Capítulo Vinte e Um: A Negociação

Destino Místico dos Céus Raiz da Sorte 2769 palavras 2026-02-07 12:28:42

Kormer percebeu no tom do Ministro do Interior uma insatisfação velada com a conduta de certos senhores feudais do reino, e estava claro que esses senhores não eram figuras obscuras dos confins, como ele mesmo, mas sim poderosos barões de grande influência. Ficou igualmente evidente que o Ministro desejava usar o gesto de Kormer ao aceitar refugiados como exemplo para os outros senhores. Se ele realmente seguisse a vontade do Ministro, é provável que despertasse o descontentamento desses nobres; ainda assim, Kormer precisava urgentemente de mão de obra, e, afinal, não conhecia nenhum daqueles grandes senhores, e duvidava que algum deles se interessasse por ele. Melhor seria arriscar e, quem sabe, cativar esse alto funcionário, ou até mesmo o próprio rei.

Com tal raciocínio, Kormer sentiu-se subitamente animado, ponderando rapidamente sobre os prós e contras. Contudo, não pretendia aceitar sem restrições a proposta do Ministro do Interior: poderia acolher refugiados, sim, mas não sem impor algumas condições.

— Excelência, estou disposto a acolher refugiados dentro do máximo de minha capacidade, conforme vossa orientação. Aliviar o fardo de Sua Majestade é dever e honra de todo súdito fiel. Contudo, o número de necessitados já ultrapassa em muito o que o Cáucaso pode suportar. Como já expus, minha intenção ao vir aqui era receber trabalhadores robustos e, portanto, não posso acolher um número excessivo de idosos, mulheres e crianças. Ainda que o fizesse, diante da situação financeira do Cáucaso, temo que não conseguiríamos evitar a fome na próxima primavera.

Kormer falou com sinceridade, explicando calmamente suas dificuldades ao Duque de Taiz.

Taiz acenou com a cabeça, satisfeito com a franqueza do interlocutor. A honestidade em expor desejos e limites mostrava que, ao menos nesse ponto, Kormer era um homem digno de confiança. Isso contrastava com o que Filipe lhe dissera, descrevendo-o como um misto de patife e trapaceiro. Porém, até o momento, o jovem senhor mostrava-se astuto, mas também dotado de uma sinceridade necessária a qualquer líder. Com Filipe cada vez mais insolente, talvez valesse a pena ao rei e a ele próprio plantar um espinho contra o velho duque, e esse Cáucaso remoto poderia ser o terreno ideal — afinal, se algo desse errado, nada haveria a perder.

Kormer, claro, não fazia ideia de que já estava sendo cogitado como peça de contenção contra Filipe. Ele tampouco imaginava ter força para tanto. Seu foco era convencer o hesitante Ministro do Interior a aceitar seus termos para receber os refugiados. Mas o tom do Ministro revelava o desejo de que ele assumisse uma parcela ainda maior de responsabilidade, acolhendo mais refugiados do que podia. Isso, porém, era algo que não se atrevia a prometer, pois envolveria muitos desdobramentos.

— Excelência, se tiver alguma sugestão melhor, estou disposto a ouvi-la atentamente.

Ao notar que o Duque de Taiz ainda ponderava, Kormer não conteve a ansiedade e tomou a palavra.

— Veja bem, Barão, tanto na Cidade-Estado de Meinn quanto em Susol, o número de refugiados já ultrapassa cem mil, enquanto o Ducado de Melen abriga mais de cento e cinquenta mil. Os reinos de Média, Nápoles e Niderland recusaram-se terminantemente a acolher essa gente, de olho em como o nosso reino reagirá. De fato, como disse, vinte mil refugiados é um número exorbitante. O reino tentou dividir a carga entre vários senhores, mas todos recusaram, alegando oposição popular em seus domínios, deixando Sua Majestade em situação delicada. Já que vossa senhoria está disposto a ajudar, minha proposta é que aceite entre oitenta e cem mil refugiados, e os demais seriam distribuídos entre os outros três reinos. Peço demais?

