Capítulo Vinte e Quatro: Armando a Cilada

Destino Místico dos Céus Raiz da Sorte 3652 palavras 2026-02-07 12:28:42

Deitado na cadeira de balanço que se movia sem cessar, um homem idoso vestido com um robe de dormir largo olhava absorto para o retrato acima da lareira, uma expressão de exaustão estampada em seu rosto há muito tempo. Um bilhete amassado foi lançado ao fogo, desaparecendo num lampejo de chamas.

O mordomo real permanecia respeitosamente a três metros atrás do idoso, imóvel, aguardando ordens. Parecia que o humor de Sua Majestade, o Rei, não estava nada bom. Desde que, na primeira metade do ano, os orcs começaram a lançar ataques maciços e contínuos ao norte, o humor do rei deteriorou-se completamente. Até mesmo sua atividade favorita, a caça, tornara-se rara; e, ao vir para o pavilhão de caça, passava mais tempo debatendo enfadonhos assuntos de Estado. Seus cabelos grisalhos haviam perdido o brilho e Tez suspirou internamente: talvez Sua Majestade estivesse realmente velho.

— Tez, você acredita que esse tal de Komer pode abrigar cem mil refugiados? Será que Cáucaso comporta tanta gente? — A voz grave soava abafada, como se estivesse resfriado.

— Majestade, sendo realista, Cáucaso não tem condições de receber tamanha quantidade de refugiados. No entanto, localizada ao sul, Cáucaso possui um clima invernal muito mais ameno que o norte, o que ajudaria os refugiados a sobreviver ao rigor deste inverno. No norte, estimo que pelo menos um terço destes desabrigados e famintos não sobreviveriam à estação. Em Cáucaso, talvez uma simples tenda lhes salve a vida — respondeu o mordomo, baixando a cabeça.

— Foi por este motivo que você aprovou esse plano? — O idoso recostou-se no encosto da poltrona, fechando os olhos.

— Majestade, não apenas por isso. O senhor de Cáucaso, apesar de jovem, é bastante ambicioso. E, o que é raro, mantém uma relação conflituosa com Filipe. Foi Filipe quem o mandou para Cáucaso, praticamente para morrer. Dizem que nenhum dos enviados como senhores de Cáucaso sobreviveu a um ano inteiro. Desta vez, parece que ele veio recrutar refugiados diretamente em Versalhes, contornando Filipe, o que desagradou muito a este último — Tez sorriu, sabendo que seu senhor apreciava este tipo de notícia.

De fato, o idoso abriu os olhos, reluzentes:

— Ah, então você acha que esse sujeito conseguirá sobreviver em Cáucaso?

— Não me atrevo a afirmar, Majestade, mas há algo estranho nesse homem. Tenho uma intuição de que ele não é nada simples; talvez seja capaz de criar milagres. Ouvi dizer que os comerciantes da Sociedade dos Pés Descalços também se associaram a ele, aparentemente como parceiros — o duque de Tez hesitou antes de concluir.

— Então, sua sugestão é apoiá-lo nessa empreitada?

— Majestade, independentemente do sucesso, ao menos, por hora, não damos margem para reclamações de Nápoles e Média. Já que acolhemos refugiados, eles também deverão assumir responsabilidades. Se aquele homem conseguir se manter em Cáucaso, melhor ainda: teremos uma peça para conter Filipe no sul. Caso fracasse, nada perderemos; ao menos teremos proporcionado refúgio aos necessitados e dado uma resposta ao povo. — Tez deu de ombros, despreocupado. — Mas, sinceramente, espero que ele resista. Filipe e Zélim têm se excedido cada vez mais nos últimos anos. Receio que, sem um contrapeso, se o reino continuar gastando recursos sem limites contra os orcs no norte, em breve Vossa Majestade se verá escravizado pelas dívidas com esses grandes senhores. Eles pedirão ainda mais privilégios e talvez o Edito de Utrecht tenha de ser revogado.

O idoso apenas resmungou, sem dar resposta.

— Majestade, desejo ainda lhe alertar: o príncipe Hofmann está se aproximando demais da filha de Filipe. Ouvi dizer que ele pediu a mão dela em casamento. Vossa Majestade e a Rainha estão cientes?

— Estou, sim. É assunto da próxima geração, não quero interferir — o idoso tornou a fechar os olhos.

— Majestade, para garantir a estabilidade do reino, recomendo que considere cuidadosamente os prós e contras dessa união — insistiu o mordomo, firme.

O silêncio voltou a dominar o aposento. A luz dourada do fim da tarde filtrava-se pela cortina de veludo, projetando longas sombras do guerreiro de pedra à janela. O machado erguido da estátua desenhava contornos distorcidos no assoalho, e o jogo de luz e sombra fazia o guerreiro parecer ganhar vida, exibindo uma beleza vigorosa e cheia de curvas à mercê do sol.

O sacerdote de túnica púrpura acabara de terminar uma carta e, satisfeito, relia o conteúdo. Havia feito uma descoberta notável: um nobre senhor feudal era, na verdade, um mago — e não um mago qualquer, mas alguém que ocultava profundos poderes de magia negra. Embora esse homem disfarçasse bem, sua própria percepção e intuição eram afiadas, e Melon não conseguia se livrar da sensação de que havia segredos inconfessáveis ali, talvez de proporções impressionantes. Um senhor feudal e um mago negro — duas identidades que jamais se imaginaria unidas, mas ele se deparara com isso.

