Capítulo Dois – A Mão do Demônio
“Parece que vossa senhoria tem um coração difícil de domar pela magia. Sendo nobre de um reino e senhor de terras, eu pretendia mostrar clemência, dispensando a lei; se estivesse disposto a abandonar as práticas cruéis da magia negra, eu até estaria disposto a encaminhá-lo à nossa Igreja da Luz para aprender. Não gostaria de ver alguém com o seu talento sucumbir de forma tão trágica. Contudo, percebo que estava enganado: o fogo maligno já impregnou todo o seu espírito e corpo, e para libertá-lo será preciso um remédio amargo.” Maillon mantinha-se sereno, mas já começava a murmurar um feitiço em pensamento, sabendo que apenas um confronto decisivo poderia trazer um desfecho naquele dia. “Ainda assim, resta-me uma dúvida: se já havia me evitado, por que veio até mim de forma tão deliberada?”
“Ha ha ha, belo raciocínio. Talvez nossos propósitos e vontades estejam além dos comuns. Como magos, encontrar uma libertação assim é um preço justo. Permita-me, então, testemunhar se a magia da luz de Maillon será capaz de purificar aquilo que em vossa Igreja da Luz é tido como a fonte de toda corrupção. Quanto ao motivo de procurá-lo, peço-lhe desculpas, mas não posso responder sem quebrar minha promessa.” Mal terminou de falar, Kormer deixou de lado a cordialidade; em seu olhar brilhou a intenção mortal. Com um gesto, as largas mangas se transformaram em uma colossal coluna de vento. Uma fúria de terra girou enlouquecida, rompendo o solo coberto de ervas e lançando folhas e lama ao ar. No instante seguinte, metamorfoseou-se em uma muralha de terra negra em forma de dragão, avançando com estrondo sobre o sacerdote de manto púrpura, a menos de dez metros de distância.
Maillon sabia que o adversário, ao desafiar-lhe sozinho, certamente ocultava algum golpe mortal. Entretanto, não esperava que o ataque inicial viesse por meio de magia elemental da terra, algo que o surpreendeu profundamente. Os feitiços da luz, preparados para enfrentar magia negra, mostraram-se inúteis diante do colossal escudo de terra, que avançava com força avassaladora.
Era um duelo raro entre magos; qualquer espectador comum não acreditaria que um só homem pudesse causar tamanha devastação. As palavras mágicas invocadas alteraram rapidamente os elementos do ar, distorcendo até o espaço ao redor. Árvores nas proximidades sacudiram-se como se uma mão invisível as agitasse.
Diante do dragão de terra, Maillon, ainda despreparado, teve de evitar o golpe. Usou com facilidade um pequeno feitiço de transposição espacial, movendo-se dois metros à esquerda. Kormer sequer conseguiu acompanhar o deslocamento da figura púrpura, e o dragão de terra passou em vão, inundando o ar com um forte odor de terra.
Kormer apontou com o dedo, e o dragão de terra, ao perder o alvo, encolheu-se formando um arco semicircular. Com uma transformação súbita, a cabeça aumentou e virou um imenso funil em espiral, atacando de novo, agora de lado. Desta vez, Maillon não recuou. Firme, conjurou com os dedos uma chama de luz que se multiplicou em incontáveis espadas de luz, encontrando o dragão de terra em pleno voo. Explodiu-se em fragmentos de lama, folhas e galhos secos, promovendo um caos no cenário.
Nada disso desviou a atenção dos dois contendores, que sentiam o peso da batalha. Maillon ficou impressionado não só com o poder do adversário, mas com sua maestria sobre magia elemental, capaz de ocultar facilmente sua natureza sombria. Se não tivesse percebido tal essência por acaso, a dissimulação de Kormer teria enganado muitos por muito tempo. Além disso, havia algo oculto em seus olhos profundos, talvez relacionado à própria Igreja da Luz, embora não pudesse saber ao certo naquele momento.
Kormer também ficou surpreso com a força de Maillon. Misturando magia negra à magia da terra, pretendia confundir e contaminar o inimigo com energia sombria oculta na lama. Bastaria um fragmento atingir o sacerdote, e a vantagem seria dele. Contudo, as espadas sagradas dissiparam instantaneamente toda energia negra; a natureza antagônica da magia anulou qualquer efeito, deixando Kormer inquieto diante do poder do sacerdote de manto púrpura.
Os olhares, como dois feixes de luz condensada, mantinham-se fixos um no outro. De repente, Kormer sorriu, exibindo dentes brancos: “Senhor Maillon, parece que precisamos trocar experiências. Em poucos golpes, não haverá vencedor.”
“Se o barão tem interesse, Maillon não se furtará ao desafio.” O sacerdote de manto púrpura respondia com um sorriso sereno, irradiando benevolência.
Sem mais palavras, ao som de um resmungo, Kormer fez brotar do chão inúmeras vinhas gigantes que, de súbito, envolveram o sacerdote desprevenido. Como serpentes, as vinhas apertavam cada vez mais, ameaçando sufocá-lo. Kormer sabia, porém, que não seria tão fácil; se fosse, já teria eliminado os sacerdotes da Igreja da Luz e não teria de fugir dos cavaleiros da instituição.
Um brilho vermelho-escarlate relampejou no rosto do sacerdote; com um movimento sutil dos lábios, seu corpo, envolto pelas vinhas verde-escuras, tremeu intensamente. Uma chama radiante explodiu de sua boca, espalhando-se pelo corpo, queimando ferozmente. Por um instante, parecia um homem feito de fogo, uma chama branca e sagrada iluminando o campo, com um som agudo que ecoava. As vinhas tornaram-se chamas, exalando um odor fétido, enquanto um líquido escuro escorria e penetrava o solo, levantando fumaça azulada e provocando repulsa.
Com um gesto, o sacerdote tremeu novamente, e as vinhas que antes o envolviam firmemente tornaram-se frouxas e perderam toda vitalidade, sumindo no solo.
Kormer respirou fundo. Aquele feitiço, “Mão do Demônio”, era fruto de suas pesquisas, inspiradas pelos símbolos misteriosos de um pergaminho de pele de carneiro. Embora não compreendesse os escritos, alguns símbolos mágicos lhe deram ideias. A planta utilizada era resistente, mas ao misturar magia da madeira com corrosão negra, esperava um efeito devastador. Já havia testado o líquido corrosivo em chapas de ferro, que eram atravessadas instantaneamente; contudo, não conseguiu penetrar a defesa mágica do sacerdote. “Será que o poder desse sujeito é mesmo tão extraordinário?” pensou, começando a duvidar se não havia sido imprudente ao agir daquela forma.