Após longa hesitação, o Duque lançou a bomba.

— O quê? Oitenta a cem mil? Excelência, o senhor está brincando comigo?

Mesmo preparado para más notícias, Kormer não esperava por tamanho impacto. Ficou boquiaberto, encarando o Duque de Taiz.

— Barão, acha que eu brincaria numa situação dessas? — replicou o Duque, sorrindo de maneira quase imperceptível.

— Mas, excelência, já expus as limitações do Cáucaso. Aquelas terras, em qualquer circunstância, não podem receber tanta gente — respondeu Kormer, engolindo seco e tentando manter a calma, pois sabia que, se o Duque falava assim, tinha razões para convencê-lo.

— Compreendo sua dificuldade, mas também peço que compreenda a do reino. O desenvolvimento futuro do Cáucaso exigirá mais trabalhadores. Essa é uma oportunidade única. Para ser franco, há quem não deseje que aceite esses refugiados. Se souber aproveitá-la, pode ser o impulso que Cáucaso precisa para crescer.

O Ministro do Interior fitou Kormer com intensidade, cada palavra carregada de intenção.

— Excelência, sei bem de quem fala. Trata-se dos mesmos que, como mencionou, ignoram o bem comum e só pensam nos próprios interesses. Não vale a pena mencioná-los e estragar nosso diálogo. Tenho certeza de que vossa opinião não se deixará contaminar pelas injúrias desses tolos — respondeu Kormer, com um brilho sombrio nos olhos.

— É um alívio tratar com um homem inteligente. Quanto à questão dos refugiados, desejo que possa acolhê-los todos em nome do reino. Não vou sobrecarregá-lo — sei que o Cáucaso não suporta isso sozinho. Ordenarei que negociem com os outros três reinos para garantir algum auxílio financeiro, ainda que modesto, para suprir a falta de alimentos no inverno. Tem confiança de que poderá enfrentar esse desafio?

Satisfeito, o experiente Ministro do Interior percebeu, no olhar sombrio do jovem senhor, exatamente o que desejava. Só por isso, valia a pena “cultivar” Kormer como uma pedra no sapato de Filipe.

Embora o Duque falasse com leveza, Kormer sabia que o risco era imenso. Uma população de refugiados tão grande faria os poucos habitantes do Cáucaso parecerem irrelevantes. Caso algo saísse do controle, ele não teria força para reagir, e quem pagaria o preço seria ele mesmo. Contudo, era claro que o Duque não queria envolver outros; misturava ameaça e sedução em cada frase, tornando impossível recusar. Se aceitasse, estaria preso à situação para sempre.

O suor que se formava na testa de Kormer divertia Taiz. Ganhos exigem riscos e sacrifícios; no mundo, não há milagres gratuitos. Quisera mão de obra barata, teria de aceitar o pacote completo.

Ao deixar a sala do Ministro, Kormer percebeu enfim o suor frio em suas costas. Uma brisa fria o despertou, e sua mente pareceu mais clara do que nunca. Aquele velho lobo, Taiz, já tinha tudo planejado antes mesmo de recebê-lo, simulando surpresa e ainda usando Filipe como instrumento de pressão. Mas Kormer não conseguia entender por que o obrigavam a receber tantos refugiados — se era apenas para aliviar a pressão do reino, tudo bem, mas de qualquer ângulo parecia favorecer Cáucaso, especialmente depois que o Duque prometeu pressionar Nápoles e os outros reinos a fornecer uma boa soma em auxílio. O que, afinal, pretendia o Ministro do Interior?

Kormer balançou a cabeça, recusando-se a pensar mais nisso. A prioridade era garantir que a chegada de pelo menos oitenta mil refugiados transcorresse sem problemas. Embora os invernos do Cáucaso fossem mais amenos que os do norte, isso não significava tranquilidade. Sem comida, abrigo ou tendas suficientes, a sobrevivência seria impossível, e, caso a necessidade se fizesse sentir, uma rebelião logo explodiria. Só de pensar, Kormer sentiu-se tomado pela inquietação.