Capítulo Vinte e Dois: Crise

Destino Místico dos Céus Raiz da Sorte 2462 palavras 2026-02-07 12:28:42

Apesar de a atmosfera do bar de Versalhes não diferir muito de outros bares, Cormo não podia deixar de admitir que, em termos de sofisticação, os bares da capital superavam todos os que já havia frequentado, inclusive os de Sepruso. O corredor espaçoso, devido à iluminação, parecia um tanto sombrio, e algumas pinturas a óleo, de cores um pouco desbotadas, pendiam displicentemente pelas paredes. O corrimão do corredor era feito de cânfora amarela, de tom antigo e profundo. Seguindo pelo corredor até o salão principal, o balcão em forma de S desenhava um belo arco ao redor do ambiente. Alguns bartenders se empenhavam em polir as taças, e, sob a luz trêmula das velas, as sombras das pessoas dançavam, os copos reluziam, conferindo ao local um ar quase onírico, semelhante a um sonho de cristal.

Como ainda era cedo, Cormo e Cafli sentaram-se frente a frente. O grande salão estava quase vazio, proporcionando-lhes um ambiente tranquilo para discutir a tarefa espinhosa confiada pelo cavaleiro Tedes. Encostado à porta estava, provavelmente, um trovador; a harpa antiga em suas mãos envolvia o salão com melodias de timbres imprevisíveis: ora soando como um riacho saltando dos vales e correndo pelas planícies, ora triste e pungente como um fio de água serpenteando pelas ravinas, ora vigorosa e arrebatada como lanças douradas desembainhadas e cavalaria em disparada.

Enquanto apreciavam a improvisação do trovador, Cormo e Cafli eram obrigados a encarar o dilema imposto pelo intendente.

“Senhor Barão, pretende mesmo aceitar esta missão? Oito mil pessoas — nem que queira, a região do Cáucaso não suportaria tal carga, o senhor sabe disso tão bem quanto eu.” Cafli suspirou. Ele conhecia bem o peso das palavras de Tedes: o que era dito, não deixava espaço para recuos.

“Cafli, talvez não sejam só oito mil. Tedes deseja, na verdade, que eu aceite dez mil. Agora já não se trata de aceitar ou não, mas de como aceitar.” Cormo sorriu levemente. “Já há quem deseje ver meu fracasso nesta tentativa de trazer mão de obra; nem todos querem ver o Cáucaso recebendo tanta gente.”

Cafli ficou imediatamente alerta. “Oh? O duque Filipe?”

“Não citou nomes, mas sinto que sim.” Cormo claramente não queria se prolongar no assunto. “É melhor pensar em como vamos lidar com a situação.”

“Pelo que diz, só nos resta agir passo a passo. Precisa mandar uma mensagem aos seus administradores para que providenciem tendas e alimentos suficientes. Na primavera, mesmo com dinheiro, pode ser difícil encontrar mantimentos. E assim que a notícia se espalhar, os preços dos grãos em Busen e Brust certamente subirão, então é preciso agir rápido.” Cafli ponderou. “Se, como Tedes prometeu, os três reinos realmente fornecerem algum subsídio, talvez valha arriscar. Se suportarmos até a próxima primavera, a situação pode melhorar. Ainda assim, a decisão final é sua. Pessoalmente, não recomendo.”

“Arco lançado, flecha disparada — não há mais volta. O que foi feito, está feito.” Cormo assentiu, resignado, cerrando os dentes.

Com o ruído de passos, uma sensação incômoda se insinuou às costas de Cormo. Ele se esforçou para não olhar para trás, mas notou o sorriso cordial de Cafli. “Senhor Melon, que surpresa vê-lo por aqui!”

“Oh, senhor Cafli! Há quanto tempo! Veio tratar de negócios em Versalhes?” A voz era calorosa e franca. “E este cavalheiro é...?”

“Haha, este é o barão Cormo do Cáucaso, meu atual parceiro de negócios. Barão, este é o senhor Melon, mago da corte do reino e também mago oficial da Ordem dos Cavaleiros da Chama.” Cafli apresentou-os com entusiasmo.

