Capítulo Quatorze: O Cavaleiro Sombrio
Ao conviver com Lebri por alguns dias, Komer percebeu que todo o seu sistema de conhecimento mágico fora submetido a uma limpeza e suplementação avassaladoras. Muitos conceitos antes vagos encontraram seu devido lugar, e diversos problemas insolúveis foram resolvidos com facilidade. Para ele, isso era como um viajante perdido em uma trilha cheia de armadilhas que, de repente, encontra um caminho iluminado e plano, onde cada perigo estava marcado; a sensação de estar acompanhado por alguém que era, ao mesmo tempo, mestre e amigo não poderia ser descrita apenas por palavras como alívio ou satisfação.
Diante da infinidade de perguntas peculiares de Komer, Lebri — que outrora viajara por todo o continente e se orgulhava de seu vasto saber — sentia-se profundamente desafiado. Cada questão de Komer ou transcendia o conhecimento comum da magia ou subvertia os princípios que Lebri seguia como dogmas. No entanto, ele não podia deixar de reconhecer o gênio inovador do jovem: magias combinadas, algo que apenas grandes magos ousariam tentar, eram executadas por Komer com destreza e naturalidade. Até mesmo a magia de erosão das trevas, que o próprio Lebri evitava, era utilizada por ele para criar feitiços auxiliares que potencializavam a defesa ou o ataque de equipamentos. Sem ter como reagir, Lebri não encontrava outra forma de definir aquele que ele considerava não um gênio, mas um autêntico fenômeno da magia.
Lebri jamais compreendeu como alguém tão jovem podia possuir tamanha força mágica e mental. Além do poderoso domínio sobre as trevas, Komer exibia habilidades notáveis em magia branca e artes divinas. A coexistência dessas energias opostas em um único indivíduo exigiria décadas de treino espiritual, mas o rapaz, de qualquer perspectiva, parecia ter menos de trinta anos — na verdade, Komer ainda não completara vinte.
Quanto à entidade que infestava o Castelo de Damolensk, nenhum dos dois ousava subestimá-la. Desde a tragédia do primeiro senhor, cem anos se passaram, e mesmo magos experientes vindos de Chipre haviam falhado em purificar o local. Isso indicava que a criatura nas sombras não era um espectro comum, mas um ser dotado de inteligência e astúcia. Seria um fantasma, uma alma penada, um espírito maligno ou algum monstro desconhecido nascido nas profundezas do submundo? Nenhum dos dois sabia dizer. Como dizia Lebri, só restava avançar um passo de cada vez.
Pergaminhos e artefatos eram essenciais. Para magos, esses itens eram a diferença entre a vida e a morte, e Komer estava bem preparado. Até o arrogante Lebri reconhecia a importância dos medicamentos de Komer, que, se não fosse um nobre, poderia ter sido o mercador mais rico do continente graças à sua alquimia.
Finalmente, a pessoa que Lebri aguardava chegou. Quando questionado se preferia explorar o castelo apenas com Lebri ou buscar outros aliados, Komer optou pela cautela, mas pediu que não houvesse atrasos. A prosperidade de seu território atraía cada vez mais pessoas, e a fazenda que servia de sede administrativa já não condizia com sua posição.
O recém-chegado tinha um rosto magro, parcialmente oculto por um elmo de ferro negro. Ao retirá-lo, Komer viu que ele não passava dos trinta anos. Seus olhos negros eram frios e indiferentes, brilhando apenas quando Lebri descrevia os mistérios do castelo. Embora de constituição esguia, a lança de cavalaria em seu cavalo era uma relíquia centenária, e a espada de lâmina fina em sua cintura parecia um adorno, mas Komer sentia a sede de sangue que emanava da bainha — uma arma forjada para matar, que já ceifara centenas de almas.
Lebri apresentara o homem apenas como um Cavaleiro das Trevas. Era o primeiro contato de Komer com Sollenberg, que vivia na orla dos pântanos ao sul de Graz, sendo o aliado mais próximo que Lebri pudera contatar.
Komer notou que a relação entre os dois não era de amizade íntima, mas de uma estranha necessidade mútua, quase uma rivalidade. Após a chegada do cavaleiro, retiraram-se para um local isolado. Quando retornaram, a aparência de ambos chocou Komer: Lebri estava com os olhos roxos de hematomas e o braço sangrando, visivelmente exausto; Sollenberg não estava melhor, com o elmo amassado e a armadura danificada.
Embora não entendesse o motivo daquele duelo, Komer sabia que isso atrasaria seus planos. Lebri pediu três dias de descanso e tomou para si a maior parte das poções que Komer preparara. Ao ver que parte de seu estoque fora para o cavaleiro, Komer teve de voltar ao trabalho de alquimista.
Com o tempo firme, Komer recusou a ajuda de seus homens, sabendo que, contra mortos-vivos, guerreiros comuns seriam um estorvo.
O portão coberto de musgo abriu-se silenciosamente. Com um gesto rápido de Sollenberg, a sujeira que impedia a leitura da inscrição no topo da entrada caiu, revelando a frase: "A proteção dos deuses forjará a minha glória".
"Vamos, não vale a pena perder tanto tempo com uma porta," disse Lebri, com sua habitual túnica cinzenta, que desta vez parecia surpreendentemente limpa.
Ao cruzarem a entrada, desapareceram na escuridão. Atrás deles, uma aranha humana observava, antes de se recolher nas fendas das paredes. Sollenberg analisou a estrutura: uma fortaleza clássica, com muralhas duplas e torres de defesa circulares cobertas por poeira e teias, testemunhas silenciosas de um passado glorioso.
Para Sollenberg, que vivia isolado, aquele grupo era uma conexão necessária. Praticantes das artes das trevas eram vistos como párias ou hereges pela Igreja da Luz, o que apenas fortalecia os laços entre eles. Em dez anos, Sollenberg tornara-se um Cavaleiro das Trevas, fascinado pelo abismo que se abria como uma porta para outro mundo.
Ele observava o jovem senhor com curiosidade. Komer era, sem dúvida, uma figura perigosa; não apenas pela magia, mas pela ambição que emanava dele, algo que poderia ameaçar não só os homens, mas o mundo ao redor.
A imensidão do Castelo de Damolensk surpreendeu Komer. O que via por dentro era muito mais vasto do que aparentava por fora. Os corredores elípticos estendiam-se por dois quilômetros. Era um desperdício inaceitável que tal maravilha estivesse abandonada.
Meia hora foi gasta circulando o pátio interno, com todos em alerta máximo, usando magia de percepção. Contudo, para o alívio e decepção deles, nada aconteceu; a aura gélida que antes sentiram havia desaparecido.
Retornando ao ponto de partida, o portão externo fechou-se sozinho, e um silêncio opressor pairou sobre o trio.
"Muito bem, está na hora," disse Lebri, perdendo seu tom descontraído e assumindo uma expressão de extrema gravidade.