quero compartilhar minha valiosa experiência de combate contra os orcs no Planalto Decã, você me chama de anormal? Para mim, anormal é quem pensa assim! — resmungou Ilhot, baixando o tom de voz. Já haviam chegado ao movimentado mercado de pessoas de Séprulos.

— Está bem, Ilhot. Eu, no seu lugar, entregaria esse dinheiro ao Pubério. De Séprulos a Leão, são centenas de léguas, e poucas caravanas se atrevem a fazer esse trajeto. Deve haver um bom motivo para Pubério estar tão animado, talvez haja mesmo oportunidades de lucro. Vai que seus três mil escudos se transformam em cinco mil em Leão — disse Cormo, dando-lhe um forte tapa no ombro ao notar seu embaraço. — Vamos logo, a cabeça do Pubério trabalha melhor que qualquer um; basta ver os poucos cabelos que lhe restam.

O mercado de pessoas de Séprulos ficava no leste da cidade, próximo ao porto. Embora o nome sugerisse algo elegante, de fato tratava-se do tradicional mercado de escravos do continente. Apesar de muitos reinos já terem abolido a servidão por dívida, o comércio de escravos não diminuíra; ao contrário, as tensões crescentes pelo continente faziam o mercado prosperar ainda mais. A guerra era a maior fonte de escravos: prisioneiros de guerra e civis capturados eram convertidos em escravos, já que raramente alguém vinha resgatá-los. Quanto aos prisioneiros de guerra, normalmente eram trocados pelos dois lados, salvo em casos de derrota total ou extermínio.

Ao adentrar o mercado de escravos, Cormo e Ilhot sentiram-se transportados a outro mundo. Apesar de ser chamado de "fonte de iniquidade" pelos clérigos que se diziam enviados dos deuses para salvar a humanidade, o mercado era movimentado e organizado. Lojas grandes e pequenas alinhavam-se em ordem, frequentadas por mercadores, nobres e até alguns aristocratas titulados. Por fora, as lojas pareciam normais: móveis arrumados, pessoas conversando dentro, nada de estranho à vista — exceto por um ou outro gerente ou mordomo convidando clientes, não se via sequer um escravo.

Era a primeira vez que Cormo e Ilhot participavam de algo assim. Imaginavam encontrar grupos de escravos reunidos, esperando compradores, mas o cenário era totalmente diverso do esperado. Trocaram olhares incertos, sem saber bem como proceder, mas seguiram em frente, acompanhando o fluxo, já que as ruas do mercado eram largas e, misturados à multidão, não levantariam suspeitas.