Na verdade, no instante em que o outro entrou no bar, Cormo já sentira a densa aura mágica que o acompanhava — um traço inconfundível dos magos, impossível de ocultar, embora apenas outros magos fossem capazes de percebê-lo. A sensação de desconforto que crescia dentro de Cormo não deixava dúvidas de que se tratava de um praticante das artes luminosas; só essa energia seria capaz de desestabilizar a magia sombria que Cormo mantinha tão bem escondida em seu íntimo. Ele sabia que o outro certamente também havia percebido.

Desde que saíra do retiro, Cormo notara progressos notáveis em todas as áreas, até mesmo nas artes marciais, em que nunca fora particularmente hábil. Cormo não gostava de técnicas de combate, mas durante o treinamento mágico seu mestre insistira para que praticasse o básico das artes marciais, a fim de manter o corpo em boa forma. Com o tempo, porém, percebeu que os ensinamentos do mestre tornavam-se cada vez mais profundos, indo muito além do objetivo inicial, e que o mestre agora apenas exigia que Cormo memorizasse tudo, mesmo sem compreender, advertindo que todo conhecimento e habilidade tinham seu valor — muitas coisas podem parecer inúteis, mas tornam-se preciosas em momentos decisivos.

Assim, meio sem entender, Cormo passou a dividir parte do tempo entre o estudo da magia e o treino marcial. Notou também que o mestre dominava a luta apenas no mesmo nível que ele, transmitindo a Cormo apenas o que já sabia de cor, sem jamais explicar o motivo. Quando questionado, o mestre apenas balançava a cabeça em silêncio.

Após o retiro, contudo, o avanço de Cormo nas artes marciais tornou-se surpreendente; até mesmo o fluxo de energia interior, que antes mal se manifestava, começava agora a tomar forma. Embora ainda não tivesse atingido o grau de condensação plena, Cormo sentia que, mantendo aquele ritmo, logo alcançaria esse estágio. Mesmo assim, não destinou sua principal energia a isso, pois, além do treinamento mágico, as tarefas administrativas já lhe consumiam todo o tempo.

Enquanto aprimorava a mente mágica, Cormo percebia que sua capacidade com magias elementares crescia muito menos do que com as artes da escuridão e da necromancia. Até mesmo quando treinava artes marciais, sentia que a energia vital começava a assumir características sombrias.

Embora não rejeitasse a magia das sombras, sabia que, no Continente Azul, tal magia era alvo de preconceito e discriminação. Não queria que o vissem como um feiticeiro das trevas, especialmente enquanto a Santa Igreja da Luz continuava a investigá-lo incansavelmente. Cormo estava certo de que isso tinha a ver com o cristal que carregava consigo — suspeitava até que, em sua origem, o artefato fosse um relicário das sombras, ainda que não conseguisse descobrir sua história ou procedência.

O crescimento desenfreado da energia sombria, porém, trouxe-lhe um problema: precisava dedicar cada vez mais tempo ao controle dessas forças, pois sentia que, se não o fizesse, a energia, que parecia vir de fora, ameaçava dominá-lo. No Cáucaso talvez fosse mais fácil, já que ninguém ao redor tinha grande conhecimento sobre magia, mas fora dali, Cormo precisava ser cuidadoso, temendo que algum colega mago percebesse seu segredo.

Por mais cauteloso que fosse, jamais imaginara que, justamente num momento de relaxamento no bar, cruzaria com um mago da luz — e não um qualquer, mas um mago da corte. Pela atração e repulsa naturais das energias mágicas, sabia que o outro, nesse exato momento, também estava surpreso e alerta. Talvez, por conta de sua posição, o mago hesitasse em confiar em seu instinto, mas Cormo tinha certeza de que, como todo mago da luz, aquele não descansaria enquanto não esclarecesse suas dúvidas — e ele próprio já era alvo de suspeitas da igreja.

Apesar da tempestade interior, o rosto de Cormo manteve-se sereno como um lago; levantou-se com naturalidade e cumprimentou o outro com um aperto de mão.