Capítulo Dezenove: Versalhes (2)
Quando Kavli e Kormer chegaram aos arredores do Pavilhão de Caça de Versalhes, podiam avistar de longe o estacionamento e as vastas cocheiras, repletos de carruagens que se perdiam no horizonte. Os cocheiros, em grupos, descansavam ao lado da sala de repouso junto às cocheiras, fumando e conversando animadamente.
A chegada de Kavli e Kormer não chamou a atenção de ninguém. Carruagens como a de Kavli eram comuns, e mesmo as mais luxuosas, adornadas com brasões de famílias nobres, não eram novidade ali. Aquele era o local de lazer de Sua Majestade, e os que o acompanhavam eram, invariavelmente, grandes nobres, ministros do reino, ou magnatas e agiotas ricos.
O solo espesso, uma mistura de terra amarela e cinzas vulcânicas, estava perfeitamente compactado, formando uma ampla avenida que levava diretamente ao interior do pavilhão. Uma guarda de honra imponente permanecia erguida diante do portão interno, seus uniformes resplandecentes, combinados com espadas reluzentes e faixas de mérito, conferiam-lhes uma altivez marcante.
Ao redor do pavilhão estendia-se um pomar de laranjeiras. O terreno desse jardim descia suavemente para o sul, pois fora construído sobre uma encosta relativamente íngreme. Para evitar a erosão, o arquiteto projetou um corredor central dentro do jardim, ligando-o aos corredores laterais. Assim, as altas arcadas do pomar eram sustentadas por fileiras de colunas, estabilizando o solo e retendo a umidade.
A avenida principal e o corredor central cruzavam-se em forma de cruz, conduzindo ao centro do conjunto de edifícios em forma de ferradura. No coração dessa ferradura havia um amplo gramado de vinte hectares, pontuado aqui e ali por esculturas e fontes de diversos tamanhos. Caminhos de pedra dividiam o gramado em múltiplos setores, onde árvores e arbustos sempre-verdes, cuidadosamente podados, estavam dispostos com esmero. Passeando por ali, era comum encontrar as figuras mais ilustres do reino: políticos, artistas, músicos, poetas e acadêmicos.
Ao redor do gramado, uma sucessão de edifícios, incluindo o corredor de vidro e os pavilhões norte e sul, estendia-se em uma linha semi-serpenteante entre o verde e o bosque de bétulas. Atrás deste bosque, uma densa mata mista de pinheiros e outras árvores subia a encosta e se estendia a oeste, formando a essência do parque de caça real. Cercas robustas separavam o bosque de bétulas das colinas, impedindo que feras como ursos e javalis invadissem as áreas residenciais e de lazer do pavilhão.
Os grandes nobres, ministros e dignitários visitantes costumavam reunir-se no salão de lazer à esquerda, próximo aos aposentos reais e às duas salas de recepção, onde conversavam descontraidamente. Comerciantes e agiotas preferiam o salão à direita, e, por vezes, os responsáveis pelas finanças do reino também ali compareciam para encontros mais informais. Caso o rei os convocasse, atravessavam o corredor de colunas para uma das salas de recepção, onde eram recebidos por Sua Majestade.
Kavli parecia muito familiarizado com o local. Em pouco tempo, graças a conhecidos, encontrou a pessoa que buscava: um oficial encarregado das questões de imigração interna, que viera acompanhar o administrador-geral do reino naquele fim de semana junto ao rei. A relação entre comerciantes e funcionários era simples: ao receber um cheque de saque do banco de prata, o funcionário, antes impaciente, tornou-se cordial e atencioso, ouvindo com educação a apresentação de Kavli e de seu amigo.
No caso de Kormer, um pequeno senhor de terras desconhecido vindo de fora, o oficial mostrava pouco interesse em conhecê-lo. Após um aperto de mão frio e formal, pediu-lhe diretamente que expusesse seu motivo para solicitar audiência com o administrador-geral.
Assim que Kormer detalhou a situação do Cáucaso, a necessidade urgente de mão de obra em sua terra devido à descoberta de minas, e seus planos, o oficial demonstrou súbito interesse. Afinal, Kormer sugeria a chegada de um grande contingente populacional. Com certa dose de exagero, ele mencionou duas minas de ferro recém-descobertas — quando na verdade era apenas uma — e insinuou avanços promissores na prospecção de carvão, além de afirmar que a construção de estradas exigiria muitos trabalhadores sem grandes qualificações. Essa apresentação, meio verdadeira, meio fantasiosa, convenceu o oficial de que aquilo poderia ser o destino ideal para os inúmeros refugiados retidos no reino vizinho ocidental. Contudo, lamentou que o Cáucaso fosse distante e carecesse de infraestrutura suficiente para receber tantos refugiados; no máximo, poderia aliviar um pouco a situação.
Generosamente, o oficial prometeu interceder junto ao administrador-geral do reino, marcando uma audiência para breve. Após receber discretamente outro pequeno saco de seda de Kavli, garantiu que no dia seguinte providenciaria o encontro e que recomendaria pessoalmente os dois.
Observando o oficial desaparecer com passos bamboleantes e o semblante imperturbável de Kavli, Kormer sentiu-se desapontado. Era aquela a conduta dos funcionários do reino? Pareciam piores que os de Ceprús, que, embora igualmente gananciosos, ao menos mantinham as aparências. Ali, no entanto, não hesitavam em exigir subornos abertamente, mesmo de um senhor de fora, deixando claro que sem dinheiro nada se conseguia. Kormer percebeu, assim, o quão enraizada era a corrupção na burocracia do reino.
Enquanto acompanhava Kormer em um passeio pelo gramado, Kavli percebeu seu desânimo. Perspicaz, compreendeu o motivo da preocupação do amigo e comentou:
— Senhor Barão, ficou decepcionado com o que viu hoje, não foi?
— Senhor Kavli, sei que os burocratas são assim em todo lugar, Ceprús não é exceção. Mas essa desfaçatez me surpreende, sobretudo diante do flagelo dos orcs. Em vez de preocupação, vejo apenas festas e ostentação. Não entendo isso — respondeu Kormer, a voz grave e o olhar distante perdido no horizonte.
Kavli encolheu os ombros, compreendendo o sentimento do amigo, mas, como comerciante, via vantagens naquele sistema: era mais direto, tudo se resolvia com dinheiro, melhor do que lidar com hipócritas que, contrariados, armam ciladas e dificultam as coisas.
— Senhor Barão, pense bem: esta é a capital política do Reino de Nicósia. Em um reino tão vasto, todos os grandes assuntos se concentram aqui. Os funcionários também são humanos, precisam de lazer e, claro, de dinheiro para viver. Desde que os orcs intensificaram seus ataques ao norte, a situação na corte só piorou. Para conter despesas, cortaram-se gastos, reduziram-se salários e até as visitas do rei ao Pavilhão de Caça tornaram-se menos frequentes, tudo em nome da economia. Mas o reino precisa manter as aparências: para fora, continua sendo motivo de admiração, não pode mostrar fraqueza ou preocupação em excesso, pois isso apenas encorajaria os orcs e alarmaria os vizinhos. Por isso, manter esse fausto é necessário — explicou Kavli, demonstrando profunda compreensão dos meandros políticos.