Ordenou ao criado que enviasse sua carta a Marco e sentiu-se aliviado. Aquele sujeito ainda se envolvera com Cavli. Deveria avisar Cavli? Não, não valia a pena; esses mercadores só se movem por interesse e jamais dariam ouvidos a conselhos infundados. O melhor seria deixar que os fatos falassem por si.

— Senhor Mago! — chamou o guarda do lado de fora.

— O que houve? — Melon abriu a porta, arqueando as sobrancelhas. Era hora de dedicar-se ao treinamento, e ser interrompido o desagradava.

— Chegou uma carta para o senhor, a ser aberta apenas por vossa pessoa — informou o guarda, reverente, entregando-lhe um envelope de aparência elegante.

Surpreso, Melon abriu o envelope e encontrou apenas uma folha em branco. Leu em voz baixa: “Ao cair da tarde, portão da cerca atrás do bosque de bétulas, caminhe quinhentos metros para oeste. Assinado: Um conhecido.” Virou o papel, mas não havia selo ou marca alguma. Seria uma brincadeira? Mas todos em Versalhes sabiam que ele jamais brincava. Ou talvez uma pegadinha? Melon examinou cuidadosamente o envelope: apesar de bonito, era facilmente encontrado em qualquer papelaria; a caligrafia era graciosa e o papel exalava um leve perfume, mais parecido com algo escrito por uma dama. O que significava aquilo?

— Quem entregou? — A surpresa desapareceu rapidamente; Melon dobrou a carta e guardou-a no envelope, que colocou junto ao peito.

— O guarda da entrada do pavilhão de caça recebeu de um homem de meia-idade vestindo capa cinza. Ninguém viu seu rosto — respondeu o guarda, respeitosamente. Para eles, magos eram seres cheios de mistérios, e esses métodos de comunicação só reforçavam a aura de singularidade. — Senhor, há algum problema?

— Ah, nada demais; é um velho amigo, tem o hábito de marcar encontros assim. Não imaginei que também estivesse em Versalhes — Melon não queria causar alvoroço por algo tão estranho. Preferia ser discreto até entender a situação.

O portão atrás do bosque de bétulas permanecia sempre fechado, pois dali se tinha acesso direto ao parque de caça favorito de Sua Majestade. O parque era imenso, ultrapassando cem quilômetros quadrados, repleto de colinas e florestas, abundante em veados, corças e outros animais, além de ursos e javalis que por vezes surgiam. Havia até um pequeno lago frequentado pelos animais, onde o rei costumava caçar.

Entre o bosque de bétulas e as matas mistas, uma cerca de madeira demarcava a separação entre o parque e o pavilhão de caça. Recentemente, o rei fizera ali uma caçada, então novas caçadas não estavam previstas, e o portão estava trancado. Mas para um mago, isso não era obstáculo.

O tapete de folhas caídas recobria o solo entre arbustos e árvores, rangendo a cada passo, por vezes com estalos quando galhos secos se partiam. De quando em vez, ouvia-se o rumor de um coelho ou uma rola pelos arbustos. Os sentidos do sacerdote de púrpura estavam aguçados; parecia-lhe até escutar a respiração das árvores, transmitida pela terra e o ar.

Já percebera a presença de alguém no local combinado. Tinha a vaga sensação de que esse encontro estranho estava ligado ao excêntrico senhor feudal que conhecera pela manhã, mas essa era apenas uma intuição; só vendo a pessoa poderia realmente entender.

Apesar de estar nos arredores de Versalhes, Melon era cauteloso. Não temia más intenções, pois magos de seu calibre tinham um sexto sentido apurado para o perigo. Danos externos dificilmente o atingiam, e a ideia de que magos eram vulneráveis em combate corpo-a-corpo não se aplicava a ele. Podia lançar facilmente, em pouco tempo, magias das mais diversas naturezas e escalas, tanto ofensivas quanto defensivas. Por isso, não se preocupou com o local isolado.

Mesmo que houvesse uma armadilha, Melon estava seguro de sua capacidade de lidar com qualquer ameaça. Confiava plenamente em sua força — poucos no reino poderiam feri-lo, a não ser que preparassem uma emboscada meticulosa. Ao aproximar-se do ponto combinado, sua percepção já vasculhara um raio de cem metros: além dele, havia apenas outra pessoa, nenhuma ameaça oculta.

Era uma clareira rara, cercada de árvores altas, onde o solo, provavelmente rochoso, dificultava até o crescimento dos arbustos, que apareciam esparsos nos vãos das pedras de basalto cinzento. No meio das rochas irregulares e dispersas, uma figura alta e magra, envolta num manto cinza escuro, permanecia de costas, sobre uma pedra elevada. Uma atmosfera inquietante pairava no ar, tornando até a luz morna do sol desprovida de calor.

Melon avançou a passos lentos, observando com calma a silhueta cuja cabeça estava inteiramente coberta. Sentiu o peso do ambiente, mas não teve medo. Já enfrentara hordas de orcs enlouquecidos com a mesma serenidade; não acreditava que aquele estranho pudesse surpreendê-lo.

Ao ouvir os passos do sacerdote, a figura, até então imóvel, finalmente se virou.

— Então era você! — O sacerdote de túnica púrpura estacou, mas logo um sorriso de compreensão iluminou seu rosto e ele assentiu com firmeza. — Vejo que tudo estava premeditado.